Por Aluísio Azevedo (1884)
— E acredita que isto em mim é raro! Pergunta aí aos meus colegas se sou de muitas amizades; todos eles te dirão que ninguém há mais concentrado e metido consigo. Mas, quando simpatizo deveras com uma pessoa é assim, como vês, trago-a para o seio de minha família e trato-a como irmão!
E, descaindo no tom primitivo da conversa:
— Se ficares aqui, como espero, verás com o tempo as sinceridade do que te estou dizendo! É que gostei de ti, acabou-se.
Amâncio jurava corresponder àquela amizade, mas, no íntimo, ria-se do Coqueiro, que agora lhe parecia tolo, e cujo casamento com a francesa velhusca o tornava, a seus olhos, cada vez mais ridículo.
Ao passarem pelo salão concordaram que aquilo era um excelente lugar para uma “boa prosa”.
Amâncio teria tudo isso às suas ordens; podia dispor!...acrescentou o outro. E, abrindo cuidadosamente a porta do gabinete que ficava ao lado, disse, com a entonação de um guarda de museu que vai mostra uma raridade:
— Eis o ninho que te destino! É o lugar mais catita de toda a casa: isto, porém, não quer dizer que os outros cômodos não estejam à tua disposição!...Se, mais tarde, te apetecer trocar de quarto...
E, logo que entraram, foi-lhe mostrando a caminha cheirosa, o pequeno lavatório de pedra-mármore; fê-lo notar o bom estado da cômoda, a elegância do velador, o artístico das escarradeiras.
— E, ali, o grande mestre! Clamou com ênfase, apontando para a gravura da parede.
— “Victor Hugo”, leu Amâncio debaixo do retrato — Bom poeta! Acrescentou.
— Creio que não ficarás mal , hein?...disse o outro.
— Ah! não! respondeu o provinciano, assentado-se fatigado em uma cadeira. E o preço?
— Ah! Isso depois ...minha mulher é quem sabe dessas coisas, mas não havemos de brigar!...
E riu.
— Ficas aqui muito bem! Serás tratado como um filho; quando precisares de qualquer cuidado, numa moléstia, numa dor de cabeça, hás de ver que te não faltará nada! Além disso — podes entrar e sair à vontade, livremente, às horas que entenderes; se gostas de teu chazinho à noite, com torradas, hás de encontrá-lo, abafado, à tua espera sobre aquela mesa. De manhã, se quiseres o café na cama, também terás o teu café e quando estiveres aborrecido do quarto, tens o salão, tens a sala de jantar, a chácara, o jardim; finalmente tens tudo às tuas ordens!
— Agora, quanto a certas visitas...concluiu João Coqueiro, fazendo-se muito sisudo e abaixando a voz, — isso, filho, tem paciência... Lá fora o que quiseres, mas daquela porta para dentro...
— Decerto! Apressou-se a declarar o outro, com escrúpulo.
— Sim! Sabes que isto é uma casa de família e, para a boa moral... — Mas certamente, certamente! Repetiu Amâncio.
E acendeu um cigarro.
CAPÍTULO VII
Dos hóspedes de cama e mesa só três compareceram ao jantar, — Lúcia, o marido e o tal gentleman de nome difícil. Paula Mendes estava de passeio com a mulher em casa de um artista.
Amâncio foi apresentado àqueles três pelo João Coqueiro. Trocaram-se bonitas palavras de etiqueta; fizeram-se os mentirosos protestos da cortesia e cada um tomou à mesa o seu lugar competente. Mme. Brizard, como era de costume, ocupou a cabeceira, defronte de uma pilha enorme de pratos fundos, os quais ia enchendo de sopa , um a um, paulatinamente, depois de rodar a concha três vezes no fundo da terrina; e, à proporção que os enchia, passava-os ao marido que nesse dia lhe ficara à esquerda, visto que a direita, seu lugar favorito, cedera-a ele ao novo hóspede.
Na ocasião de conferir-lhe semelhante honra, bateu-lhe carinhosamente no ombro e disse-lhe baixinho: — Ficas bem! Ficas junto a Loló!
Mme. Brizard, que ouvira estas palavras, acrescentou sorrindo:
— O Sr. Vasconcelos preferia talvez ficar entre as moças...
— Ó minha senhora!... balbuciou Amâncio, vergando-se para o lado da francesa. — Estou muito bem aqui; não podia desejar melhor vizinhança!...
E voltou o olhar a sua direita, onde Lúcia acabava de tomar assento.
Examinou-a logo, à primeira vista, sem o dar a conhecer, e a impressão recebida não foi das melhores. Achou-a esquisita, um tanto feia, um ar pretensioso, de doutora.
Era de estatura regular, tinha as costas arqueadas e os ombros levemente contraídos, braços moles, cintura pouco abaixo dos seios, desenhando muito a barriga. Quando andava, principalmente em ocasiões de cerimônia, sacudia o corpo na cadência dos passos e bamboleava a cabeça com um movimento de afetada languidez. Muito pálida, olhos grandes e bonitos, repuxados para os cantos exteriores, em um feitio acentuado de folhas de roseira; lábios descorados e cheios mas graciosos. Nunca se despregava das lunetas, e a forte miopia dava-lhe aos olhos uma expressão úmida de choro.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.