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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

— Para que, Amália, se a amo, e não posso e não devo amá-la! respondeu o marido. 

 

— Também eu o amo; mas não penso em matar-me! 

 

Hermano sorriu: 

 

— Não preciso matar-me; basta morrer. 

 

— Jura-me que não atentará contra sua vida? 

 

— Já disse, Amália. Não careço do suicídio. Para que soprar a luz, se ela apaga-se por si? 

 

— Mas dê-me sempre esse juramento para sossegar o meu coração. 

 

— Juro. 

 

— Por ela?... Por Julieta? 

 

— Sim. 

 

Estas cenas abalaram profundamente o espírito de Amália, que abandonou a idéia de separar-se do marido, naquelas circunstâncias, deixando-o sob a influência de tão sinistros pensamentos. Apesar da confiança que sempre tivera na lealdade de Hermano, o juramento deste não lhe dissipara as apreensões. Não suspeitava um ardil; mas temia uma fatalidade. 

 

Até ali, o recato tão natural em uma noiva, e ainda aumentado pela reserva do marido, lhe tolhia a liberdade na própria casa em que devia ser dona. Nunca se animara a penetrar no aposento de Hermano, nem se lembrara disso. 

 

Agora, porém, sua posição mudara. Tinha o dever de guardar e defender a vida do marido; e para isso carecia de toda sua vigilância e solicitude. Era mais que tempo de assumir a sua autoridade doméstica, sem a qual não poderia isentar-se da grave responsabilidade de esposa. 

 

Assim, quando no dia seguinte Hermano foi à cidade, ela, depois de haver obtido dele a promessa de voltar cedo e de o ter acompanhado com os olhos até perdê-lo de vista, saiu da janela resolvida a ensaiar o seu papel de dona de casa. 

 

Abreu, conforme o costume, acabava de arranjar o aposento do amo, e ia sair fechando a porta para guardar a chave no bolso, quando Amália entrou. Passado o seu espanto, o velho decidiu-se a ficar de guarda à moça, que se sentara em uma cadeira de balanço. 

 

Esse intento, porém, frustrou-se 

 

— Pode retirar-se, Abreu, disse a senhora com um tom brando, mas firme. 

 

O ex-furriel estremeceu, como se outrora o seu capitão lhe desse uma ordem contrária ao detalhe; e ficou imóvel. 

 

— Não ouviu? 

 

Aquela interrogação e o olhar que a acompanhara expulsaram o criado do gabinete. Ficando só, Amália fechou-se por dentro e começou a sua investigação.. Temia que o marido tivesse armas ocultas ou veneno. O que achou foram algumas chaves de aço dourado, enfiadas em um aro de prata. 

 

Adivinhou de que aposentos eram estas chaves, e abrindo com uma delas a porta de comunicação, passou ao toucador de Julieta. As janelas cerradas deixavam o interior em um tênue crepúsculo. 

 

Ao dar o primeiro passo, Amália recuou, e presa de súbita vertigem cairia, se as mãos não agarrassem convulsivamente as cortinas da porta. 


Instantes depois, recolhendo-se precipitadamente ao seu quarto, a moça caía de joelhos, banhada em lágrimas e murmurando: 

 

— Louco!.. Louco, meu Deus!...  


Capítulo 18 

 

Entrando no toucador de Julieta, escassamente alumiado pela claridade que filtrava entre as lâminas das rótulas, Amália tinha visto, ali sentada junto à mesa de charão, tal como lhe aparecera três meses antes, a desconhecida. 

 

Fora o abalo dessa visão que lhe causara a vertigem.  

 

Tornando a si, ainda a viu no mesmo lugar, impassível. Encheu-se de indignação e adiantou-se para expulsar de sua casa aquela indigna. 

 

Apesar do estrépito dos móveis arrastados, a desconhecida permanecia imóvel. 

 

Amália travou-lhe do pulso, e achou-o gelado. Era então um cadáver que tinha diante dos olhos? Não; apesar do horror que a invadiu, pôde afinal conhecer a verdade. 

 

Era uma figura de cera. 

 

Atônita com esta descoberta, a moça lembrou-se da vez que avistara a desconhecida recostada no sofá; e correndo ao quarto de dormir lá encontrou-a no mesmo lugar, coberta com um véu de seda. 

 

Era outra figura de cera representando a mesma mulher com a única diferença da posição. Não podendo imprimir movimento à estátua, o artista o tinha suprido com a mudança da atitude e do gesto. 

 

(continua...)

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