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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

À vista destas informações entendeu Lemos que não se podia prescindir de certas formalidades, dispensáveis no caso de ser o rapaz herdeiro necessário. O irmão de Emília era apenas remediado, e já custava-lhe bem agüentar com o peso de doze pessoas que tinha às costas, para arriscar-se ainda ao contrapeso de mais esta nova família em projeto. 

- Por nossa parte, não há dúvida, meu camaradinha. Arranje licença do papai, ou o reconhecimento por escritura pública; o resto fica por minha conta. 

Era uma recusa formal, porquanto Pedro Camargo jamais se animaria a confessar o seu amor ao pai, que lhe inspirava desde a infância, pela rudeza e severidade da índole, um supersticioso terror. 

- Sua família me repele, Emília, porque sou pobre e não posso e não posso contar com a herança de meu pai, disse o estudante a primeira vez que encontrou-se com a namorada. 

A irmã de Lemos sabia pelas explicações dos parentes, que efetivamente era aquele o motivo da recusa. 

- Ela o repele porque é pobre, senhor Camargo; mas eu o aceito por essa mesma razão.  

- Quer ser minha mulher ainda, Emília? Apesar da oposição de seus parentes? Apesar de não ser eu mais do que um estudante sem fortuna? 

- Desde que o motivo da oposição de meus parentes não é outro senão sua pobreza, sinto-me com forças de resistir. Que maior felicidade posso eu desejar do que partilhar sua sorte, boa ou má? 

- Eu não me animava a pedir-lhe esta prova de seu amor, Emília. Você é um anjo! 

Quinze dias depois, Pedro Camargo parava à porta de Lemos em um carro. Era a hora do chá; estavam todos na sala de jantar. Emília que se recolhera a pretexto de incômodo, desceu a escada sem que a percebessem. 

No dia seguinte pela manhã, Lemos, de jornal aberto, tomava nota dos anúncios, tarefa habitual com que estreava o dia, quando lhe entregaram uma carta. A capa era de relevos, e o conteúdo um quarto de papel cetim com estas palavras: Pedro de Sousa Camargo e D. Emília Lemos Camargo têm a honra de participar a V. S. o seu casamento. Rio de Janeiro  etc. 

Na casa de Lemos  ninguém acreditou em semelhante casamento. Para a família, a moça não era senão a amante de Pedro Camargo; e por conseguinte uma mulher perdida. 

Entretanto o casamento fora celebrado na matriz do Engenho Velho, em segredo, mas com todas as formalidades; pois os noivos eram maiores, e haviam requerido as dispensas necessárias. 

Por esse tempo o fazendeiro Lourenço de Sousa Camargo recebeu o aviso de que o filho vivia com uma rapariga que tirara de casa da família. Acrescentava o oficioso amigo que o estudante já se inculcava de casado; portanto não seria de espantar-se se coroasse a primeira extravagância com a loucura de semelhante união. 

Despachou imediatamente o velho um de seus camaradas, o mais decidido, com intimação ao filho para recolher-se à fazenda no prazo de uma semana. O emissário trazia ordem terminante de conduzí-lo à força, caso não obedecesse. 

Pedro Camargo arrancou-se aos braços de sua Emília prometendo-lhe voltar breve para não mais separarem-se. Passados os primeiros assomos da irritação do velho, aproveitaria qualquer ocasião para confessar-lhe tudo. O pai, que o amava, não lhe negaria o perdão de uma falta irremediável santificada pela religião. 

Faltou, porém, ao moço a coragem para afrontar novamente as iras do fazendeiro com a revelação do seu casamento. Preparava-se, fazia firme tenção; mas no momento propício fugia-lhe a resolução. 

Assim correram os dias, e prolongou-se a ausência de Pedro Camargo. Escrevia ele à sua Emília longas cartas cheias de ternura e protestos, nas quais prometia-lhe partir dentro em poucos dias para levá-la à fazenda. 

Ao mesmo tempo e por intermédio de um amigo remetia à mulher os meios de prover à sua subsistência, enquanto não podia chamá-la para sua companhia; o que se realizaria logo que revelasse ao pai o segredo do casamento. 

Emília sofreu muito com essa ausência, não tanto pela posição falsa em que ficara, mas sobretudo pelo amor que tinha ao marido. Era porém feita para as abnegações; em suas cartas a Pedro, nunca lhe escapou a menos queixa. Longe de exprobrar-lhe os receios, que a mantinham na incerteza de sua sorte, ao contrário o consolava do remordimento que sentia de sua própria timidez. 

Ao cabo de um ano, desvanecidas senão dissipadas as suspeitas do velho fazendeiro, consentiu ele que o filho viesse à corte de passagem. 

Reviram-se os dois esposos depois de tão longa ausência, e amaram-se nesses poucos dias por todo o tempo da separação. 

Encontrou Pedro Camargo já com dois meses o seu primeiro filho, a quem deu o nome de Emílio, apesar das instâncias da mãe, que instava por Pedro. 

(continua...)

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