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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— Não tenhas medo: se eu fosse um assassino como tu, há muito tempo já teria te estendido morto, antes que soltasses ai Jesus! Vim para te matar em combate, e restituir a teu coração a lança que deixaste no corpo de meu pai. Encilha o cavalo, toma as armas, e sai cá para o campo. 

— Então reza o credo, que és um homem morto. 

Fechou-se a porta, e o Canho, parado a uma quadra, esperou o entrerriano. Este não tardou, vinha bem montado, e trazia um arsenal de armas: pistolas nos coldres, faca à cinta, lança na garupa, e as bolas meneadas na mão direita. 

Os dois inimigos arremeteram com igual sanha. À meia carreira o Barreda lançou as bolas; mas o Morzelo, atento e destro nesse exercício, parou, e de um tranco pôs-se fora do alcance do terrível projétil. Brandindo a lança, Manuel correu então sobre o castelhano. 

Mas este já tivera tempo de armar as pistolas, e com elas em punho esperava o gaúcho para atirar pelo seguro, a alguns passos de distância. Não logrou seu intento, pois o gaúcho fazendo escaramuçar o Morzelo, procurou de longe iludir a pontaria, para precipitar-se contra o inimigo apenas este lhe deixasse uma aberta, e cravar-lhe a lança. 

Foi então uma luta de rapidez e agilidade entre cavalos e cavaleiros; enquanto estes mudavam de atitude a cada instante, ora mascarando-se com o corpo do animal, ora, quando fugiam à desfilada, voltando a frente para não perder os movimentos do inimigo, os cavalos de seu lado apostavam de ligeireza e força nos galões que davam para o lado, e na prontidão com que empinavam para rodar sobre os pés, ou arremessar o salto. 

Afinal o gaúcho, aproveitando um descuido, investiu contra o Barreda, que desfechou um sobre outro seus dois tiros. Longe de se estirar pelo flanco do animal para cobrir-se, Manuel se expôs para não sacrificar o Morzelo: mas ele confiava na sua ligeireza e na segurança do olhar. A cada tiro mergulhava, por assim dizer, no espaço que o separava da terra. 

Ágil também, o castelhano evitou a ponta da lança, mas com o choque dos dois animais, esbarrado na disparada lhe resvalou um pé até o chão. Nada seria, pois facilmente ganharia ele a sela, se o Morzelo não tivesse mordido com raiva o pescoço do castanho. 

Vendo-se desmontado, Barreda correu para ganhar a porta da casa, onde se ouvia alarido e choro de mulher. 

Tomando então a manopla, e fazendo voltear as bolas, o gaúcho atirou-as; o castelhano caiu estropiado a cinqüenta passos da casa. Em um instante Manuel estava sobre ele, calcandolhe o pé no peito. 

— Pede perdão a Deus, que chegou tua hora. 

O castelhano de raiva emudecera. 

A mulher do Barreda prostrava-se nesse momento aos pés de Manuel, implorando compaixão para o marido. Riu-se o gaúcho com dureza e escárnio: 

— Virá outro marido para a consolar. 

Arredando a desgraçada mulher, chegou o ferro da lança aos olhos do castelhano:  

— Conheces!… É a lança com que há doze anos feriste meu pai à traição. Eu jurei que havia de cravá-la em teu coração, mas depois de vencer-te em combate leal. Chegou o momento. 

Com uma calma feroz, espetou o ferro da lança, no corpo do assassino de seu pai, atravessando-lhe o coração como faria com uma folha seca. 

Morzelo, que se conservava imóvel ao lado, durante toda esta cena, avançou a um sinal do senhor, e porventura ensinado, pisou com a pata a face contraída do moribundo, que ainda estremeceu, ante essa derradeira afronta. 

Enquanto a vítima se debateu nas vascas da agonia, Manuel a contemplou friamente. Quando se apagou o último vislumbre de vida, se afastou sem lançar um olhar de compaixão à mulher desmaiada. 

Nessa ocasião, o cavalo do morto chegou-se ao corpo para o farejar, soltando lamentos de dor. Comoveu-se o gaúcho com essa prova de amizade; e aproximando-se acariciou o animal. Queria ele consolá-lo da perda que sofrera? 

Súbito cortou os ares um henito fremente e aflito, ao tempo que reboava pela campanha o estrondo de um tiro. 

Manuel Canho tombou, rolando pelo chão. 

 

VIII 

A CRUZ 

 

Tanto que Manuel lanceara o entrerriano assomava no teso fronteiro um peão. 

Era esse o mesmo negro que, dois meses antes, o gaúcho encontrara perto da casa, em companhia do frade chamado para confessar Barreda. Pertencia ele à estância da qual era capataz o morto. 

Percebendo o que sucedera, e conhecendo que seu auxílio já não podia salvar a vítima, colheu o negro as rédeas ao cavalo, que a princípio arremessara na esperança de chegar a tempo. Saltou no chão, e por cima da sela, armado o trabuco, preparou a pontaria com a maior atenção. 

(continua...)

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