Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Que significa esse modo de falar de seu filho?
— Significa que sou corregedor desta comarca, e que não protejo assassinos por ciúmes, e ciúmes da filha dum homem, que eu detesto. Eu antes queria ver mil vezes morto Simão que ligado a essa família. Escrevi-lhe muitas vezes dizendo-lhe que o expulsava de minha casa, se alguém me desse a certeza de que ele tinha correspondência com tal mulher. Não há de querer a senhora que eu vá sacrificar a minha integridade a um filho rebelde, e de mais a mais homicida.
D. Rita, algum tanto por afeto maternal e bastante por espírito de contradição, contendeu largo espaço; mas desistiu, obrigada pela insólita pertinácia e cólera do marido. Tão iracundo e áspero em palavras nunca o ela vira. Quando lhe ele disse: — "Senhora, em coisas de pouca monta o seu domínio era tolerável; em questões de honra, o seu domínio acabou: deixe-me!" — D. Rita, quando tal ouviu, e reparou na fisionomia de Domingos Botelho, sentiu-se mulher, e retirou-se.
A ponto foi isto de entrar o juiz de fora na sala de espera. O corregedor foi recebê-lo, não com o semblante afetuoso de quem vai agradecer a delicadeza e implorar indulgência, senão que, de carrancudo que ia, mais parecera ir ele representar o juiz, por vir naquela visita dar a crer que a balança da justiça na sua mão tremia algumas vezes.
— Começo por dar a vossa senhoria os pêsames da desgraça de seu filho — disse o juiz de fora.
— Obrigado a vossa senhoria. Sei tudo. Está instaurado o processo?
— Não podia deixar eu de aceitar a querela.
— Se a não aceitasse, obrigá-lo-ia eu ao cumprimento dos seus deveres.
— A situação do senhor Simão Botelho é péssima. Confessa tudo. Diz que matou o algoz da mulher que ele amava...
— Fez muito bem — interrompeu o corregedor, soltando uma casquinada seca e rouca.
— Perguntei-lhe se foi em defesa, e fiz-lhe sinal que respondesse afirmativamente. Respondeu que não; que, a defender-se, o faria com a ponta da bota, e não com um tiro. Busquei todos os modos honestos de o levar a dar algumas respostas que denotassem alucinação ou demência; ele, porém, respondeu e replica com tanta igualdade e presença de espírito, que é impossível supor que o assassínio não foi perpetrado muito intencionalmente e de claro juízo. Aqui tem vossa senhoria uma especialíssima e triste posição. Queria valer-lhe, e não posso.
— E eu não posso nem quero, senhor doutor juiz de fora. Está na cadeia?
— Ainda não: está em minha casa. Venho saber se vossa senhoria determina que lhe seja preparada com decência a prisão.
— Eu não determino nada. Faça de conta que o preso Simão não tem aqui parente algum.
— Mas, senhor doutor corregedor — disse o juiz de fora com tristeza e compunção — vossa senhoria é pai.
— Sou um magistrado.
— É demasiada a severidade — perdoe-me a reflexão, que é amiga. Lá está a lei para o castigar; não o castigue vossa senhoria com o seu ódio. A desgraça quebranta o rancor de estranhos, quanto mais o afetuoso ressentimento de um pai!
— Eu não odeio, senhor doutor; desconheço esse homem em que me fala. Cumpra o seus deveres, que lho ordena o corregedor, e o amigo mais tarde lhe agradecerá a delicadeza.
Saiu o juiz de fora, e foi encontrar Simão na mesma serenidade em que o deixara.
— Venho de falar com seu pai — disse o juiz; encontrei-o mais irado do que era natural calcular. Penso que por enquanto nada pode esperar da influência ou patrocínio dele.
— Isto que importa? — respondeu sossegadamente Simão.
— Importa muito, senhor Botelho. Se seu pai quisesse haveria meios de mais tarde lhe adoçar a sentença.
— Que me importa a mim a sentença? — replicou o filho do corregedor.
— Pelo que vejo, não lhe importa ao senhor ir a uma forca?
— Não, senhor.
— Que diz, senhor Simão! — redargüiu espantado o interrogador.
— Digo que o meu coração é indiferente ao destino da minha cabeça.
— E sabe que seu pai não lhe dá mesmo proteção, a proteção das primeiras necessidades na cadeia?
— Não sabia; que tem isso? Que importa morrer de fome, ou morrer no patíbulo?
— Porque não escreve a sua mãe? Peça-lhe que...
— Que hei de eu pedir a minha mãe? — atalhou Simão.
— Peça-lhe que amacie a cólera de seu pai, senão o senhor Botelho não tem quem o alimente.
— Vossa senhoria está-me julgando um miserável, a quem dá cuidado saber onde há de almoçar hoje. Penso que não incumbem ao senhor juiz de fora essas miudezas de estômago.
— De certo não — redargüiu, irritado, o juiz — Faça o que quiser.
E, chamando o meirinho geral, entregou-lhe o réu, dispensando o aguazil de pedir força para acompanhá-lo.
O carcereiro recebeu respeitosamente o preso, e alojou-o num dos quartos melhores do cárcere; mas nu e desprovido do mínimo conforto.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.