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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Compreendeu Canho que a mãe sentia-se feliz vendo o contentamento do filho. Os raios daquela pupila cintilante penetraram em sua alma, e apagaram as sombras que um mau sentimento já aí espargia. 

De repente o espírito do gaúcho achou-se envolto em uma dessas ilusões agradáveis, que se estendem pelos horizontes da imaginação como lindas miragens. Representou-lhe a mente um casal de belas criancinhas, brincando na esteira; ao lado de uma linda moreninha que os contemplava rindo-se de gosto. 

E a ilusão foi tal, que Manuel começou a ver nas ondulações do lustroso pêlo da baia as inflexões de um colo airoso e os requebros sedutores do talhe da rapariga; nos saltos do poldrinho a graciosa petulância do menino. Ao mesmo tempo que por estranha confusão lhe parecia que as tranças aneladas de Jacintinha se desatavam pelas espáduas como a formosa clina de uma poldrinha, e o pé travesso batia o chão com a altivez e ardimento de um casco gentil. 

Arrancou-o do êxtase a voz da irmã. 

— Como se chama ele, Manuel? 

— O poldrinho? … Não sei. 

— Ah! ainda não tem nome!… Pois há de ser Destemido! 

O gaúcho abanou a cabeça. 

— Então, Voador. 

Repetiu Manuel o gesto negativo. 

— Está bom… Relâmpago? 

— Não, disse Canho apanhando a lembrança que despontara. Há de chamar-se Juca. 

— Juca!… O maninho que… 

Cravando um olhar rijo na menina respondeu ele pausadamente:  

— Sim; o mano que morreu. 

— Bravo! exclamou Jacintinha batendo as mãos. 

E repetindo aquele gazeio do princípio, começou de chamar o poldrinho, intermeando-lhe o nome. 

— Juca!… Juquinha!… tome, tome!… 

Correndo a ela o poldrinho, cingiu-o ao solo e o levou a Manuel. 

— Ande, sô Juca, ande, venha abraçar o mano! Assim!… 

A exclamação da menina, ao ouvir o nome do poldrinho, fora direita ao coração do gaúcho. Aplaudindo essa ressurreição de um ente querido na pessoa do lindo animal, Jacintinha entrara no ádito daquela alma exilada da sociedade humana. Juca era o elo que os unia, pois a menina se elevava até ele, considerando-o como um irmão. Pela vez primeira, Manuel estreitou a irmã ao peito, cingindo-a e ao poldrinho em um mesmo abraço. A égua veio roçar a cabeça ao ombro do gaúcho; e assim consagrou-se a doce comunhão daquela nova família.

— E ela?… 

— Chama-se Morena, respondeu o gaúcho, beijando a baia entre os olhos. 

 

VII 

A LANÇA 

 

Tinha decorrido um mês quando Manuel se pôs de novo a caminho para as margens do Uruguai, que atravessou no passo de Itaqui. Montava a Morena; adiante trotava o Juca, e ao lado gineteavam o Morzelo, o Ruão e o resto da tropilha. 

Desta vez o gaúcho ia devagar; receava chegar cedo; tinha medo que sua vingança lhe escapasse ainda. 

No fim da outra semana, estava em Entre-Rios, na casa de Perez. Quis perguntar pelo Barreda, e hesitou. Se ele tivesse morrido? Pouco durou essa inquietação. O entrerriano passara pela pousada na véspera. 

Manuel tomou outra vez, depois de três meses, a direção da casa. Avistando-a, recordouse do espetáculo a que assistira, e sentiu um movimento de compaixão, que logo abafou. O gaúcho não tinha ódio ao Barreda. 

A vingança da morte do pai não era para sua alma a satisfação de um profundo rancor; mas o simples cumprimento de um dever. Ele obedecia a uma intimação que recebera do céu; à ordem daquele que sempre tinha presente à sua memória. E obedecia friamente, com a calma e impassibilidade do juiz, que pune em observância da lei. 

Foi por isso que desta vez, avistando a casa, não sentiu a menor emoção. 

Recolheu a tropilha em um capoão e mudou os arreios da Morena, em que viera, para o Morzelo. O generoso cavalo, amigo fiel de João Canho, também devia ter sua parte na vingança. 

Eram 11 horas do dia; uma trovoada estava iminente, que nublava o céu, obumbrando os raios do sol. 

Manuel atravessou a esplanada a galope, e chegando à porta da casa, bateu com o cabo da lança. Instantes passados, apareceu na soleira um homem de baixa estatura e forte compleição, orçando pelos 50 anos. Era o Barreda; sua aparência já não conservava o menor vestígio da grave enfermidade. 

O gaúcho não deu tempo a que o entrerriano o reconhecesse, nem mesmo o interrogasse. 

— Tu não me conheces, Barreda. Sou Manuel Canho, filho do homem que assassinaste cobardemente. Bem sabes o que me traz aqui à tua porta, depois de doze anos. 

O castelhano recuara por precaução, apenas percebera o intento do gaúcho: 

(continua...)

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