Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— É parvo este homem! — disse o acadêmico. — Eu não discuto com sua senhoria... Minha senhora — disse ele a Teresa, com a voz comovida e o semblante alterado unicamente pelos afetos do coração. — Sofra com resignação, da qual eu lhe estou dando um exemplo. Leve a sua cruz, sem amaldiçoar a violência, e bem pode ser que a meio caminho do seu calvário a misericórdia divina lhe redobre as forças.

— Que diz este patife?! — exclamou Tadeu.

— Vem aqui insultá-lo, meu tio! — respondeu Baltasar, — Tem a petulância de se apresentar a sua filha a confortá-la na sua malvadez! Isto é de mais! Olhe que eu esmago-o aqui, seu vilão.

— Vilão é o desgraçado que me ameaça, sem ousar avançar para mim um passo — redargüiu o filho do corregedor.

— Eu não o tenho feito — exclamou enfurecidamente Baltasar — por entender que me avilto, castigando-o na presença de criados de meu tio, que tu podes supor meus defensores, canalha!

— Se assim é — tornou Simão, sorrindo — espero nunca me encontrar de rosto com sua senhoria. Reputo-o tão cobarde, tão sem dignidade, que o hei de mandar azorragar pelo primeiro mariola das esquinas.

Baltasar Coutinho lançou-se de ímpeto a Simão. Chegou a apertar-lhe a garganta nas mãos; mas depressa perdeu o vigor dos dedos. Quando as damas chegaram a interpor-se entre os dois, Baltasar tinha o alto do crânio aberto por uma bala, que lhe entrara na fronte. Vacilou um segundo, e caiu desamparado aos pés de Teresa.

Tadeu de Albuquerque gritava a altos brados. Os liteireiros e criados rodearam Simão, que conservava o dedo no gatilho da outra pistola. Animados uns pelos outros e pelos brados do velho, iam lançar-se ao homicida, com risco de vida, quando um homem, com um lenço pela cara, correu da rua fronteira, e se colocou, de bacamarte aperrado, à beira de Simão. Estacaram os homens.

— Fuja, que a égua está ao cabo da rua — disse o ferrador ao seu hóspede.

— Não fujo... Salve-se, e depressa — respondeu Simão.

— Fuja, que se ajunta o povo e não tardam aí soldados.

— Já lhe disse que não fujo — replicou o amante de Teresa, com os olhos postos nela, que caíra desfalecida sobre as escadas da igreja.

— Está perdido! — tornou João da Cruz.

— Já o estava. Vá-se embora, meu amigo, por sua filha lho rogo. Olhe que pode ser-me útil; fuja...

Abriram-se todas as portas e janelas, quando o ferrador se lançou na fuga. até cavalgar a égua.

Um dos vizinhos do mosteiro, que, em razão do seu ofício, primeiro saiu à rua, era o meirinho geral.

— Prendam-no, prendam-no, que é um matador! — exclamava Tadeu de Albuquerque.

— Qual? — perguntou o meirinho geral.

— Sou eu — respondeu o filho do corregedor.

— Vossa senhoria! — disse o meirinho, espantado; e, aproximando-se, acrescentou a meia voz: — Venha, que eu deixo-o fugir.

— Eu não fujo — tornou Simão. — Estou preso. Aqui tem a minhas armas.

E entregou as pistolas.

Tadeu de Albuquerque, quando se recobrou do espasmo, fez transportar a filha a uma das liteiras, e ordenou que dois criados a acompanhassem ao Porto. As irmãs de Baltasar seguiram o cadáver de seu irmão para casa do tio.

CAPÍTULO XI

O corregedor acorda com o grande rebuliço que ia na casa, e perguntou à esposa, que ele supunha também desperta na câmara imediata, que bulha era aquela. Como ninguém lhe respondesse, sacudiu freneticamente a campainha, e ferrou ao mesmo tempo, aterrado pela hipótese de incêndio na casa. Quando D. Rita acudiu, já ele estava enfiando os calções às avessas.

— Que estrondo é este? Quem é que grita? — exclamou Domingos Botelho.

— Quem grita mais é o senhor — respondeu D. Rita.

— Sou eu?! Mas quem é que chora?

— São suas filhas.

— E por quê? Diga numa palavra.

— Pois sim, direi: o Simão matou um homem.

— Em Coimbra?... E fazem tanta bulha por isso!

— Não foi em Coimbra, foi em Viseu — tornou D. Ri-ta.

— A senhora manga comigo?! Pois o rapaz está em Coimbra, e mata em Viseu! Aí está um caso para que as Ordenações do Reino não providenciaram.

— Parece que brinca, Menezes! Seu filho matou na madrugada de hoje Baltasar Coutinho, sobrinho de Tadeu de Albuquerque.

Domingos Botelho mudou inteiramente de aspecto.

— Foi preso? — perguntou o corregedor.

— Está em casa do juiz de fora.

— Manda-me chamar o meirinho geral. Sabe como foi e por que foi essa morte?... Mande-me chamar o meirinho, sem demora.

— Por que se não veste o senhor, e vai a casa do juiz?

— Que vou eu fazer a casa do juiz?

— Saber de seu filho como isto foi.

— Se não sou pai; sou corregedor. Não me incumbe a mim interrogá-lo. Senhora D. Rita, eu não quero ouvir choradeiras; diga às meninas que se calem, ou que vão chorar no quintal.

O meirinho, chamado, relatou miudamente o que sabia e disse ter-se verificado que o amor à filha do Albuquerque fora causa daquele desastre. Domingos Botelho, ouvia a história, disse ao meirinho:

— O juiz de fora que cumpra as leis; se ele não for rigoroso, eu o obrigarei a sê-lo.

Ausente o meirinho, disse D. Rita Preciosa ao marido:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3132333435...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →