Por Aluísio Azevedo (1882)
— Não é que sou um demônio deveras feliz?... considerava ele sozinho; tive dinheiro, esbanjei-o e, quando podia sofrer as conseqüências disso, eis que me aparece este anjo, um verdadeiro anjo salvador, a resgatar-me do castigo de meus vícios e da minha prodigalidade! Oh! definitivamente sou um homem feliz!... Queixese quem quiser da existência, que eu cá por mim continuarei a achá-la encantadora!
E quando Pedro Ruivo, depois de conversar calorosamente com a noiva, se recolhia ao seu quarto de rapaz solteiro, acendia o charuto, atirava as pernas para sobre a mesa e ficava, ou a rever-se nas correrias escandalosas do passado, ou a sonhar-se na tranqüilidade endinheirada do seu futuro conjugal.
Mas... (aqui temos um mas, para autorizar aquele provérbio que sustenta não haver gosto completo nesta vida) uma intempestiva notícia do Minho veio perturbar os sonhos felizes do Ruivo. Seu pai não deitaria mais que alguns dias e era necessário que o filho fosse lá para despedir-se dele.
— Ora, com a fortuna! bradou o Ruivo ao receber a notícia. Lá se vai tudo quanto Marta fiou! Se o velho comete a imprudência de morrer agora, fico completamente desmoralizado às vistas da família de minha noiva e arrisco-me a perder o jogo, pois que logo se espalhará a verdade concernente ao estado de meus haveres!
— Nada! considerou ele, receoso de perder o dote da noiva, é preciso quanto antes providenciar de modo a que a morte de meu pai não me destrua os projetos!
E, enquanto o velho agonizava no Minho, talvez demorando a morte para ver e abençoar o filho pela última vez, este meditava junto de Cecília novos planos de especulação, os quais foram, com efeito, realizados.
Estavam na primavera. Ruivo combinara com a noiva um passeio no campo.
Iria também D. Helena e mais um casal, muito amigo da casa, o Lobato e a mulher. Cecília recebeu o convite com grande alvoroço, tanto gostava ela de passear de vez em quando ao ar livre, sob o trêmulo murmurejar das folhas.
Partiram todos às quatro horas da madrugada. Ruivo fizera vir de véspera um grande carro, apropriado para os conduzir à quinta de um seu parente, que nessa ocasião estava a banhos na Figueira da Foz.
A excursão foi muito alegre, havia em todos o bom humor peculiar às matinadas. O dia apresentava-se cheio de luz e temperado por um doce calor voluptuoso. Os cinco companheiros não se calaram um instante. Tudo era pretexto para fazer riso.
Cecília parecia desfrutar o melhor momento de sua vida: toda risonha, nas suas rendas de linho e no seu claro vestido de fustão, estava como nunca encantadora de frescura e singeleza. O chapéu de palha de Itália dava-lhe à cabeça, esperta e redonda, uma expressão particular de travessura ingênua. Parecia uma pensionista que voltava do colégio a passar férias com a família. Sentia-se feliz e disposta a descobrir encantos em tudo o que a cercava. Durante a viagem quase que não teve uma só ocasião de esconder os belos dentes brancos.
— Como tens hoje tão boa cor!... observava D. Helena, a rever-se com orgulho na formosura da filha.
E em continuação de uma conversa, que pouco antes sustentava com a senhora do Lobato, disse com referência à filha:
— Ultimamente está mais animada...
— Acho até mais gordinha... observou a outra.
— É, confirmou a professora; ela agora come com mais apetite.
— Pudera! disse o Lobato, fazendo um ar cheio de intenção. Está noiva!...
Cecília abaixou os olhos, sorrindo, mas ergueu-os logo para ir com eles ao encontro dos de Pedro, que nessa ocasião acabava de tocar com o pé a ponta do pezinho da menina.
— É a melhor época do amor! considerou o Lobato filosoficamente, deixando escapar o gesto para cima da mulher.
— Má língua! respondeu esta a rir-se. E continuou na sua conversa com Helena, que lhe ficava de frente.
Pedro Ruivo é que parecia preocupado exclusivamente com a noiva.
— Não sei o que tanto têm os namorados para dizer um ao outro!... observou o Lobato, em voz baixa, à mãe de Cecília.
— Homem! respondeu a mulher, deixe lá os outros! Quem sabe se você no seu tempo não fez a mesma coisa?...
O Lobato protestou em ar de galhofa. Helena expendeu algumas considerações a respeito de namoros, e os noivos continuaram a conversar, muito unidos, muito seguros da sua felicidade.
— Quando é o dia? perguntou Lobato a Helena.
— No princípio do mês que vem, respondeu Pedro, interrompendo a sua conversa com Cecília.
— Ah! então é sempre daqui a uma semana?...
— Infalivelmente.
— Está tudo pronto, acrescentou a professora, com ar de satisfação. Daqui a oito dias sou sogra...
— E em breve talvez avó! profetizou o Lobato, rindo.
Cecília abaixou de novo os olhos, corou, enquanto o Ruivo lhe apertava uma das mãos, como para dar cópia da sua impaciência.
E desta forma continuou o passeio, até que chegaram afinal à quinta. Era um casarão velho e sem cuidados de arte, mas em compensação cercado de belas árvores frondosas e de enormes tabuleiros de verdura, que alegravam o ar com o cheiro fresco das hortaliças.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.