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#Romances#Literatura Brasileira

Filomena Borges

Por Aluísio Azevedo (1884)

Sentaram-se ambos no primeiro banco, ao lado um do outro. sem uma palavra, mudos como dois frades de pedra.

Borges, no fim de alguns instantes de completo silêncio, caiu de novo nos braços do amigo e abriu a chorar copiosamente.

Não era o barão de Itassu quem chorava ali, era o João Touro, o primitivo, o bom João Touro doutros tempos, que agora reaparecia, como por encanto, à vista de um companheiro de seu doce passado, tão tranqüilo e singelo.

Chorou muito, muito, como se desabafasse naquele momento toda a acumulação de contrariedade, de desgosto e de fadigas, que se lhe foram amontoando no coração desde a primeira noite do casamento. Era um pranto velho, há muito tempo represado à falta de uma ocasião para rebentar.

O Barroso recebia no peito as lágrimas do antigo camarada, sem fazer um movimento, nem ter uma palavra para lhe dizer. Enquanto chorava o Borges, ele fazia por explicar a si mesmo como diabo se podia conciliar toda aquela lamúria com a jubilosa aparência do amigo.

— Não és então feliz com tua mulher? ... perguntou-lhe afinal.

— Adoro-a! respondeu o outro, limpando os olhos.

— Então?...

— Mas é que a minha vida de casado tem sido uma tempestade constante! Ainda não o disse a ninguém, digo-te a ti, que és o único amigo em quem deposito confiança. Ah! não imaginas! não imaginas, Barroso, o que tenho experimentado!

Não calcules de que força é minha mulher... Bem me dizias tu...

— Mas por que não a pões a teu jeito, filho?

— Porque a adoro, como te disse. Porque só a idéia de lhe cair em desagrado me faz tremer! Pô-la a meu jeito — dizes tu! É que não a conheces! É que, felizmente para ti , nunca te deixaste arrastar por uma paixão como a minha!

E, depois de uma pausa, enquanto o outro se torcia sob aquela expansão sentimental:

— Pô-la a meu jeito!... foi ela quem me pôs ao seu! Foi ela que me torceu a seu bel-prazer!

— Ora essa! E quem te mandou consentir?

— Repito! nunca amaste, que se já o houvesse feito, não estranharias a minha fraqueza.

E, baixando a voz, disse-lhe alguma coisa no ouvido. O Barroso fez um gesto de indignação.

— Desaforo! Não havia de ser comigo, juro-te!

— Ah! Só Deus sabe pelo que tenho passado!...

— Não! contradisse o Barroso. Não! Uma mulher dessa ordem, manda-a a gente plantar batatas!

— Impossível! Se te estou a dizer que a adoro!

O outro sacudiu os ombros:

— Não era isso o que ele supunha! Pelo que ouvira por ai, ia jurar que o Borges era o homem mais feliz do mundo!

— É o que todos julgam... tugiu o barão com tristeza.

— Pelo menos é o que leva a acreditar esse teu modo de viver, de tempos para cá! São só pagodes e mais pagodes! Eu... confesso-te — sempre estranhei!...

— Ah! gemeu o outro. Só Deus sabe quanto me custa tudo isto! Meu amigo, vês-me a cara e não me vês o coração...

— Vamos tomar alguma coisa, disse o Barroso erguendo-se do banco e seguindo na direção do botequim. Creio que agora já bebes...

— Se bebo! tartamudeou o outro, acompanhando-o. Se bebo!

E foram ambos sentar-se a uma mesinha no lugar das bebidas.

— Pois muito me contas!... prosseguiu o Barroso, enchendo os copos de cerveja.

— E ainda não te disse nada!... acrescentou o Borges, a olhar muito sério para um buraco que fazia no chão com a ponta da bengala.

E depois, encarando o amigo:

— Mas olha! Isto que não passe daqui. Imagina que pape1 faria eu, se viessem a saber que...

— Ó Borges! interrompeu o Barroso, ofendendo-se. Eu ainda sou o mesmo! Ainda sou aquele mesmo amigo para a vida e para a morte! Por que estás mudado e porque já não dás idéia do que foste, não se segue que os mais também se tenham transformado! Oh!

— Bem sei, bem sei, meu bom amigo; perdoa! E olha, vai sábado lá à casa; a mulher arranjou uma festa... leva contigo quem quiseres.

— Sempre as festas! censurou o Barroso acremente. Sempre as festas!...

— Que queres tu? Filomena obriga-me a estas coisas! Hoje, creio até que eu próprio já não poderia passar sem isso! Tudo vai do hábito! — É imperdoável, mas irei, irei à tua casa...

E meneando a cabeça:

— Pobre Borges! Pobre Borges!...

— Traze mais cerveja! disse este ao caixeiro, com uma voz plangente.

— Pois vais beber ainda?... observou o outro admirado.

— Quero festejar o restabelecimento de nossa amizade!

— Seja; mas eu não te posso acompanhar. Bem sabes que a minha conta é um copo...

— Sei, sei! Quantas vezes noutro tempo, assentados invariavelmente nos fundos da venda do Sampaio, não fiz caretas ao teu copinho de cerveja!... Então era eu quem se admirava de que "houvesse no mundo alguém que a bebesse por gosto..." entretanto... tu continuas a tomar a tua cervejinha todas as noites, ao passo que eu...

(continua...)

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