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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

E, enquanto palavreava abstraído com Mme. Brizard e com o Coqueiro, percebia que alguma coisa se apoderava dele, que alguma coisa lhe penetrava familiarmente pelos sentidos e aí se derramava e distendia, à semelhança de um polvo que alonga sensualmente os seus langorosos tentáculos. E, sempre dominado pelos encantos da rapariga, alheava-se de tudo o que não fosse ela; queria ouvir o que lhe diziam os outros, prestar-lhes atenção, mas o pensamento libertava-se à força e corria a lançar-se aos pés de Amélia, procurando enroscar-se por ela, à feição do tênue vapor do incenso, quando vai subindo e espiralando, abraçado a uma coluna de mármore.

Coqueiro fazia não dar por isso e, ao topar com os olhos da mulher, entre eles corria um raio de satisfação, mais ligeiro que um telegrama.

Amâncio, entretanto, quase nada conversou com Amélia; apenas trocaram palavras frias de assuntos sem interesse. Mas seus olhares também se encontravam no ar, e logo se entrelaçavam, prendiam-se e confundiam-se no calor do mesmo desejo.

Naquela mulher havia incontestavelmente o que quer que fosse, difícil de determinar, que, não obstante, se entranhava pela gente e, uma vez dentro, crescia e alastrava. O seu modo de falar, as reticências de seus sorrisos, o langor pudico e ao mesmo tempo voluptuoso de seus olhos que espiavam, inquietos, através do franjado das pestanas; a doçura dos seus movimentos ofídios e preguiçosos, o cheiro de seu corpo; tudo que vinha dela zumbia em torno dos sentidos, como uma revoada das cantáridas.

Os instintos mal-educados de Amâncio latejavam.

Vinham-lhe preocupações. Começava a imaginar como seria a sua existência naquela casa, se ele, porventura, resolvesse a mudança; calculava situações: encont4ros inesperados com Amélia nos corredores desertos; manhãs frias de chuva, em que fosse preciso gazear as aulas e deixar-se ficar ali a “prosar” naquela varanda, ao lado dela, a encher o tempo, a dizer “tolices”.

— Que tal seria tudo isso?...Seria tão bom que valeria a pena suportar as caceteações de Mme. Brizard e sofrer a convivência do tal Coqueiro?...Seria tão bom que mereceria a renúncia de sua liberdade, tão sacrificada ali quanto em casa do Campos? Não! não valia a pena!... Mas... Amélia?... quem sabe lá o que daria de si aquele ladrãozinho?...

E, pensando deste modo, ergueu-se disposto a acompanhar Coqueiro, que insistia em lhe mostrar a casa.

Principiaram pela chácara.

— Olha. Isto aqui é como vês!... dizia o proprietário. – Boa sombra, caramanchões de maracujá, flores, sossego!...Bom lugar para estudo! E vai até o fundo. Vem ver!

Amâncio obedecia calado.

— Parece que se está na roça!... acrescentou o outro. — De manhã é um chilrear de passarinhos, que até aborrece! Quando aqui não houver fresco, não o encontrarás em parte alguma! Cá está o terraço — Sobe!

Subiram três degraus de pedra e cal.

— Vês?!... exclamou Coqueiro, parando em meio do pequeno quadrado de velhos tijolos. E, depois, com as pernas abertas e um braço estendido:

— Creio que não se pode desejar melhor!

Desceram, em seguida, para visitar o banheiro, o tanque, o repuxo e outras comodidades que havia no quintal, e a cada uma dessas coisas – novas exclamações e novos elogios.

Subiram outra vez ao primeiro andar, pela cozinha. Um preto, de avental e boné de linho branco, à moda dos cozinheiros franceses, trabalhava ao fogão. Coqueiro exigiu que o amigo olhasse para aquele asseio; atentasse para a nitidez das caçarolas de metal areado , para a limpeza das panelas, para a fartura de água na pia.

— A Madame, dizia ele a rir-se, com ar interessado de que deseja convencer, — a Madame traz isto num brinco! Pode-se comer no chão!

E continuaram a revista da casa. Amâncio, porém, ia distraído, tinha a cabeça cheia de Amélia.

— Que dentes! Pensavas, — e que cintura!, que olhos!...

— É excelente! Segredou-lhe o Coqueiro, pondo mistério na voz. – Um serviço admirável!

— Hein?! Exclamou o provinciano, voltando-se rapidamente para o colega.

— Cozinheiros daquela ordem encontram-se poucos no Rio! Respondeu este ainda em segredo.

— Ah! o cozinheiro...disse Amâncio. — Divino! Acrescentou o outro.

E mudando logo o tom :

— Cá está a despensa. Compramos tudo em porção, do mais caro, mas também podes ver a fazenda! Tudo de primeira! Ah! Eu cá sou assim, — um monstro! Meus hóspedes não se podem queixar!

E destapava vivamente a lata das farinhas e dos feijões, mostrava o vinho engarrafado em casa, as mantas de carne-seca ressumbrando sal , o arroz ,o café, e o resto.

Tudo de primeira! — repetia com entonações mercantis, a passar ao colega um punhado de feijões. — Tudo de primeira!

— Ë exato, resmungou Amâncio, sem ver.

Isto agora são quartos de hóspedes, enunciou Coqueiro seguindo adiante. — Aqui embaixo só temos três. Neste, disse mostrando o n° 1, está o Dr. Tavares, um advogado de mão-cheia; caráter muito sério!

No segundo declarou que morava o Fontes:

— Não era mau sujeito, coitado! Fora infeliz nos negócios: quebrara havia dos anos e ainda não tinha conseguido levantar a cabeça.

E abafando a voz:

(continua...)

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