Por José de Alencar (1878)
Ele tomou a mão da mulher, e atraindo-a a si reclinou-se para beijar-lhe o rosto. Amália, cheia de rubores e júbilos, palpitante de emoção, abandonou-se ao doce impulso; mas de repente, faltando-lhe o apoio, o talhe descaiu sobre o recosto.
Hermano soltara-lhe as mãos, no momento em que seus lábios iam tocá-la; e erguera-se pálido, hirto, com a visão pasmada, como se um espectro surgisse a seus olhos.
— Perdão! murmurou com a voz abafada.
Esta súplica, porém, Amália conheceu que não se dirigia a ela, pois o olhar do marido passava por cima de sua cabeça e fitava-se além.
Afinal, dominando-se, sentou-se de novo, reportando à mulher aquela mesma exclamação com a voz mais livre.
Amália, sob a influência daquele estranho pavor, emudecera. O marido não se animou a quebrar esse doloroso silêncio. Depois de um instante de perplexidade, murmurou umas palavras de despedida, levantou-se e saiu do toucador.
O primeiro sentimento de Amália, depois da surpresa que lhe causara esse fato, foi a revolta contra o império que exercia a lembrança de Julieta no ânimo do marido, e a fraqueza desse homem que se deixara subjugar àquele ponto.
A mulher, ou antes a sombra que saía do seu túmulo para disputar-lhe o marido, ela a odiava. Que direito mais tinha Julieta sobre Hermano? Deus não os havia separado, levando-a deste mundo e deixando-o, a ele, livre de amar e escolher outra esposa?
Esse marido lhe pertencia agora; e ninguém lho podia roubar. Tinha-lhe jurado fidelidade; e só ela podia dar-lhe a ventura. Essas recordações que afligiam incessantemente o espírito de Hermano eram uma vingança de Julieta. Essa mulher nunca tinha amado sinceramente o esposo; pois não sabia sacrificar-lhe o egoísmo de sua afeição.
A este assomo, ou talvez delírio de sua imaginação exaltada pela idéias fantásticas do marido, sucedeu, como era natural, o desânimo, o abatimento, a prostração do corpo e do espírito.
Vergou ao jugo da fatalidade que a oprimia; e compreendeu que só havia para aquela situação insolúvel uma saída. Era a separação.
Cumpria romper quanto antes o laço que não era mais vínculo de união, e sim a algema de um suplício.
Mas como? Que razão daria a seus pais e ao mundo para aquele ato de tamanha gravidade e escândalo! De si não se preocupava. O que não queria era lançar qualquer mácula sobre o marido, a quem amava, e sujeitá-lo à reprovação geral.
Falaria a Hermano logo no dia seguinte, e combinariam o melhor meio.
Separar-se-iam como dois irmãos queridos, que o destino aparta; e longe, lembrando-se um do outro, revivendo os dias felizes que haviam precedido o seu casamento, se amariam eternamente.
Mais tarde, talvez!...
Essa meiga esperança veio afagar o seu pensamento, cerrou-lhe as pálpebras e trouxe-lhe um sono plácido, depois de tão violentas emoções.
Capítulo 17
Era tarde quando Amália acordou. Deitada ainda e envolta nas alvuras de suas roupas de linho, entrou a olhar amorosamente os objetos que a cercavam, os móveis, as decorações da parede, as árvores do jardim que ensombravam as janelas.
Tinha saudades deste sonhado ninho de seu amor, onde, se não havia achado a ventura, fruíra tão doces momentos de enlevo conversando com seu Hermano.
E agora era preciso deixá-los e com eles as ilusões de uma felicidade, de que lhe fugira quando a supunha segura. Sua esperança despedia-se de todos estes companheiros de solidão que lhe haviam sorrido nos primeiros dias.
Hermano desde muito cedo andava na chácara. Ao entrar em casa viu a mulher sentada na sala, a cismar. Ela revolvia as dolorosas impressões da véspera, para fortalecer-se em sua primeira resolução.
Vendo o marido que parara indeciso, enviou-lhe o seu melancólico e resignado sorriso.
Hermano aproximou-se então e disse-lhe impetuosamente com uma voz sufocada:
— Sou um miserável, Amália; sacrifiqueia-a indignamente. Amei-a com paixão, jurei fazer a sua felicidade, que era a minha, uni o meu ao seu destino; e eu não me pertencia, não era livre, não podia dispor de mim! Sou um miserável!... Traí a minha primeira mulher, e à segunda enganei!...
— Não me enganou, Hermano; afaste semelhante idéia. Eu sabia o que se passava em seu espírito e previ o que veio acontecer. Se alguém errou fui eu, que me iludi numa esperança falaz, mas tão grata, que ainda me deixaria enlevar por ela se fosse possível.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.