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#Romances#Literatura Brasileira

Senhora

Por José de Alencar (1875)

Correu-se uma cortina, e Aurélia entrou na câmara nupcial. 

Seu passo deslizou pela alcatifa de veludo azul marchetado de alcachofras de ouro, como o andar com que as deusas perlustravam no céu a galáxia quando subiam ao olimpo. 

A formosa moça trocara seu vestuário de noiva por esse outro que bem se podia chamar traje de esposa; pois os suaves emblemas da pureza imaculada, de que a virgem se reveste quando caminha para o altar, já se desfolhavam como as pétalas da flor do outono, deixando entrever as castas primícias do santo amor conjugal. 

Trazia Aurélia uma túnica de cetim verde, colhida à cintura por um cordão de torçal de ouro, cujas borlas tremiam com seu passo modulado. Pelos golpeados deste simples roupão borbulhavam os frocos de transparente cambraia, que envolviam as formas sedutoras da jovem mulher. 

As mangas amplas e esvasadas eram apanhadas, na covinha do braço e sobre a 

espádua, por um broche onde também prendia a ombreira, mostrando o braço mimoso, cuja tez roseava a camisa de cambraia abotoada no punho por uma pérola. 

Os lindos cabelos negros refluiam-lhe pelos ombros presos apenas com o aro de ouro, que cingia-lhe a opulenta madeixa; o pé escondia-se em um pantufo de cetim que às vezes beliscava a orla da anágua, como um travesso beija-flor. 

O casto vestuário da moça recatava-lhe as graças do talhe; entretanto quando ela andava, e que seu corpo airoso nadava nas ondas de seda e cambraia, sentia-se mais n'alma do que nos olhos o debuxo da estátua palpitante de emoção. A cada movimento que imprimia-lhe o passo onduloso, acreditava-se que o broche da ombreira partira-se e que os véus zelosos se abatiam de repente aos pés dessa mulher sublime, desvendando uma criação divina, mas de beleza imaterial, e vestida de esplendores celestes. 

Aurélia atravessou o aposento, e chegando à porta que ficava fronteira àquela por onde entrara, curvou de leve a cabeça recolhendo-se para escutar; mas não ouviu senão o arfar do seio, que ofegava. 

Afastou-se rapidamente, e foi atirar-se a uma das poltronas, em um gesto de desânimo, cruzando as mãos e erguendo-as ao céu com um olhar repassado de angústia. 

- Meu Deus, por que não me fizeste como as outras? Por que me deste este coração exigente, soberbo e egoísta? Posso ser feliz como são tantas mulheres neste mundo, e beber na taça do amor, em que talvez nunca mais toquem estes lábios. Não é o néctar divino que eu sonhei, não; mas dizem que embriaga a alma, e faz esquecer!... 

O espírito de Aurélia rastreou a idéia que despontava, e por algum tempo como que embalou-se num sonho: 

- Não! Exclamou arrebatadamente. Seria a profanação deste santo amor que foi e será toda a minha vida! 

Ergueu-se; deu algumas voltas pela câmara nupcial acariciando com os olhos todos estes móveis e adereços, que ela escolhera para ordenarem o regaço de sua felicidade, e nos quais tinha como que esculpido suas mais queridas esperanças. 

Depois que assim repassou-se das reminiscências que lhe acordavam estes objetos, foi rever-se no espelho, e enviou à sua feiticeira imagem reproduzida no cristal, um sorriso de indefinível expressão. 

Dirigiu-se então à porta, onde pouco antes escutara; deu volta à chave, e afastou uma das bandas. Pouco depois, Seixas roçagou a cortina, e cingindo o talhe de sua mulher, foi sentá-la em uma das cadeiras. 

- Como tardaste, Aurélia! Disse ele queixoso. 

- Tinha um voto a cumprir. Quis emancipar-me logo de uma vez para pertencer toda a meu único senhor, respondeu a moça galanteando. 

- Não me mates de felicidade, Aurélia! Que posso eu mais desejar nesse mundo do que viver a teus pés, adorando-te, pois que és a minha divindade na terra. 

Seixas ajoelhou aos pés da noiva, tomou-lhe as mãos que ela não retirava; e modulou o seu canto de amor, essa ode sublime do coração, que só as mulheres entendem, como somente as mães percebem o balbuciar do filho. 

A moça com o talhe languidamente recostado no espaldar da cadeira, a fronte reclinada, os olhos coalhados em uma ternura maviosa, escutava as falas de seu marido; toda ela se embebia dos eflúvios de amor, de que ele a repassava com a palavra ardente, o olhar rendido, e o gesto apaixonado. 

- É verdade então que me ama? 

- Pois duvida, Aurélia? 

- E amou-me sempre, desde o primeiro dia que nos vimos?

- Não lho disse já? 

- Então nunca amou a outra? 

(continua...)

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