Por José de Alencar (1870)
Fora esse o presente de amor que Francisca dera ao Canho, quando se namoravam. Manuel, chamando a si exclusivamente os objetos de uso pessoal do pai, que a mãe deixara à sua disposição, encontrou a bolsa e chorou. Como fizera com a roupa e outros trastes, guardou-a para um dia trazê-la consigo, quando fosse homem. Aceitando o encargo que lhe deixara o pai de prover à decente subsistência da família, o rapaz lembrou-se da bolsa, e abrindo-a para medir a capacidade, murmurou consigo:
— Cheia de onças e patacões, juntamente com a casa, chegaria bem para minha mãe viver sossegada o resto de seus dias, e dar um dotezinho a Jacinta. Então poderei dispor de mim; se morrer, não farei falta a ninguém!…
Depois de ficar um instante pensativo, concluiu:
— É preciso que eu encha a bolsa.
Desde então a escarcela, fechada dentro de uma mala, recebeu todo o dinheiro que o rapaz ganhou com seu trabalho. Tinham decorrido quase doze anos depois da morte de João Canho, quando o gaúcho conseguiu enchê-la.
Nesse dia Manuel foi rezar junto à cruz de pau, e repetir o juramento que tinha feito, de vingar a morte do pai. Nada mais o detinha; assegurara o futuro da família; agora podia dispor livremente de sua existência.
À noite, ao recolher-se, Manuel disse a Francisca:
— Esta madrugada saio para Entre-Rios.
— Boa viagem, meu filho.
— O que tem nesta bolsa é para a mãe e Jacintinha.
— A que vem isto agora?
— Talvez eu não volte!
— Manuel! balbuciou a viúva.
Jacintinha chorava.
O gaúcho afastara-se para escapar à emoção, mas parou na porta, de costas voltadas para a mãe e a irmã; hesitava; de repente voltou apressado, abraçou a ambas, e desapareceu.
Nos olhos borbulhava uma lágrima, que não chegou a brotar, pois logo estancou.
Partira Manuel, e aí estava de volta, sem ter cumprido ainda o seu terrível juramento. Depois de dois meses de ausência, não achou um sorriso para a mãe e a irmã, de quem se podia ter separado para sempre.
VI
MANO
No dia seguinte ao da chegada, mal rompeu a alvorada, já estava o gaúcho com seus novos amigos, a baia e o poldrinho. Tirou-os fora para respirarem o ar frio da manhã, e brincarem sobre a relva. Enquanto caracolavam alegremente mãe e filho, Manuel, sentado num cocho de pau lavrado, estava-se a lembrar de um bonito nome para dar ao poldrinho.
Jacintinha, aparecendo no alpendre, os viu e aproximou-se. Não deixava a menina de sentir sempre um invencível acanhamento quando chegava-se perto do irmão. O amor que lhe tinha a arrastava muitas vezes; e outras mais a arredava; porque ela vivia entre dois receios, de importunar o irmão com sua insistência, ou de o desagradar com sua esquivança.
Ao avistá-la, o primeiro gesto do gaúcho foi de enfado; não pela irmã, mas por ele que desejava estar só, para gozar da companhia de seus amigos. É necessário advertir que havia um pudor extremo na afeição que Manuel votava aos animais. Se o encontrassem a abraçar algum e a amimá-lo, como já tinha acontecido, corava. Era a sós que as expansões de seu coração desafogavam-no livremente.
— Oh! como é bonitinho, Jesus! Que veludo!… E as clinas!… aneladas como os meus cabelos!
Estas exclamações soltara-as Jacinta cruzando as mãos de admirada. Depois de um instante de contemplação, sentou-se na outra ponta do cocho, e fazendo covo e regaço do vestido, começou a chamar o poldrinho com essa linguagem especial que têm as mulheres para cada espécie de animal, desde os pintainhos. Ao mesmo tempo que os lábios apinhados exalavam um som muito semelhante a um muxoxo contínuo, batia ela com os dedos no regaço.
Parece que a menina enfeitiçou o poldrinho, pois não tardou ele em vir aos pulos pôr-lhe a cabeça ao colo, e entregar-se nos seus braços. Sem mais cerimônia começou Jacintinha a beijálo, e fazer-lhe cócegas nas orelhas; daí um momento eram os maiores camaradas, e folgavam travessamente pelo gramado.
Foi de ciúme o primeiro movimento de Manuel, ao ver a simpatia das duas crianças; e lembrando-se que o pai de Jacintinha roubara Francisca à memória do esposo, e ao amor do filho, irritou-se.
Não bastava que lhe tivessem desterrado o coração da família, ainda por cima vinham magoá-lo no exílio, perturbando suas inocentes afeições e seduzindo o objeto delas?
Nisto reparou na égua, que a alguns passos olhava a menina a folgar com o poldrinho. Um estranho não veria no animal coisa que lhe despertasse atenção. Para o gaúcho, porém, a baia tinha uma atitude; aquela posição frouxa e descansada sobre as quatro patas, exprimia, em um animal brioso e árdego, certo embevecimento de ternura, que ameigava-lhe o coração. A moça, criada no campo, é assim; quando a fronte reclina, e o pezinho buliçoso dorme sobre a esteira, não há que ver, tocaram-lhe no coração.
Mas, além do gesto, a baia sorria de prazer, e Manuel bem lhe percebia os palpites que estremeciam os rins e se comunicavam, em doces vibrações, à longa e basta cauda. Estava o animal possuído de uma terna emoção que o enlevava.
(continua...)
ALENCAR, José de. O gaúcho. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1842 . Acesso em: 26 jan. 2026.