Por Camilo Castelo Branco (1862)
As quatro horas e um quarto, acordou a natureza toda em hinos e aclamações ao raiar da alva. Os passarinhos trinavam na cerca do mosteiro melodias interrompidas pelo toque solene das Ave-Marias na torre. O horizonte passara de escarlate a alvacento. A púrpura da aurora, como labareda enorme, desfizera-se em partículas de luz, que ondeavam no declive das montanhas, e se distendiam nas planícies e nas várzeas, como se o anjo do Senhor, à voz de Deus, viesse desenrolando aos olhos da criatura as maravilhas do repontar dum dia festivo.
E nenhuma destas galas do céu e da terra enlevara os olhos do moço poeta.!
As quatro horas e meia, ouviu Simão o tinido de liteiras, dirigindo-se àquele ponto. Mudou de local, tomando por uma rua estreita, fronteira ao convento.
Pararam as liteiras vazias na portaria, e logo depois chegaram três senhoras vestidas de jornada, que deviam ser as irmãs de Baltasar, acompanhadas de dois mochilas com as mulas à rédea. As damas foram sentar-se nos bancos de pedra, laterais à portaria. Em seguida abriu-se a grossa porta, rangendo nos gonzos, e as três senhoras entraram.
Momentos depois, viu Simão chegar à portaria Tadeu de Albuquerque, encostado ao braço de Baltasar Coutinho. O velho denotava quebranto e desfalecimento a espaços. O de Castro-d'Aíre, bem composto de figura e caprichosamente vestido à castelhana, gesticulava com o aprumo de quem dá as suas irrefutáveis razões, e consola tomando a riso a dor alheia.
— Nada de lamúrias, meu tio! — dizia ele. — Desgraça seria vê-la casada! Eu prometo-lhe antes de um ano restituir-lhe curada. Um ano de convento é um ótimo vomitório do coração. Não há nada como isso para limpar o sarro do vício em corações de meninas criadas à discrição. Se meu tio a obrigasse, desde menina, a uma obediência cega, tê-la-ia agora submissa, e ela não se julgaria autorizada a escolher marido.
— Era uma filha única, Baltasar! — dizia o velho soluçando.
— Pois por isso mesmo — replicou o sobrinho. — Se tivesse outra, ser-lheia menos sensível a perda, e menos funesta a desobediência. Faria a sua casa na filha mais querida, embora tivesse de impetrar uma licença régia para deserdar a primogênita. Assim, agora, não lhe vejo outro remédio senão empregar o cautério à chaga; com emplastros é que se não faz nada.
Abriu-se novamente a portaria. e saíram as três senhoras, e após elas Teresa.
Tadeu enxugou as lágrimas, e deu alguns passos a saudar a filha, que não ergueu do chão os olhos.
— Teresa... — disse o velho.
— Aqui estou, senhor — respondeu a filha, sem o encarar.
— Ainda é tempo — tornou Albuquerque.
— Tempo de quê?
— Tempo de seres boa filha.
— Não me acusa a consciência de o não ser.
— Ainda mais?!... Queres ir para tua casa, e esquecer o maldito que nos faz a todos desgraçados?
— Não, meu pai. O meu destino é o convento. Esquecê-lo nem por morte. Serei filha desobediente, mas mentirosa é que nunca.
Teresa, circunvagando os olhos, viu Baltasar, e estremeceu, exclamando:
— Nem aqui!
— Fala comigo, prima Teresa? — disse Baltasar, risonho.
— Consigo falo! Nem aqui me deixa a sua odiosa presença?
— Sou um dos criados que minha prima leva em sua companhia. Dois tinha eu há dias, dignos de acompanharem a minha prima, mas esses houve aí um assassino que nos matou. A falta deles, sou eu que me ofereço.
— Dispenso-o da delicadeza — atalhou Teresa, com veemência.
— Eu é que me não dispenso de a servir, à falta dos meus dois fiéis criados, que um celerado me matou.
— Assim devia ser — tornou ela também irônica — porque os cobardes escondem-se nas costas dos criados, que se deixam matar.
— Ainda se não fizeram as contas finais..., minha querida prima — redargüiu o morgado.
Este diálogo correu rapidamente, enquanto Tadeu de Albuquerque cortejava a prioresa e outras religiosas. As quatro senhoras, seguidas de Baltasar, tinham saído do átrio do convento, e deram de rosto em Simão Botelho, encostado à esquina da rua fronteira.
Teresa viu-o... adivinhou-o, primeira de todas, e exclamou:
— Simão!
O filho do corregedor não se moveu.
Baltasar, espavorido do encontro, fitando os olhos nele, duvidava ainda.
— É incrível que este infame aqui viesse! — exclamou o de Castro-d'Aire.
Simão deu alguns passos, e disse placidamente:
— In[ame... eu! e por que?
— Infame, e infame assassino! — replicou Baltasar. — Já fora da minha presença!
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.