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#Romances#Literatura Brasileira

Girândola de Amores

Por Aluísio Azevedo (1882)

Alguma coisa pedia-lhe no coração um afeto mais exclusivo e mais dela. Já não podia observar sem comoção o arrulhar de dois pássaros no mesmo ninho. Toda a natureza lhe apresentava agora um novo aspecto de vida e fecundidade: as árvores pareciam-lhe mais flácidas e mais afetuosas nos seus requebros ao roçar da brisa; as noites de luar falavam-lhe agora em linguagem para ela desconhecida até aí; e o ar, o céu, as águas de qualquer regato, tudo sobre que ela pousava os olhos e demorava os sentidos, vaporava de si uma alma sensual e misteriosa que a envolvia toda como em uma atmosfera de perfumes inebriantes.

Pedro Ruivo voltou ao Porto justamente nessa época. Cecília não o recebeu em ar de mofa, como até ai costumava fazer; e ele, pelo seu lado, não trazia também aquele aspecto banal de estróina relapso.

É que, durante a ausência, Pedro Ruivo sentira pela primeira vez o dente canino da adversidade. Seu pai, que estava à morte no Minho, chamara-o de parte e falara-lhe muito seriamente sobre o futuro.

— Se eu morrer, dizia o pobre velho a chorar; vais tu, meu Pedro, ficar pobre e desprecatado no mundo. Tens todos os hábitos da prodigalidade, sem possuíres nenhum dos agentes da riqueza. Que será de ti, meu filho, se desde já não mudares de rumo e não cuidares de arranjar meios de vida?!

Pedro Ruivo procurou serenar o pai; prometeu-lhe uma completa regeneração e chegou a falar em casamento com Cecília.

— Casar?! interrogou o velho, franzindo a fronte despojada Sabes lá o que isso é!...

O filho apresentou as suas razões, pintou o caráter da sua pretendida, e descreveu o modo pelo qual resistira ela a todos os meios de sedução por ele empregados.

O velho conformou-se mais com aquela notícia, quando Pedro lhe disse que a menina era filha bastarda do conde de S. Francisco e teria um sofrível dote pela morte da mãe.

— Bem, meu filho, disse ele. Já que tanto o desejas, casa-te. Pode ser que esteja aí a tua regeneração e a tua felicidade!...

E alguns dias depois Pedro Ruivo partia para o lugar em que estava Cecília.

Desta vez não andaram as coisas como nos primeiros tempos. Pedro Ruivo desprezou as velhas amizades da pândega e deixou-se das extravagâncias que dantes escandalizavam o Porto; deixou-se de correrias e de namoros arriscados, para se entregar exclusivamente ao amor de Cecília.

E ela, no fim de contas, já o amava; Pedro Ruivo surpreendera-lhe a alma, justamente quando esta, à semelhança das flores, abria ao amor os seus delicados pistilos; nessa ocasião em que o coração da mulher está em branco e pronto a receber para toda a vida a grande impressão que o fecundará para sempre. Outras virão depois, mas a primeira há de predominar até à morte.

Cecília palpitou nos primeiros arroubos de mulher sob a impressão de Pedro Ruivo, entregando-lhe o segredo dos seus sonhos e o ideal de seus desejos. ele povoou todo o seu espírito com a insubstituível vantagem do primeiro que o ocupava. Apoderou-se dela, uniu-a ao seu destino, antes mesmo de uni-la ao seu corpo.

As coisas neste ponto, pediu-a em casamento e D. Helena concedeu-a de muito boa vontade, indo por bem dizer ao encontro do pedido, como se com este já contasse.

Havia nos planos da professora uma sutil intenção de conveniência. O futuro genro, como já tivemos ocasião de declarar, passava por homem rico e pressuposto de herdar todos os bens de seu pai; Cecília faria neste caso uma boa aquisição, porque não tinha dote e só com a morte de Helena receberia alguma coisa, se recebesse.

Pedro Ruivo, por sua vez, desde que percebeu a miséria que lhe estava iminente, via em Cecília uma tábua de salvação. Havia por conseguinte, de parte a parte, a intenção de se iludirem. E o receio que tinha cada qual de entrar em claras explicações a respeito dos próprios bens, a ambos tolhia de indagar sobre os do outro.

Desta forma caminhavam imperturbavelmente as circunstâncias para a segura realização do consórcio. Helena desfazia-se em obséquios e franquezas com o noivo, que supunha destinado a trazer, para sua filha, um futuro opulento e, para ela própria, a segurança e o descanso da velhice. Por outro lado, o rapaz não perdia ocasião de cercar de obséquios e desvelos àqueles a quem julgava dever a salvação e a felicidade.

Nunca houve talvez no mundo tanta harmonia e tanta gentileza entre um noivo e a família da respectiva noiva. Era bastante que algum deles revelasse qualquer desejo, para todos os outros se precipitarem a satisfazê-lo. Ora, cabia a Pedro esta ventura com respeito à rapariga, ora, cabia a Helena com respeito ao futuro genro. E neste círculo de galanteios viviam os três em perene dedicação uns pelos outros.

Dentre eles, só a encantadora Cecília andava de boa fé. Essa não procurava armar ao efeito para ninguém e deixava-se simplesmente arrastar pelos impulsos do próprio coração; tudo o que fazia era perfeitamente por seu gosto, sem constrangimento e sem cálculo.

Pedro Ruivo julgava ter encontrado a porta do céu.

(continua...)

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