Por Aluísio Azevedo (1884)
— Mas que te falta ainda?... perguntou-lhe o marido, sem se poder conter, uma vez que a viu mais triste e desconsolada. — Creio que até hoje tenho cumprido à risca, e com sacrifício de nosso futuro, todos os teus desejos e todos os teus caprichos! Possuís uma casa como ambicionaste; és requestada pela melhor sociedade; ostentas um título, e tens plena certeza de que eu, teu marido, teu amante apaixonado, só vivo por ti, e para ti! Sabes perfeitamente que não há em todo o mundo, por toda a parte onde estivemos, uma única mulher, escrava ou rainha, que me fizesse esquecer um instante de ti, minha querida Filomena! E, no entanto, eu, tu! que és a minha única preocupação, o meu cativeiro, tu, nem por isso te mostras mais satisfeita e mais agradecida! Mas, com todos os demônios! Se te falta ainda alguma coisa, fala com franqueza! Exige! ordena! Mas por amor de Deus não me tortures com essas tristezas e com esses suspiros que me desesperam! Bem sabes que és tudo quanto possuo? És a minha vida! a minha felicidade!
Vamos! Fala! fala! dize o que te oprime, Filomena de minh’alma
— Nada! Não tenho nada! respondia a mulher com um esgar fastidioso.
Quero apenas que me deixem!... Que me não apoquentem com perguntas! ...
— Tudo isso prova que nunca me amaste!... disse o Borges retraindo-se.
— AI temos outra! observou Filomena, e, depois de um novo gesto de tédio, afastou-se, resmungando — que não estava disposta àquilo!
Borges atirou-se sobre uma das tais cadeiras, e escondeu o rosto nas mãos.
— Que desgraça a sua! Que desgraça! ... pensava. Ora vissem se era possível haver um homem mais infeliz do que ele!..— Pois a despeito de tudo que fazia pela mulher, ainda não merecia amor! Mas então Filomena estaria disposta a ser sempre a mesma ingrata? ...
— Não! bradou ele, erguendo-se. Não! decididamente é preciso fazer-se forte! É preciso reagir! Talvez até seja este o meio de lhe cair em graça por uma vez!
Mas daí a duas horas, vendo que a mulher não saia do quarto, foi ter com ela.
— Então? Ainda dura a rabugem? ...
— Deixe-me! respondeu Filomena com uma voz de choro.
— Mas o que te aflige, meu amor? Fala, fala com franqueza! Não sou eu porventura o teu amiguinho, o teu confidente, o teu íntimo?... Olha, se estás aborrecida, procura meios de distrair-te; bem sei que aqui não há muito aonde ir, mas inventa! Vê se descobres alguma idéia. É verdade — tu ainda não festejaste o nosso título... aí tens! Porque não dás tu um baile, um jantar ou coisa que o valha?
Filomena abraçou o marido, balbuciando palavras de reconhecimento.
— Ainda bem! Ainda bem! disse ele, sem mais se lembrar das apoquentações. E, sentindo que a mulher animava-se-lhe aos beijos. — Assim!
assim é que te quero ver sempre?
Começaram a falar, muito amigavelmente, sobre os projetos da festa.
Aproximava-se o entrudo. — E se dessem um baile de máscaras?!...
Esta idéia trouxe a Filomena uma alegria convulsiva. — Um baile de máscaras! um baile de máscaras! exclamava ela fora de si. — Mas como já não me tinha eu lembrado disto?!...
E saltou ao pescoço do Borges, radiante. — Que belo! que belo! Um baile de máscaras!
Deram logo princípio aos preparativos da festa, e durante esses dias, Filomena não deixou transparecer sinal de aborrecimento. Ao contrário, muito animada, muito contente de sua vida, era ela própria quem tomava as providências para a função. — Ah! mas havia de ser uma festa sem exemplo no Brasil! Uma festa que desse que falar por muito tempo.
Todavia, Borges andava meio atrapalhado nos seus negócios, e, para não desgostar a mulher, escondia-lhe, sabe Deus com que heroísmo, certas dificuldades de dinheiro, que o principiavam a perseguir.
— Em todo o caso, Filomena teria o seu baile de máscaras!...
CAPÍTULO XI
QUAL DOS DOIS MARIDOS SERÁ O MAIS INFELIZ?
Nas vésperas do grande dia, quando o Borges andava de baixo para cima, tratando de pôr em prática as ordens da mulher, deu cara a cara com o Barroso, uma noite em que entrava no Passeio Público.
Em outra ocasião, é possível que os dois companheiros de infância nem se cumprimentassem, pois nunca mais se tinham visto depois da rezinga do casamento; mas encontrados assim, de supetão, ambos colhidos de surpresa, não puderam conter o clássico— Oh! — dos momentos de circunstância, e, quando deram por si, já estavam nos braços um do outro.
Ah! eles haviam sido tão camaradas, tão parecidos nos gostos e nos costumes! usando da mesma moral e dos mesmos princípios! Durante quarenta anos tinham seguido sempre a mesma linha tesa das conveniências comerciais: — O Borges, como sabemos, transviara-se com o impulso que lhe deu Filomena; mas o Barroso, não senhor! — foi cada vez mais acentuando a sua circunspecção e enrijando os seus créditos de homem sério.
De sorte que, atirados agora um defronte do outro, em flagrante contraste — o Barroso tão grave, tão ríspido, tão Invulnerável dentro de seu paletó saco, fiel ao seu permanente chapéu alto de pelo e ao seu guarda-chuva desenrolado; — e o Borges, tão catita tão gamenho, tão moderno nos seus sapatões ingleses e na sua bengalinha de junco — não podiam fugir ao mais completo embaraço.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.