Por Aluísio Azevedo (1884)
Porque, senhores, Hipólito, se quisesse, podia representar um invejável papel na Europa! Tinha lá o seu lugar seguro, e...Foi interrompida pelo César que entrara de carreira, mas estacara de repente ao dar com Amâncio. Coqueiro havia se afastado para mandar servir alguma coisa.
— Este é o meu César, meu último filho, elucidou Mme. Brizard. E gritou logo: — Vem cá, César! Vem falar com este moço!
César aproximou-se, vagarosamente, com o silêncio de quem observa um estranho. — Lindo menino! Considerou Amâncio, puxando-o para junto de si.
— E não calcula o senhor que talento! afirmou a mãe, em voz baixa e grave, estendendo a cabeça para o lado da visita :Uma coisa extraordinária!
— Já fez uma poesia! acrescentou João Coqueiro, que, nessa ocasião, junto ao aparador, enchia copos de cerveja.
— Mas, coitado! prossegui Mme. Brizard — não se pode puxar por ele; sofre muito do peito! O médico recomendou que não o fatigassem por ora; é preciso esperar que ele se desenvolva mais um pouco.
— É pena! disse Amâncio com tristeza, afagando a cabeça de César.
— Nunca vi uma criatura para aprender as coisas com tanta facilidade! Nada vê , nada ouve, que não decore logo! que não repita — tintim por tintim!
— Sim?... perguntou Amâncio , com um gesto cerimonioso de pasmo.
— E então para a música?...Aprendeu a escala em um dia! E já toca variações de piano...tudo de ouvido!
— É admirável! Repetia Amâncio, para dizer alguma coisa. Deve estar muito adiantado nos estudos!...— Ah! estaria decerto, se pudesse estudar, mas, coitado, ainda não sabe ler!
— Ah! fez Amâncio, sem achar uma palavra.
— Mas, também, quando principiar...
— Irá longe! concluiu Amâncio, satisfeito por ter enfim uma frase. — Deve ir muito longe!
E afiançava que, pela fisionomia de César, logo se lhe adivinhava a inteligência.
— Esta fonte não engana! Dizia a suspender-lhe o cabelo da testa. — E é travesso?...
Mme. Brizard soltou uma exclamação: — Não lhe falassem nisso! Só ela sabia o capetinha que ali estava!
César abaixou o rosto com uma risada, e Amâncio declarou que “a travessura era própria daquela idade!”
E, porque o moleque se aproximava com uma bandeja na mão, cheia de copos, ergueu-se para oferecer um a Mme. Brizard e outro a Amélia.
— Muito agradecida, disse esta, sorrindo. — Sou um pouco nervosa; a cerveja faz-me mal.
— Ah! V.Ex.ª é nervosa?
— Um pouco. E quem neste mundo não sofre mais ou menos dos nervos?...
E riu de todo, mostrando a sua dentadura provocadora.
Amâncio considerou intimamente que a achava deliciosa. – Um mimo!
E, de fato, Amélia nesse dia estava encantadora. Vestia fustão branco, sarapintado de pequeninas flores cor-de-rosa. O cabelo , denso e castanho, prendiase-lhe no toutiço por um laço de seda azul, formando um grande molho flutuante, que lhe caía elegantemente sobre as costas O vestido curto, muito cosido ao corpo, enluvava-lhe as formas, dando-lhe um ar esperto de menina que volta do colégio a passar férias com a família.
Era muito bem feita de quadris e de ombros. Espartilhada, como estava naquele momento, a voltas enérgica da cintura e a suave protuberância dos seios produziam nos sentidos de quem a contemplava de perto uma deliciosa impressão artística.
Sentia-se-lhe dentro das mangas do vestido a trêmula carnadura dos braços; e os pulsos apareciam nus muito brancos, chamalotados de veiazinhas sutis, que se prolongavam serpeando. Tinha as mãos finas e bem tratadas, os dedos longos e roliços, a palma cor-de-rosa e s a unhas curvas como um bico de papagaio.
Sem ser verdadeiramente bonita de rosto, era muito simpática e graciosa. Tez macia de uma palidez fresca de camélia; olhos escuros, um pouco preguiçosos, bem guarnecidos e penetrantes; nariz curto, um nadinha arrebitado, beiços polpudos e viçosos, à maneira de uma fruta que provoca o apetite e dá vontade de morder. Usava o cabelo cofiado em franjas sobre a testa, e, quando queria ver ao longe, tinha de costume apertar as pálpebras e abrir ligeiramente a boca.
Amâncio, bebendo aos goles distraídos a sua cerveja nacional, via e sentia tudo isso, e, sem perceber, deixava-se tomar das graças de Amélia. Já lhe preava a carne o mordente calor daquele corpo; já o invadiam o perfume sombroso daquele cabelo e a luz embriagadora daqueles olhos; já o enleava e cingia a doce sensibilidade elástica daquela voz , quebrada, curva, cheia de ondulações, como a cauda crespa de uma cobra.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.