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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

Para Manuel, o mito da realidade, bem cedo esboçado, foi a morte do pai. ele entrou no mundo pelo pórtico da dor. O triste acontecimento, que o arremessou prematuramente da infância à adolescência, coincidiu com os outros fatos, que, embora restritos ao círculo da família, e encerrados em um breve espaço de tempo, formaram uma espécie de miniatura da vida. Nessa página se desenhou em esforço a imagem da existência humana. 

Das criaturas mais queridas do homem que se finara, uma, sua esposa e companheira, subtraíra-se à memória daquele a quem jurara eterna fidelidade e se entregara a um estranho. Outra, o Juquinha, débil criança, desprendida deste mundo desde que lhe tinham morto o pai, roubado a mãe, voara para o céu. 

Os camaradas, esse apêndice da família, haviam passado do serviço de Canho para o do Loureiro com a maior indiferença. Não pareciam ligados a seu antigo patrão, mas ao dono da casa qualquer que ele fosse. 

Não achava pois o menino em torno de si um coração humano, que se identificasse com sua dor, e partilhasse a saudade que enchia-lhe a alma. Só o cavalo, só o Morzelo, parecia compreendê-lo. 

Esse amigo fiel não esquecera o dono, nem esmorecera. Depois da morte do amansador, não consentiu que ninguém o montasse a não ser o filho, porque este aprendera do pai a falar-lhe. Quando o intruso da casa teve o arrojo de cavalgá-lo, suportou paciente a afronta, mas para vingar o senhor. 

Era essa a interpretação dada por Manuel à catástrofe que matou Loureiro. Não lhe passava pela mente que esse acontecimento fosse filho do acaso, enxergava nele a punição de um crime, e uma lição que o brioso animal infligira à mulher ingrata. 

Assim o primeiro símbolo do amor que se gravou n’alma de Manuel não foi uma figura humana, porém o vulto de um corcel. 

Isolou-se o menino cada vez mais do seio da família. Um cilício moral interpôs-se entre o filho e a mãe; da parte desta era quase um remorso; da parte daquele um profundo ressentimento. À natureza inerte da viúva faltavam as ternas expansões do amor materno, que podiam ainda mesmo dilacerando-lhe a alma nos espinhos, penetrar o coração de Manuel  e atraí-lo. 

Mais tarde Jacintinha talvez pudesse vencer o afastamento do irmão e trazer de novo seu coração ao regaço da família. Adorava ela Manuel, mas tal respeito lhe infundia o gaúcho, que a enleava e retraía. De um lado o rapaz sentia-se tomado de simpatia pela menina; porém recalcava este impulso e o combatia, porque via nele uma cumplicidade com o esquecimento de Francisca pela memória de João Canho. Podia ele amar a filha do homem que fora causa da morte do pai? Devia considerar sua irmã o fruto de uma união que ele condenava como um perjúrio e uma ingratidão? 

Foi deste modo que a alma do gaúcho emigrou, da família primeiro e depois da sociedade humana, para a raça bruta que simbolizava a seus olhos a fidelidade, a dedicação e a nobreza. Seu coração ermo e exilado buscou naturalmente na comunhão dessas criaturas a correspondência dos sentimentos inatos ao homem.  

De semelhante exotismo moral há milhares de exemplos no mundo. Não vemos a cada instante indivíduos nascidos no seio de uma família honesta ou de uma classe superior, que se aclimatam na sentina da sociedade? Em Manuel a aberração fora mais profunda, pois o lançara longe de seus semelhantes; felizmente, porém, o coração não se depravou; conservava suas afeições, elos morais que só desamparam a criatura quando o vício gasta a alma; acreditava no amor e na amizade; sentia a atração do bem. Mas toda esta seiva robusta se transplantara para regiões estranhas e diferentes daquelas, onde viçam e florescem as paixões humanas. 

Desertando das afeições domésticas, não se eximira contudo o rapaz de seus deveres de filho e irmão. Cedo compenetrou-se da responsabilidade que pesava sobre ele como chefe da família. Loureiro, tido em conta de abastado, só deixara dívidas; a pequena loja pouco valia; e faltando quem a dirigisse, nada. 

Ficar no mesquinho espólio de João Canho uma guaiaca de couro de veado, bordada a fio de seda em pontos de debuxo. A aba ou capirota da bolsa, era abotoada por uma moeda de prata. No centro de uma cercadura de rosas, via-se um coração vermelho traspassado por uma seta verde. Já tinham as cores desbotado com o tempo, mas o trabalho estava perfeito, e revelava ainda sua primitiva beleza. 

(continua...)

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