Por Camilo Castelo Branco (1862)
Não posso ser o que tu querias que eu fosse. A minha paixão não se conforma com a desgraça. Eras a minha vida: tinha a certeza de que as contrariedades me não privavam de ti, Só o receio de perder-te me mata. O que me resta do passado é a coragem de ir buscar uma morte digna de mim e de ti. Se tens força para uma agonia lenta, eu não posso com ela.
Poderia viver com a paixão infeliz; mas este rancor sem vingança é um inferno. Não hei de dar barata a vida, não. Ficarás sem mim, Teresa; mas não haverá ai um infame que te persiga depois da minha morte. Tenho ciúmes de todas as tuas horas. Hás de pensar com muita saudade no teu espôo do céu, e nunca tirarás de mim os olhos da tua alma para veres ao pé de ti o miserável que nos matou a realidade de tantas esperanças formosas.
Tu verás esta carta quando eu já estiver num outro mundo, esperando as orações das tuas lágrimas. As orações! Admiro-me desta faisca de fé que me alumia nas minhas trevas.!... Tu deras-me com o amor a religião, Teresa. Ainda creio; não se apaga a luz, que é tua; mas a providência divina desamparou-me.
Lembra-te de mim. Vive, para explicares ao mundo, com a tua lealdade a uma sombra, a razão por que me atraíste a um abismo. Escutarás com glória a voz do mundo, dizendo que eras digna de mim.
A hora em que leres esta carta..."
Não o deixaram continuar as lágrimas, nem depois a presença de Mariana. Vinha ela pôr a mesa para a ceia, e, quando desdobrava a toalha, disse em voz abafada, como se a si mesma somente o dissesse:
— É a última vez que ponho a mesa ao senhor Simão em minha casa!
— Por que diz isso, Mariana? — Por que mo diz o coração.
Desta vez, o acadêmico ponderou supersticiosamente os ditames do coração da moça, e com o silêncio meditativo deu-lhe a ela a evidência antecipada do vaticínio.
Quando voltou com a travessa da galinha, vinha chorando a filha de João da Cruz.
— Chora com pena de mim, Mariana? — disse Simão, enternecido.
— Choro, porque me parece que o não tornarei a ver; ou, se o vir, será de modo que oxalá que eu morresse antes de o ver.
— Não será, talvez, assim, minha amiga...
— Vossa senhoria não me faz uma coisa que eu lhe peço?
— Veremos o que pede, menina.
— Não saia esta noite, nem amanhã,
— Pede o impossível, Mariana. Hei de sair, porque me mataria se não saísse.
— Então perdoe a minha ousadia. Deus o tenha da sua mão.
A rapariga foi contar ao pai as intenções do acadêmico. Acudiu logo mestre João combatendo a idéia da saída, com encarecer os perigos do ferimento. Depois, como não conseguisse dissuadi-lo, resolveu acompanhá-lo. Simão agradeceu a companhia, mas rejeitou-a com decisão. O ferrador não cedia do propósito, e estava já preparando a clavina, e arraçoando com medida dobrada a égua — para o que desse e viesse — dizia ele, quando o estudante lhe disse que, melhor avisado, resolvera não ir a Viseu, e seguir Teresa ao Porto, passados os dias de convalescença. Facilmente o acreditou João da Cruz; mas Mariana, submissa sempre ao que o seu coração lhe bacorejava, duvidou da mudança, e disse ao pai que vigiasse o fidalgo.
As onze horas da noite, ergueu-se o acadêmico, e escutou o movimento interior da casa: não ouviu o mais ligeiro ruído, a não ser o rangido da égua na manjedoura. Escorvou de pólvora nova as duas pistolas. Escreveu um bilhete sobrescritado a João da Cruz, e ajuntou-o à carta que escrevera a Teresa. Abriu as portas da janela do seu quarto, e passou dali para a varanda de pau, da qual o salto à estrada era sem risco. Saltou, e tinha dado alguns passos, quando a fresta, lateral à porta da varanda, se abriu, e a voz de Mariana lhe disse:
— Então adeus, senhor Simão. Eu fico pedindo a Nossa Senhora que vá na sua companhia.
O acadêmico parou, e ouviu a voz intima que lhe dizia: — "O teu anjo da guarda fala pela boca daquela mulher, que não tem mais inteligência que a do coração alumiado pelo seu amor."
— Dê um abraço em seu pai. Mariana — disse-lhe Simão — e adeus... até logo, ou...
— Até ao juízo final... — atalhou ela.
— O destino há de cumprir-se... Seja o que o céu quiser.
Tinha Simão desaparecido nas trevas, quando Mariana acendeu a lâmpada do santuário, e ajoelhou orando com o fervor das lágrimas.
Era uma hora, e estava Simão defronte do convento, contemplando uma a uma as janelas. Em nenhuma vira da clarão de luz; só a do lampadário do Sacramento se coava baça e pálida na vidraça duma fresta do templo. Sentou-se nas escaleiras da igreja, e ouviu ali, imóvel as quatro horas. Das mil visões que lhe relancearam no atribulado espírito, a que mais a miúdo se repetia era a de Mariana suplicante, com as mãos postas; mas, ao mesmo tempo, cria ele ouvir os gemidos de Teresa, torturada pela saudade, pedindo ao céu que a salvasse das mãos de seus algozes. O vulto de Ta deu de Albuquerque, arrastando a filha a um convento, não lhe afogueava a sede da vingança; mas cada vez que lhe acudia à mente a imagem odiosa de Baltasar Coutinho instintivamente as mãos do acadêmico se asseguravam da posse das pistolas.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.