Por Camilo Castelo Branco (1882)
Que, passados alguns dias, lhe propusera a admissão à sua presença nocturna e clandestina de alguns eclesiásticos e também Seculares, consumados realistas, no que concordara;
Que desse dia por diante principiaram a concorrer ali, por alta noite, um até dois por vez, pedindo-lhe
todos, depois de lhe beijarem a mão, comendas, benefícios, lugares civis, postos militares e até prelazias – o que ele tudo lhes concedeu de bom grado.
66 Nota erudita. A história, aliás exacta, que o fidalgo de Alvações contava, acha-se nos Nobiliários, e está gravada no escudo desta família. Lopo Rodrigues Camelo foi moço da estribeira de el-rei D. Sebastião, e muito Querido de seu real amo. Viajara muito e era primoroso em pontos de cortesia. Uma vez acompanhara o rei a Coimbra; e, na passagem de São Marcos para Tentúgal, encontraram a ponte do Mondego caída. O rei quis passar a vau, e o estribeiro observou-lhe que o passo ali era perigoso. D.
Sebastião redarguiu: – Vossa Alteza me engana – volveu o cortesão –ditoso engano é esse.» – E, metendo-se à vala espapada de limos e lodo, submergiu-se a ponto de ficar só
com a cabeça e um braço de fora. El-rei acudiu-lhe, tomando-o pela mão, e tirando-o com valente pulso para a margem. Lopo Rodrigues, a fim de que os seus descendentes lessem este caso no mármore do seu brasão de armas, pediu a el-rei que lhe mandasse reformar o escudo em lembrança de tal sucesso.
E assim lhe foi debuxado o escudo: Em campo verde uma ribeira de prata ondeada. Desta ribeira emerge um braço vestido de azul, do qual pega outro vestido de brocado com Letras de negro que dizem REI.
Este braço real sai da banda direita do escudo, na esquerda está uma estrela de ouro de oito raios, e no canto direito de baixo uma flor-de-lis de ouro. Timbre o braço vestido de azul com a estrela nas dedos. A carta foi registada no , no ano de 1574.
Marcial fez rir os Romanos à custa de um genealógico esquadrinhador de tal casta, que, não tendo já humanas gerações que espanejar do lixo dos séculos, entrou a deslindar os remotos avoengos de uni O Veríssimo era Mesquita pela mãe, que não conhecera. Também florira da cepa ilustre dos Mesquitas de Vilar de Maçada; mas o Norberto, achando-a em flagrante adultério com um primo Pizarro, anavalhou-a mortalmente, escondeu-se, fugiu com o Junot no regimento do conde da Ega, e quando voltou estava esquecido o caso.
Em 1827, o Veríssimo estudava em Coimbra humanidades para seguir a jurisprudência. Era bom estudante, aplicado e sério. Em 28 teve uma vertigem política. Fez-se caceteiro do partido dominante, quis atacar na Ponte a punhal os estudantes presos no Cartaxo como salteadores assassinos. Perdeu o hábito de estudar e a compostura de que fora exemplo. Em 29, abandonou a Universidade e assentou praça em infantaria. Quando o Porto se fechou, era sargento aspirante e bravo. Numa das primeiras surtidas dos liberais, foi ferido numa perna; e, apesar de coxo levemente, não quis a baixa nem a reforma. Era um bonito homem, rosto oval, olhos de rara beleza, nariz ligeiramente aquilino. Diziam-lhe que era o vivo retrato de D. Miguel, aperfeiçoado pelo desaire de coxear.
Depois da convenção, Veríssimo Borges recolheu a Alvações do Corgo, onde encontrou o pai num grande abatimento de tristeza e de recursos. A sua lavoura de vinho era pequena. Privado do ofício e malquisto como ladrão, o representante de Lopo Rodrigues socorria-se à beneficência de uma irmã, a D. Águeda, viúva de um major de milícias que morrera no ataque ao forte das Antas. O convencionado. naquela estreiteza de meios, quis voltar à fileira; mas o pai negou-lhe a licença, arguindo-lhe a baixeza de sentimentos, em querer servir o usurpador, e citavalhe as cortes de Lamego. O Veríssimo, argumentando contra estas cortes, alegava que antes queria encontrar na casa de seu pai, em vez das velhas instituições de Lamego, os modernos presuntos da mesma cidade.
O Norberto gabava-se de que na sua geração, Camelo liberal não havia um só, e que a sua maldição pesaria como chumbo derretido sobre a cabeça do filho que perjurasse a bandeira do trono e do altar.
A tia Águeda, a viúva do major, tinha pouco. Desde 1828 até 1833 gastara seis mil cruzados em festejar os natalícios e as vitórias do Sr. D. Miguel com banquetes e iluminações que duravam três noites, num delírio de bombas reais e foguetes de lágrimas, com adega franca. Mandava cantar Te-Deum na igreja de Alvações assim que no pais vinhateiro soava a notícia de alguma vitória do exército fiel. Ora, os realistas, a contar por cada Te-Deum de Alvações. entravam no Porto às quinzenas para saírem por uma bªarreira e voltarem logo pela outra. D. Águeda começava a desconfiar que o Deus de Afonso Henriques voltara a casaca.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.