Por Aluísio Azevedo (1882)
Também já era tempo, porque o céu principiava a vestir os prenúncios da aurora.
Tubarão entrou em casa apoquentado pelos próprios raciocínios.
— É o demo! considerava ele. Se a patroa dá para tolices, eu cá faço o que me manda a consciência! se descobrir que ela engana ao meu comandante, coso-a com uma naifada e levo o pequeno ao patrão! Ora, aí está!
— Mas como diabo podia aquilo acontecer!... reconsiderava ele depois, já estendido na sua estreita cama de lona. Aquela criatura que parecia uma santa!... Ah! peste de mulheres! Fosse lá um homem entender semelhantes demônios!
E quando Tubarão se ergueu no dia seguinte, sem haver dormido, tinha já a sua resolução tomada.
CAPÍTULO XI
PEDRO RUIVO
Cecília, quando tinha apenas quinze anos e recebia de sua própria mãe a educação relativamente boa, que mais tarde fez dela o encanto de algumas salas do Porto, conheceu um rapaz ainda muito novo, bonito, janota, boa mão de rédea e herdeiro presuntivo de uma das famílias mais ricas daquela cidade.
Esse rapaz era Pedro Ruivo. Teria então vinte e cinco anos e gozava já na sua província de uma enorme fama de "homem perigoso" para as mulheres de toda a espécie.
Cecília um mimo de frescura, de graça e de inocência, não lhe poderia passar despercebida. Pedro fez o possível por conquistar a sua simpatia; passaralhe muitas vezes pela porta, picara o cavalo defronte da sua janela, oferecera-lhe em todas as ocasiões para dançar a valsa e fizera-lhe repetidos protestos de amor. Mas a bela menina sorria de tudo isso e não parecia resolvida a tomar a sério os juramentos do seu ruidoso namorado.
Pedro Ruivo, ferido no amor-próprio, sentia-se cada vez mais estimulado pela indiferença de Cecília, e, longe de desistir, redobrava de atrevimento e perseverança nos ataques.
Mas qual! O demônio da menina era intransigente. Ria-se com ele, conversava, aceitava-o para uma, duas e três valsas, porém não lhe dava a menor esperança a respeito de amor.
— Não me quer então definitivamente?... perguntou-lhe uma vez Pedro Ruivo.
— Se o quero? para quê?... interrogou ela, em vez de responder.
— Ora para quê?... exclamou o janota. Para tudo! inclusive para seu marido...
— Marido! O senhor não me parece que sirva para isso...
— Julga-me então assim tão sem préstimo?!...
— Não é isso, mas é que ainda lhe falta o juízo.
— Não sei o que a leva a supor semelhante coisa!...
— Pois se não sabe, procure alguém que lho ensine. Eu confesso que não tenho muita paciência para ensinar!...
— É porque não saiu à sua mãe!... observou o Ruivo, com intenção.
— Nem a meu pai, respondeu a menina, tornando-se vermelha; meu pai, que era um insigne picador!...
— Ah!
— Com licença! disse Cecília, erguendo-se do lugar em que estava; creio que procuram por mim lá dentro.
E Pedro Ruivo ficou só na sala, entalado pela situação.
— Oh! exclamou ele consigo. Esta rapariga há de abaixar a proa ou, não serei eu quem sou!
No dia seguinte pediu a um seminarista seu amigo que lhe arranjasse uns versos de amor e publicou-os na folha mais lida do Porto, com o seguinte título: "Àquela por quem morro e que tanto despreza os meus protestos; a ti, Cecília de minha alma?" Assinava. "'P. R." A menina leu e compreendeu a intenção do suposto poeta. Daí a quatro dias apareceu outra dose de lirismo. Esta agora trazia o seguinte rótulo: "Ainda! Ainda!"
E continuou, duas, três e quatro vezes por mês. Cecília habituou-se àquela música, e todos os conhecidos principiaram a tratar dos amores ingratos do Ruivo e do pertinaz retraimento da filha de Helena.
O namorado teve afinal de sair do Porto para fazer uma viagem ao Minho, em companhia da família, e, durante ano e meio que lá esteve, grandes mudanças se tinham de operar no objeto da sua paixão. É que Cecília se tornara de todo mulher; a flor desabrochara. Já não era o mesmo botão de rosa, petulante e empertigado, que parecia sorrir e zombar de tudo; agora a flor desabotoara aos raios de estranhas aspirações e deixava-se pender melancolicamente para a haste. Vieram os sobressaltos dos dezenove anos; os sonhos indefinidos das noites de vigília e as vagas tristezas dessas horas em que o sol parece ir se deixando morrer de volúpia no horizonte.
Cecília sentia acordar-lhe no corpo uma nova alma, que já se não contentava só com os folguedos da menina e só com as doces afeições dos seus parentes.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.