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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

Amâncio deixava-se conduzir, em silêncio. Já não tinha o mesmo tipo mal ajeitado com que se apresentara ao Campos; agora, um terno de casimira cinzenta, comprado nessa mesma manhã a um alfaiate da Rua do Ouvidor. Dava-lhe ares domingueiros de janotismo. Vinha de barba feita, as unhas limpas, os dentes cintilantes, o cabelo dividido ao meio, formando sobre a testa duas grandes pastas lustrosas e do feitio de uma borboleta de asas abertas. Os olhos não denunciavam os incômodos da véspera, e de todo ele respirava um cheiro ativo de sândalo

— Estimei bem que me escrevesses... disse atravessando o corredor, ao lado do Coqueiro. Não tinha para onde ir hoje. O Campos está de passeio com a família lá para o tal Jardim Botânico..

— Pois eu estimei ainda mais que viesses. Entra!

Penetraram na sala de jantar. Estava tudo bem arrumado e muito limpo; não se podia desejar melhor aspecto de felicidade caseira; em tudo - a mesma aparência austera e calma de uma velha paz inquebrantável e honesta. Mme. Brizard, assentada à cabeceira da mesa, parecia ler atentamente um livro que tinha aberto defronte dos olhos; mais adiante trabalhava Amelinha em uma máquina de costura, a cabeça vergada, os olhos baixos, numa expressão tranqüila de inocência.

Logo que Amâncio apareceu na varanda, Mme. Brizard desviou os olhos do livro, deixou cair as lunetas do nariz e foi recebê-lo solicitamente; a outra limitou-se a cumprimentá-lo com um modesto e gracioso movimento de cabeça.

— O Dr. Amâncio de Vasconcelos! Gritou o Coqueiro, empurrando o colega para junto das senhoras. E acrescentou, designando-as:— Minha mulher e minha irmã...O amigo já sabe que são duas criadas que aqui tem às suas ordens!

Amâncio agradecia, desfazendo-se em reverências e apertando as mãos de ambas, todo vergado para a frente, as faces incendiadas pela comoção daquela primeira visita.

— Põe-te à vontade, filho! Disse-lhe o Coqueiro, em ar quase de censura.— Olha uma cadeira. Senta-te!

E tirando-lhe a bengala e o chapéu : — Aqui estás em tua casa! Minha gente não é de cerimônias!

Entretanto Mme. Brizard o tomava a si com perguntas: — Há quanto tempo havia chegado; de que província era filho; se tinha saudades da família; se gostava do Rio de Janeiro; que tal achava as fluminenses, e se já estava embeiçado por alguma.

E vinham os risos exagerados e sem pretexto, de quando se deseja agradar as visitas.

O provinciano respondia a tudo, inclinando a cabeça, procurando armar bem a frase e fazendo esforços para se mostrar de boa educação. Ia-lhe já fugindo o primitivo acanhamento e as palavras acudiam-lhe à ponta da língua, sonoras e fáceis.

— Não tenho desgostado da Corte, dizia a brincar com a sua medalha da corrente, - mas, confesso, esperava melhor...Lá de fora, sabe V. Ex.ª a coisa parece outra! Fala-se tanto do Rio!...Pintam-no tão grande, tão bonito, que o pobre provinciano, ao chegar aqui, logo sofre uma terrível decepção!...Pelo menos comigo foi assim!

— O Sr. Vasconcelos já visitou os arrabaldes?...perguntou Mme. Brizard muito delicadamente.

— Ainda não, minha senhora. Apenas fui a Botafogo, de passagem, para entregar uma carta; mas tenciono percorrê-los todos, na primeira ocasião.

E Amâncio olhava a espaços para Amélia, que parecia muito preocupada com o trabalho.

— Pois suspenda esse juízo a respeito do Rio, até que conheça os arrabaldes, acrescentou a dona da casa. — Só por eles se poderá julgar do quanto é bela e grandiosa esta cidade! Oh! A natureza do Brasil! Não há coisa nenhuma que se lhe possa comparar!...

E fitando-o, depois de um gesto de entusiasmo: — Para um espírito contemplativo e apaixonado, essa esplêndida natureza vale por todas as maravilhas da Europa!

— V. Ex.ª parece gostar muito do Brasil...

— Habituei-me a isso com o meu segundo marido...ele era louco por este país! Quantas vezes, depois que caiu doente e que os médicos lhe recomendaram que viajasse, quantas vezes não o aconselhei a que liquidasse aqui os seus negócios e fôssemos viver para a Europa...Já não havia sombra de perseguição política, (porque foi uma perseguição política que o atirou ao Brasil), não havia razões por conseguinte para não voltar à pátria, não havia razões para se deixar morrer aqui, como morreu!...Pois bem; sabe o senhor o que ele me respondia sempre? Dizia-me: “Bebê”.(era assim que me tratava.) “Bebê, compreendes um homem apaixonado por uma mulher, a ponto de não a poder deixar um só instante? Compreendes um escravo, um cão?... assim sou eu por esta natureza. Não a posso abandonar! — estou apaixonado, louco! ” Entretanto, — veja o Dr.! — Hipólito, aqui, nunca foi devidamente apreciado e compreendido; nunca recebeu a mais insignificante prova de gratidão do governo deste País, que ele idolatrava daquele modo! Trabalhou muito para o Brasil, e de graça! Estão aí as empresas, os jornais, as sociedade que fundou! Pois o governo, — nem uma palavra, nem uma consideração, nem um “muito obrigado!” Se o pobre homem não tivesse posto de parte algum dinheiro, ficava eu na miséria, perfeitamente na miséria!

Amâncio principiava a desconfiar que aquela francesa era nada menos que um formidável “cacete”.

— Uma verdadeira paixão!...insistiu ela. — Uma paixão que o prendia aqui!

(continua...)

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