Por José de Alencar (1875)
Depois da cerimônia começaram os parabéns que é de estilo dirigir aos noivos e a seus parentes.
Só então reparou-se na presença de uma senhora de idade, que ali estava desde o princípio da noite. Era D. Camila, mãe de Seixas, que saíra de sua obscuridade para assistir ao casamento do seu Fernando, e sentindo-se deslocada no meio daquela sociedade, retirou-se com as filhas logo depois de concluído o ato.
Para animar a reunião as moças improvisaram quadrilhas, no intervalo das quais um insigne pianista que fora mestre de Aurélia, executava os melhores trechos de óperas então em voga.
Por volta das dez horas despediram-se as famílias convidadas.
Encaminhou-se então Lemos com Seixas para aquela parte da casa onde ficavam os aposentos, que Aurélia destinara a seu marido, os quais estavam preparados com muito luxo, e sobretudo com uma novidade de muito gosto.
- Meu amigo, o senhor está casado, pelo que já lhe dei meus parabéns! Falta-me porém cumprir um dever, que me cabe como tutor que fui de sua mulher, e a quem nesta noite ainda faço as vezes de pai.
- Também eu esperava este momento para agradecer-lhe os cuidados e desvelos que dispensou a Aurélia, e assegurar-lhe minha sincera amizade.
- Não fiz mais do que pagar uma dívida à minha boa irmã. Estimo esta pequena como se fosse minha filha; vi-a nascer.
Tirando do bolso uma argola de chaves, o velho passou a abrir os diversos móveis de erable, que ia deixando às escâncaras. Enquanto expedia-se nessa tarefa, ia falando:
- Vou ter a satisfação de o instalar em seus novos aposentos. Aqui está seu gabinete de trabalho; ali é o toucador; deste lado do jardim fica um quarto de banho, e uma saleta de fumar com entrada independente para receber seus amigos. Tudo isto é um brinco.
- Bem reconheço a mão de Aurélia; estou sentindo em todos estes objetos o aroma que exala de sua beleza, disse Seixas inebriado de felicidade.
- Foi ela, sim senhor, que se incumbiu disso; mas ainda não viu tudo. Olhe o enxoval.
Lesmo mostrou então as gavetas e prateleiras dos guarda-roupas e cômodas atopetados das várias peças de vestuário, feito de superior fazenda e com maior apuro. Nada faltava do que pode desejar um homem habituado a todas a comodidades da moda.
No toucador, se o tabuleiro de mármore ostentava toda a casta de perfumarias, as gavetas tinham cópias de jóias próprias de um cavalheiro elegante. Algumas havia de grande preço, como o anel de rubi, e uma abotoadura completa de brilhantes.
- Tudo isto lhe pertence, disse o velho terminando o inventário. É coisa lá da pequena; não entrou em nosso ajuste.
Seixas experimentou sensação igual à do homem que no meio de um sonho aprazível fosse arremessado a um pântano e acordasse chafurdando na torpe realidade. A palavra ajuste, ali naquele instante, quando acabava de santificar pelo juramento o eterno amor que votava a sua esposa; quando estava-se revendo em sua lembrança, de que a moça deixara impregnada a cada passo o luxo e elegância daqueles aposentos; essa palavra proferida sem intenção pelo velho, infligiu-lhe a mais acerva das humilhações.
Entretanto Lemos fechava as portas e gavetas que tinha aberto e terminou apresentando a Seixas a argola de chaves.
- Aqui tem, meu caro. Só uma chave não lhe posso eu dar; é dali.
O velho indicou na extrema de um breve corredor uma porta oculta por um reposteiro de seda azul com flecha dourada.
- Quando aquela porta abrir-se, não haverá em todo este Rio um maganão mais feliz!
E o velho repicando a sua fustigante risadinha de falsete, tornou ao salão, onde encontrou cinco negociantes, velhos camaradas, que a seu pedido se haviam demorado, e achavam-se um tanto embrulhados com a história.
- Ó Lemos, não dirás que fazemos nós ainda a esta hora aqui? Olhe, que para trapalhão temos conversado.
- Querem ver que brejeiro pretende fazer o negócio com toda a solenidade! Vocês não viram o aquele... o tabelião?
- É verdade; chamaram-no agora mesmo. E nós seremos testemunhas.
Aqui desafogaram-se os sujeitos em boas risadas.
- Quase que adivinharam vocês, disso o Lemos; venham cá e verão o que é.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.