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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— O cavalo está se ferrando. 

— Não há aí outro animal? 

— Só o Morzelo, que foi do defunto. 

— Pois arreie. 

Manuel estremecera. Vendo entrar o peão, atirou-se ao peito do cavalo, cingindo-lhe o pescoço com os braços, e procurando defendê-lo com seu corpo contra o intento do rapaz, que se preparava par selar o animal. 

— Não arreia que eu não deixo! exclamou o menino com raiva.  

Lágrimas de cólera e dor saltavam-lhe dos olhos, e caíam sobre a cabeça do animal que ele apertava ao peito para subtraí-lo ao freio. O Morzelo, dócil e submisso, deixava abraçar-se pelo menino; mas a sua pupila negra às vezes incendiava-se e desferia rápidas centelhas. 

Acudiu o negociante que ouvira os gritos de Manuel e, retirando-o à força, acenou ao peão indeciso: 

— Ponha o freio! 

— Não há de pôr! gritou Manuel. Quer tomar o cavalo de meu pai, como já tomou a mulher. Está muito enganado! 

O teimoso menino, aproveitando-se da comoção que suas palavras tinham produzido no negociante, escapou-se e travou do freio, forcejando por tirá-lo da mão do peão. Nova luta se travou entre Loureiro e o enteado, a quem o desespero duplicava as forças. 

O negociante irritado subjugou o menino contra as varas da ramada, enquanto o peão, assoviando com certa indiferença escarninha, acabava de arrear o animal.  

— Solta-me, demônio! gritava Manuel. 

— Meio, sossegue, se não quer que o amarre. 

— Tu és capaz? 

O peão acabara de selar o cavalo, que puxara para fora da ramada. Prendendo Manuel dentro da palhoça, o negociante saltou na sela, antes que o alcançasse o menino que forcejava por abrir a cancela, mal segura com uma correia. 

Vendo Loureiro montado no cavalo, sucumbiu o menino. Com o semblante horrivelmente pálido, os braços caídos e o corpo vacilante, seus olhos pasmos projetavam-se das órbitas, com o arrojo de sua alma, para o animal que não podia proteger. 

Entretanto o Morzelo, parado ainda, fitava de esguelha a pupila nos olhos do menino, soltando um relincho soturno, que lhe arregaçava o beiço, e mostrava a branca dentadura. Seria acaso um riso sardônico do cavalo? 

O caso é que os olhos do menino irradiaram; e do choque dos dois lampejos súbitos, chispou uma centelha ardente. Nesse momento, não obedecendo o Morzelo ao toque das rédeas, o negociante roçou-lhe as esporas. Estremeceu todo o brioso cavalo, mas estacou, na aparência calmo; foi quando o negociante fincou-lhe as rosetas, que ele girou sobre os pés com espantosa rapidez, e atirou-se pelo campo fora aos trancos, semelhante a uma bala que salta fazendo chapeletas.  

O menino seguia a cena com ansiedade; seu peito ofegava; a respiração ardente lhe crestava os lábios entreabertos; por vezes seu rosto como que imbutia-se em uma lividez marmórea, cuja expressão era má e sinistra. 

De repente soaram dois gritos: um de prazer, outro de angústia. 

O Morzelo, abolando o corpo, rodara pela cabeça, esmagando o cavaleiro no chão duro e pedregoso. Quando o peão chegou em socorro do negociante, já o achou moribundo. 

A esse tempo o cavalo correra para Manuel que o abraçou, e saltando ligeiramente na sela, começou a ginetear pelo campo. O árdego animal, pouco antes furioso contra um cavaleiro destro e robusto, agora dócil e submisso sob a mão débil de um menino, escaramuçava pelo gramado soltando relinchos de alegria, e amaciando o galope para não sacudir o gauchito. 


A GUAIACA 

 

Levaram o estancieiro em braços para a casa. Oito dias depois faleceu em conseqüência do desastre. 

Ficou Francisca outra vez viúva. Os dois infortúnios, sofridos dentro de um ano, embotaram a pequena dose de sensibilidade  que lhe coubera em partilha. Tornou-se de uma indiferença extrema para os desgostos, como para os prazeres. Quando, meses depois, deu à luz uma menina, filha póstuma do segundo matrimônio, este acontecimento não passou para ela de um acidente material; algumas dores curtidas, e mais uma cria na casa. 

Manuel cresceu, mas sempre concentrado e misantropo. Parecia que essa alma em flor, crestada ao desabrochar, se confrangera em um capulho negro e rijo. Lá se encontra no algodoeiro, entre as cápsulas cheias de alvo e macio cotão, algum enfezado aleijão herbáceo que nutre as larvas. Era o coração do rapazinho um aborto semelhante. 

O espírito guarda ainda mais do que a matéria as primitivas impressões. É uma lâmina polida a consciência do menino, onde a luz da razão nascente esgrafia com extraordinário vigor as primeiras imagens da vida. Muitos outros raios projetam depois em nós sombras vigorosas, que todavia não desvanecem esse estereótipo indelével da infância.  

(continua...)

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