Por Camilo Castelo Branco (1862)
— Porque não fiz algum favor a vossa excelência. A receber alguma paga há de ser de quem cá me mandou. Fique com Deus, minha senhora, e oxalá que seja feliz.
Saiu Teresa, e Joaquina entrou na grade.
— Já te vais embora, Mariana?
— Vou, que é pressa; um dia virei conversar contigo muito. Adeus, Joaquina. — Pois não me contas o que isto é? O amor da fidalga está perto daqui?
Conta, que eu não digo nada, rapariga!...
— Outra vez, outra vez; obrigada, Joaquina?
Mariana, durante a veloz caminhada, foi repetindo o recado da fidalga; e, se alguma vez se distraia deste exercício de memória, era para pensar nas feições da amada do seu hóspede, e dizer, como em segredo, ao seu coração: "Não lhe bastava ser fidalga e rica: é, além de tudo, linda como nunca vi outra!" E o coração da pobre moça, avergoando ao que a consciência lhe ia dizendo, chorava.
Simão, de uma fresta do postigo do seu quarto, espreitava ao longo do caminho, ou escutava a estropeada da cavalgadura.
Ao descobrir Mariana, desceu ao quinteiro, desprezando cautelas e esquecido já do ferimento, cuja crise de perigo piorara naquele dia, que era o oitavo depois do tiro.
A filha do ferrador deu o recado, e sem alteração de palavra. Simão escutara-a placidamente até ao ponto em que lhe ela disse que o primo Baltasar a acompanhava ao Porto.
— O primo Baltasar!... — murmurou ele com um sorriso sinistro — Sempre este primo Baltasar cavando a sua sepultura e a minha!...
— A sua, fidalgo! — exclamou João da Cruz. — Morra ele, que o levem trinta milhões de diabos! Mas vossa senhoria há de viver enquanto eu for João. Deixe-a ir para o Porto, que não tem perigo no convento. De hora a hora Deus melhora. O senhor doutor vai para Coimbra, está por lá algum tempo, e às duas por três, quando o velho mal se precatar, a fidalguinha engrampa-o, e é sua tão certo como esta luz que nos alumia.
— Eu hei de vê-la antes de partir para Coimbra — disse Simão.
— Olhe que ela recomendou-me muito que não fosse lá — acudiu Mariana.
— Por causa do primo? — tornou o acadêmico ironicamente.
— Acho que sim, e por talvez não servir de nada lá ir vossa senhoria — respondeu timidamente a moça.
— Lá, se quer, — brandou mestre João — a mulher, vai-se-lhe tirar ao caminho. Não tem mais que dizer.
— Meu pai, não meta este senhor em maiores trabalhos? — disse Mariana.
— Não tem dúvida menina — atalhou Simão — eu é que não quero meter ninguém em trabalhos. Com a minha desgraça, por maior que ela seja, hei de eu lutar sozinho.
João da Cruz, assumiu uma gravidade de que a sua figura raras vezes se enobrecia, disse:
— Senhor Simão, vossa senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquele que dizia que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar. Paixões... que as leve o diabo, e mais quem com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de um homem botar a perder. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco, que mergulha uma, e aparecem quatro à tona da água. Um homem rico e fidalgo como vossa senhoria, onde quer topa uma com um palmo de cara como se quer e um dote de encher o olho. Deixe-a ir com Deus ou com a breca, que ela, se tiver de ser sua, não lhe há de vir dar, tanto andar para trás como para diante: é ditado dos antigos. Olhe que isto não é medo, fidalgo. Tome sentido, que João da Cruz sabe o que é pôr dois homens duma feita a olhar o Sete-Estrelo, mas não sabe o que é medo. Se o senhor quer sair à estrada e tirar a tal pessoa ao pai, ao primo, e a um regimento, se for necessário, eu vou montar na égua, e daqui a três horas estou de volta com quatro homens, que são quatro dragões.
Simão fitara os olhos chamejantes no do ferrador, e Mariana exclamara, ajuntando as mãos sobre o seio:
— Meu pai, não lhe dê esses conselhos!...
— Cala-te aí, rapariga! — disse mestre João. — Vai tirar o albardão à égua, amansa-a, e bota-lhe seco. Não és aqui chamada.
— Não vá aflita, senhora — disse Simão à moça, que se retirava, amargurada. — Eu não aproveito alguns dos conselhos de seu pai. Ouço-o com boa vontade, porque sei que quer o meu bem; mas hei de fazer o que a honra e o coração me aconselharem.
Ao anoitecer, Simão, como estivesse sozinho, escreveu uma longa carta, da qual extraímos os seguintes períodos:
"Considero-te perdida, Teresa. O Sol de amanhã pode ser que eu o não veja. Tudo, em volta de mim, tem uma cor de morte. Parece que o frio da minha sepultura me está passando o sangue e os ossos.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Perdição. 1862. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16586 . Acesso em: 17 jun. 2026.