Por Camilo Castelo Branco (1882)
– Meu tenente-coronel, el-rei, quando vier, não há-de estar ao alcance da canalha. Descanse vossência.
Os janotas acercavam-se, desfrutadores, do Cerveira. Eram o Russel, o António Gaspar, os de Infias, o Bento Miguel de Maximinos, o Paiva Brandão, o D. Manuel de Prelada, o D. João da Tapada, o António Luís de Vilhena, um loiro, muito enamorado, com uma rosa-chá na lapela da casaca azul com botões amarelos.
Daí a pouco fez-se um torvelinho de povo à porta do Governo Civil. A soldadesca afastava a multidão com frases persuasivas de coronha de arma. Formou-se a escolta, e o preso saiu, de rosto levantado e afoito, rara a multidão. Cerveira Lobo fitava-o com uma ansiedade aflitiva. –Que se parecia... e ia jurar que era ele! – quando um realista convencionado e que estava no grupo, o major de Vila Verde, disse com um desdém de achincalhação:
– Olha quem ele é! Oh que traste! que grande mariola! Forte malandro!
– Quem é? quem é? –perguntavam todos.
– É o Veríssimo, foi furriel da minha companhia, andou com o Remexido, e safou-se de Messines com o pré dos guerrilhas.
O Cerveira inclinou-se ao pedreiro e disse-lhe à orelha:
– Ouviste, ó Zeferino?
– Estou banzado! –murmurou o outro.
– Olha que espiga! três contos! hem?
– Raios parta o Diabo! – disse o pedreiro, numa síntese condensada da sua incomensurável angústia.
Minutos depois, o padre Rocha encarava de frente o Cerveira, chamava-o de parte e dizia-lhe:
– Está desenganado, meu amigo? Eu, para corresponder à confiança de V. Exª, impus-me o dever de o salvar de um roubo de três contos, e da vergonha de ser logrado por um impostor. O maior serviço que podemos fazer ao Sr. D. Miguel é entregar à justiça um infame que se serve do seu sagrado nome para roubar os amigos do augusto príncipe. Sr. Cerveira, vá para sua casa; e, quando eu lhe disser que é tempo, então desembainhará a sua espada:
O Cerveira, abraçando-o:
– Honrado amigo, honrado amigo! Ainda os há..
O Veríssimo entrou na cadeia de Braga, e na madrugada do dia seguinte foi transferido para a Relação do Porto.
O nome e apelidos que ele deu no Governo Civil eram verdadeiros: Veríssimo Borges Camelo da
Mesquita5.
Tinha nascido em 1806 em Alvações do Corgo, no Douro. Ao pai chamavam-lhe o Norberto das facadas, quando já era velho, e meirinho-geral da comarca, em Vila Real Uns diziam que a alcunha facadas lhe vinha de ter esfaqueado a mulher, por ciúmes; outros, de ter levado três facadas, na Campeã, quando pusera cerco a uns salteadores que pernoitavam na estalagem daquela aldeia, nas vertentes do Marão. O certo é que a quadrilha tinha sovado os aguazis, e o comandante da diligência, o meirinho-geral, recolhera à vila numa padiola.
Norberto Borges Camelo tinha pedra de armas na casa de Alvações, uma edificação do século XVII. Davase como descendente do bispo do Algarve D. João Camelo. Contava a origem do brasão da sua casa, concedido ao seu sexto avô Lopo Rodrigues. Habituado a contar aos juízes de fora e corregedores da comarca o facto provado por incontestáveis pergaminhos, era convidado muito a miúdo desfrutadoramente à exposição heráldica do seu escudo, que ele fazia numa toada monótona de quem reza6.
5Segundo as informações textuais do já referido José Joaquim Ferretra de Meio e Andrade, o diálogo da autoridade e do preso correu assim:
Que era das imediações de Vila Real, em Trás-os-Montes, e um dos amnistiados em Évora Monte, na qualidade de sargento do exército realista;
Que numa surtida que fizeram os do Porto fora ferido num quarto por uma bala, ficando um pouco coxo: mas que não deixara ainda assim o serviço;
Que achando-se no último Carnaval no lugar de São Gens, ali tomara parte nos folguedos do povo com o abade da freguesia, o qual o convidara no fim para sua casa;
Que o tratara muito bem, e que, passados alguns dias, lhe dissera, depois da ceia, de uma maneira muito recolhida e sonsa: que desconfiava ter em sua casa Sua Majestade el-rei o Sr. D. Miguel I (porque ele era em tudo um fac-símile).
Que nem lhe negara, nem confessara, nas que, passados dias, à mesma hora, lhe repetira aquela suspeita; porém que ainda dessa vez lhe respondem com uma evasiva. Autoridade E depois? Preso
Depois? que lá se aviessem, porque o seu fim era conservar aquela cómoda situação, maxime quando as suas finanças estavam no maior apuro.»
Autoridade
Que utilidade tirava em manter o abade nessa ilusão?
Preso (cínico)
Que a tirava toda, porque só assim podia continuar no gozo da comodidade que se lhe oferecia; Que daí por diante lhe ficara dando o tratamento de Majestade, como coisa decidida, e lhe revelara o desejo de que o elevasse à dignidade de seu capelão-mor, ao que anuíra;
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.