Por Aluísio Azevedo (1882)
— Estou nervosa! respondeu ela, afetando desprendimento.
— Hão de ser as saudades do capitão! aventou o marinheiro, torcendo nas mãos o seu pesado gorro de baeta azul.
Aquela observação perturbara sobremaneira a rapariga e trouxera-lhe às faces uma leve cor-de-rosa.
— Há seis meses que ele se foi... acrescentou Tubarão, com os olhos baixos e o semblante entristecido. Seis meses?
— Quase sete. Ora espere! (E depois de contar pelos dedos.) isso, são seis meses e dezoito dias...
— Deve ser isso mesmo! disse Cecília, quase com impaciência.
E os dois calaram-se, sem encontrar mais nada para dizer.
— Vossemecê precisa de mim para alguma coisa?...
— Não. Podes recolher-te quando quiseres. Não preciso hoje de companhia.
O marinheiro afastou-se, sacudiu os ombros, e foi para o seu quarto; mas não pôde conciliar o sono: a insólita preocupação da patroa e as recomendações do comandante tiravam-lhe o sossego do espírito.
— Não! dizia ele de si para si. Não é possível! Além disso, com quem?... Aqui só aparece o velho capitão Rego e outros tão inofensivos como este! Ela pouco sai!... Onde, por conseguinte, poderia apanhar uma relação que autorizasse aquelas palavras do comandante?... Não! definitivamente o que ela tem são saudades do marido! Nem podia ser de outro modo! Sete meses não são sete dias, coitada!
E a fazer destes raciocínios, o Tubarão virava-se de um para o outro lado da sua maca de lona, sem conseguir dormir.
Deram onze horas, doze, uma; e nada! O sono não queria chegar. Tubarão levantou-se, ia acender um cigarro, mas, antes de riscar o fósforo, sentiu rumor de passos no jardim.
— Olé! disse consigo. Há mais quem não consiga ficar na cama?... Ora, vamos ver quem é o meu companheiro de insônia...
E, com muito cuidado, espreitou pela janela de modo que não fosse percebido.
Efetivamente, um vulto negro, que parecia de homem pela estatura, acabava de saltar a grade e se dirigia para um maciço de verdura, justamente por debaixo das janelas de Cecília.
O marujo sentiu o coração agitar-se-lhe por dentro, como se quisesse saltarlhe pela boca. Tremeram-lhe as pernas, faltou-lhe quase a respiração, e a pele crispou-se-lhe toda em um calafrio de febre.
O vulto chegara à janela de Cecília e roçara levemente a ponta da bengala pelas gelosias fechadas.
O marinheiro espiava, com uma ansiedade crescente. À semelhança dos náufragos que, sentindo escaparem-lhe os meios de salvamento, vão refugiando a esperança em tudo que lhes acode à fantasia, ele contava ainda poder, no fim de tudo aquilo, justificar a inocência de sua querida ama.
Mas, ao quarto sinal do vulto misterioso, abriu-se discretamente uma das folhas da janela, e a cabeça encantadora de Cecília assomou a luz melancólica das estrelas.
Conversaram os dois, mas Tubarão não conseguiu ouvir mais que um confuso sussurrar de vozes, perdido no sonolento rumorejo da noite. Ao fim de meia hora fechou-se de novo a janela e o vulto encaminhou-se cautelosamente para o portão.
O marinheiro havia já colocado à cinta a navalha que lhe dera o comandante. Abriu a porta e, colando-se à parede, ganhou, a passo de gato, o jardim, pelo lado contrário ao que seguia o vulto.
Só o conseguiu avistar já na rua, ao dobrar de uma esquina. Tubarão correu para ele, mas, antes de alcançá-lo, saíram-lhe ao encontro dois homens.
— Que deseja daquela pessoa? perguntou-lhe um destes com acento muito espanhol.
— Quero pôr-lhe a mão!
— Pois entenda-se conosco!
O marinheiro respondeu desta vez com um formidável arranco de corpo inteiro, que atirou por terra os dois sujeitos. E lançou-se de novo a perseguir o vulto do jardim.
Este, porém, havia aproveitado o conflito para fugir, e o marinheiro não conseguiu mais apanhá-lo.
Entretanto, os dois outros homens seguiam de perto Tubarão, a falar em voz baixa, e a bater nas pedras da rua com as suas grossas bengalas.
O marinheiro, quando se convenceu de que já não alcançaria o fugitivo, parou, à espera dos dois que vinham atrás.
Estes pararam por sua vez, e suspenderam a conversa. Só se puseram de novo a caminhar quando o marinheiro caminhou também.
— Ora raios! bradou Tubarão, avançando de um pulo sobre eles. Já me vão azedando os fígados! e num relance segurou-os a ambos, pelo gasnete e atirou-os de cambolhada contra a parede.
Os dois cambalearam por algum tempo, um desabou afinal sobre a calçada e o outro, sacando uma faca, investiu contra o marinheiro.
— Ah! Ele é isso? rosnou este, desviando o corpo. Pois manda de lá tua faquinha, que te quero dar a resposta!
O outro, porém, em vez de mandar a faca, limitou-se a responder:
— Hombre! siga su camino, y no me embrome usted! — Ainda bem! resmungou Tubarão.
E afastou-se lentamente, com ar de desprezo.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.