Por Aluísio Azevedo (1884)
E, custasse o que custasse, ela havia de fazer um almoço no tesouro de Atréus como fizera seu padrinho!...
— Que padrinho é esse? perguntou o Borges.
— D. Pedro II, o nosso imperador. — Ah!...
Coitada! Mal então sabia ela a influência que o monarca estava destinado a exercer na sua vida!...
— Bem! disse o Borges, depois do passeio à Grécia. Agora, creio que basta de ruínas e que podemos voltar para o nosso canto! Ah! se soubesse, Filomena, as saudades que tenho de meu querido Paquetá!... Aquilo, sim, é que é terra! Estou aqui a ver-me debaixo de uma mangueira, contigo ao lado, depois do jantar... Que bom, meu Deus! que coisa boa1....
— Enlouqueceste?! exclamou ela. Pois nós havemos de voltar sem
conhecer a Índia?!... A fanática! A terra das superstições brutais! dos faquires sobrehumanos! A Índia, com todos os seus formidáveis budas! A Índia, com o seu BothJattrá, essa deslumbrante festa dos carros! Oh! não! isso seria impossível!
O Borges empalideceu.
E depois da Índia, acrescentou ela por que não um pouco da Arábia, onde faremos belas peregrinações ao Nedjed, onde percorreremos aldeolas e lugarejos singulares, estudando a vida das mulheres de Hail, com o seu uso original de trazer argolas de ouro nas ventas e nas orelhas; onde teremos ocasião de apreciar os dançados das donzelas de Shakik?!... E a África?! A África então?! Esquecia-se o Borges de que a África era a única paragem do mundo, em que ainda se podiam encontrar regiões desconhecidas? E, além disso, não valeriam a pena de alguns passos as famosas cascatas de Samba-nagoshi, a aldeia de Mayolo, tão estimada pelos naturalistas?! E as caçadas dos elefantes pretos nas terras dos Aponos, e a caçada dos leões de Mogiana e dos gorilas de Olenda?!... Acaso não reconhecia o Borges a necessidade urgente de ver e experimentar todas essas coisas?!...
— Lá se vai tudo quanto Marta fiou!... disse o pobre homem, gemendo debaixo daquele bombardeamento.
Mas não reagiu. E, no fim de algum tempo; ia-se já habituando ao viver boêmio que a mulher lhe impunha. Dócil, como era, para escravizar-se aos hábitos, afez-se pouco a pouco àquele duro vagabundear, e estaria disposto a seguir Filomena ao inferno, contanto que esta nunca mais lhe fechasse o ferrolho sobre o nariz.
CAPÍTULO X
DE VOLTA A PÁTRIA
E assim se transformava completamente sem dar por isso. Não parecia o mesmo; sabia montar a cavalo, atirar várias armas, bater-se em duelo, andar em velocípede, correr no gelo, jogar o soco e a bengala e até servir-se do terrível bowieknife de dois gumes.
E no fim de algum tempo, quem o visse à tolda de um paquete inglês, numa dessas madrugadas cor de pérola, enluvado no seu ulster de xadrezinho, o chapéu ao lado, a toalha caída sobre as costas, o bigode retorcido, monóculo no olho, binóculo a tiracolo, e tão pronto ao prazer como ao perigo, lépido, terrível, namorador; quem o visse — seria capaz de acreditar que ali estava aquele mesmo Borges, aquele pacato João Touro, que alguns anos antes atravessava as ruas comerciais do Rio de Janeiro, agenciando a vida, muito atarefado, dentro de suas calcinhas de brim mineiro?!...
Onde iria já o casto, o puro, o doce João Touro do outro tempo?...
As repetidas viagens, o atrito com as populações estranhas, a familiaridade com os costumes de mil povos diversos, a experiência das comoções transcendentes, deram-lhe grande desembaraço aos movimentos, certa elegância máscula, de trappeur, que de alguma forma dizia bem com os seus músculos atléticos. Agora tinha exclamações em todas as línguas, anedotas de toda a espécie, termos e frases de todo o mundo. E as correrias, os exercícios, os perigos, fizeram-no intrépido, aventuroso, despejado de maneiras, enérgico como um herói do romantismo.
Por outro lado, o constante entusiasmo de Filomena pelas coisas do espírito acabara por dominá-lo: ensinara-lhe a ter, ou pelo menos suportar de cara alegre certos prazeres delicados, como a música dos clássicos, a conversa sutil das senhoras de boa sociedade, os segredos da literatura, as linhas misteriosas da arquitetura, os primores de estatuária e o valor dos quadros célebres.
Ele! O Borges, aquele mesmo que, em Tebas, classificara o granito vermelho do Syena — boa pedra para construção! — Quem o diria?...
Alguns olhos femininos principiavam de voltar-se para ele com certa insistência; as mulheres descobriam-lhe já na elegância do todo e no espírito da conversa, pretextos de amor e elementos de sedução.
De volta ao Rio de Janeiro, os amigos mal o reconheceram. Acharam-no transformado em tudo; descobriram-lhe novos dotes e novos defeitos, porém estes em número muito maior que aqueles. Fizeram-lhe boas e más ausências.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.