Por Aluísio Azevedo (1884)
O marido não fazia esperar a justificação do seu novo aparelho, e, tal interesse punha em jogo, que parecia tratar de uma obra própria, de cujo sucesso dependesse a sua felicidade. E, logo que encontrasse algum amigo, não deixava de falar nisso; gabava-se da compra que fizera, encarecia a utilidade do objeto e aconselhava a todos que comprassem um igual.
Campos, depois do casamento, principiou a prosperar de um modo assombroso; dentro de três anos era, o que vimos, — rico, muito acreditado e seguro na praça.
E, contudo, não tinha mais do que trinta e seis anos de idade.
— É um felizardo! resmungavam os colegas, com olhar fito.
— É um felizardo! Quem o viu, como eu, há tão pouco tempo!...
— Mas sempre teve boa cabeça!...
— São fortunas, homem! Outros há por aí, que fazem o dobro e não conseguem a metade!
— Não! ele merece, coitado! É muito bom moço, muito expedito e trabalhador!
— Homem! Todos nós somos bons!...O que lhe afianço é que nunca em minha vida consegui pôr de parte um bocado de dinheiro!
E o caso era que o Campos ,ou devido à fortuna ou ao bom tino para ao negócios, prosperava sempre.
Às quatro da tarde apareceu de novo Amâncio.
Vinha esbaforido. O dia estava horrível de calor. Campos foi recebê-lo com muito agrado.
— Então? disse-lhe. Está livre das cartas?
— Qual! respondeu o moço. — tenho ainda cinco para entregar...Uma estafa!
No Maranhão nunca senti tanto calor!...
— Falta de hábito! observou o outro. Daqui a dias verá que isto é muito mais fresco!
— Estou desta forma!...queixava-se Amâncio, quase sem fôlego, a mostrar o colarinho desfeito e os punhos encardidos.
— Suba, volveu o Campos, empurrando-o brandamente. — tome qualquer coisa. Vá entrando sem cerimônia.
E, já na escada do segundo andar, perguntou de súbito: — É verdade!e a sua bagagem?...
— Está tudo na Coroa de Ouro. Hospedei-me lá.
— Bem.
E subiram.
Amâncio deixou-se ficar na sala de visita; o outro correu a prevenir a mulher.
— Neném!disse ele. Sabes? hoje temos ao jantar um moço que chegou do Norte, um estudante. É preciso oferecer-lhe a casa.
Hortênsia respondeu com um gesto de má vontade.
— Não! replicou o negociante. É uma questão de gratidão!...Devo muitos obséquios à família deste rapaz! Lembras-te daquele velho, de que te falei, aquele que foi que me deu a mão lá no Norte?...Pois este é o sobrinho, é filho do Vasconcelos. Não nos ficaria bem recebê-lo assim ,sem mais nem menos!...
— Mas, Lulu, isto de meter estudantes em casa é o diabo! Dizem que é uma gente tão esbodegada!
— Ora ,coitado!ele até me parece meio tolo! Além disso, não seria o primeiro hóspede!...
— Queres agora comparar um estudante com aqueles tipos de Minas que se hospedam aqui!...
— Mas se estou dizendo que o rapaz até parece tolo...
— Manhas, homem! Todos eles parecem muito inocentes, e depois...Enfim, tu farás o que entenderes!... Só te previno de que esta gente é muito reparadeira!
— Não há de ser tanto assim!...
E Campos voltou à sala.
Amâncio soprava, estendido em uma cadeira de balanço, a abanar-se com o lenço.
— Muito calor, hein? perguntou o Campos, entrando.
— Está horroroso, disse aquele.
E resfolegou com mais força.
— Venha antes para este lado. Aqui para a sala de jantar é mais fresco. Venha! Eu vou dar-lhe um paletó de brim.
Amâncio esquivava-se, fazendo cerimônia ; mas o outro, com o segredo da hospitalidade que em geral possui o cearense, obrigou-o a entrar para um quarto e mudar de roupa.
O jantar, como sempre, correu frio e contrafeito. Amâncio não tinha apetite, porque pouco antes comera mães-bentas em um café; Campos, porém, desfazia-se e empregava todos os meios de lhe ser agradável.
— Vá, mais uma fatia de pudim, insistia ele a tentá-lo.
— Não, não é possível, respondia o hóspede, limpando sempre o rosto com o lenço.
À sobremesa falou-se no velho Vasconcelos e mais no irmão. O negociante lembrou ainda as obrigações que devia à família de Amâncio, citou pormenores de sua vida no Maranhão; elogiou muito a província; disse que havia lá mais sociabilidade que no Rio de Janeiro, e acabou brindando a memória de seu benfeitor, de seu segundo pai.
Maria Hortênsia parecia tomar parte no reconhecimento do marido e, sempre que se dirigia ao estudante, tinha nos lábios um sorriso de amabilidade.
Carlotinha não dera uma palavra durante o jantar. Comia vergada sobre o seu prato e só ergueu a cabeça na ocasião de deixar a mesa.
Amâncio, todavia, não a perdera de vista.
Às sete horas da tarde, quando se despediu, estava já combinado que no dia seguinte ele voltaria com as malas, para hospedar-se em casa do Campos.
É melhor...disse este — é muito melhor! Ali o senhor não pode estar bem ;sempre é vida de hotel! Venha para cá ;faça de conta que minha família é a sua.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.