Por José de Alencar (1878)
Do que poucos sabiam, e só alguns amigos se lembravam, era da primeira mocidade de Hermano, quando ele passava por um dos mais brilhantes cavalheiros dos salões fluminenses. Sua graça natural, o primor de suas maneiras, e as seduções do seu espírito, o distinguiam entre todos como um tipo de elegância.
Eram os arrebóis dessa esplêndida mocidade que ele ainda mostrava nos seus momentos de expansão, quando desprendia-se da constante preocupação.
Um dia, no meio de seus triunfos, quando a sua estrela mais brilhava, correu a noticia de que Hermano estava para casar-se, o que não devia surpreender em sua idade. Foi, porém, geral a admiração quando se soube que D. Julieta, a moça por quem se apaixonara a ponto de sacrificar-lhe a liberdade. não era rica nem bonita.
Ninguém esperava que ele, nas condições de pretender as filhas dos primeiros capitalistas e de escolher, entre as mais aristocráticas belezas da Corte, fizesse um casamento tão desvantajoso.
D. Julieta não freqüentava a alta sociedade; mas algumas pessoas da creme a tinham encontrado por vezes em partidas familiares; e essas compreenderam a repentina paixão que ela tinha inspirado ao noivo.
Como estátua a moça era um esboço imperfeito, ainda mesmo com as correções que aplica o molde de um traje elegante, ou a feliz disposição dos enfeites.
Imagine-se que um cinzel inspirado idealizava esse esboço e dava às linhas do perfil a harmonia que lhes negara a natureza. Tal seria, não o retrato de Julieta, mas o tipo que sua pessoa refletiria na imaginação do artista a quem servisse de modelo.
Havia em seu olhar, em sua voz, em seus movimentos, inflexões maviosas, mas de tão vivo relevo que se esculpiam como se tomassem corpo. Depois de apagar-se o gesto, sentia-se ainda a sua doce impressão no vulto a que animara.
O espírito fino, meigo e gentil de Julieta não tinha expansões brilhantes. Era modesto, e às vezes tímido. Entretanto o que ela dizia, por mais simples que fosse, trazia o calor de uma emoção íntima. Sua palavra exalava os perfumes de uma alma em flor.
Ao seu lado e conversando com ela, um homem de rigor estético poderia esquivar-se ao enlevo que infundia a suprema distinção dessa moça, e notar em suas feições e em seu talhe a ausência da beleza plástica.
Mas apartando-se dela e perdendo-a de vista, raro era o que não levava na fantasia um ideal suave e gracioso, que ofuscava a imagem das mais radiantes formosuras de salão.
O primeiro encontro de Hermano com a noiva explica bem a influência que ela devia exercer em sua vida.
Ao sair do teatro lembrou-se do convite que recebera para uma partida em casa de pessoa de sua amizade, a quem devia atenções. Dirigiu-se para lá, com a intenção apenas de fazer ato de presença.
Quando entrou no saguão, cantava uma senhora a ária da Lucia de Lammermaar. A voz, que não era extensa, comoveu-o. Parou para escutar; e viu desenhar-se em seu espírito a imagem esbelta e vaporosa da virgem que o amor enlouquecera.
Terminado o canto, subiu. Havia na sala muitas senhoras, algumas de seu conhecimento, outras que via pela primeira vez. Notou entre estas uma moça alva, de cabelos negros; era Julieta. Sem que lho dissessem, por uma rápida intuição, adivinhou que fora ela a intérprete inspirada da música de Donizetti.
Teve pois uma decepção. Ele imaginara sempre uma Lucia, loura como a filha das nevoentas montanhas da Escócia; e vinha achar a sua cópia em um tipo tão oposto.
Hermano demorou-se mais do que tencionara; ficou até o fim da partida. Por mais de uma vez aproximou-se de Julieta e conversou com ela. Quando se recolheu, cantava mentalmente o Bell'anima, que ouvira executado por Mirati; e pensava que talvez Lucia, apesar de escocesa, tivesse cabelos pretos como a Maria Stuart de Walter Scott.
Julieta era filha de um coronel reformado de nosso Exército, que servira por algum tempo em Goiás. Na sua primeira expedição para aquela província acompanhou-o a mulher apesar de estar mui próxima a dar à luz. A menina nascera em viagem.
Uma escrava que o oficial trazia, fatigada das jornadas, mal podia acudir à senhora.
Foi pois o furriel Abreu que serviu de ama-seca à menina; e tal amizade tomou-lhe que não quis mais separar-se dela. Completando o tempo de serviço obteve baixa e ficou em companhia do oficial como agregado.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.