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#Comédias#Literatura Brasileira

Quem casa, quer casa

Por Martins Pena (1845)

FABIANA – Não vai! 

EDUARDO, gritando e acompanhando com a rabeca – Vem voltar a música! 

FABIANA, empurrando-a – Vai-te com o diabo! 

EDUARDO – Vem comigo. (Vai-se com Olaia.) 

 

CENA IV 

FABIANA, só. 

 

FABIANA – Oh, é preciso tomar uma resolução... Escreva-se. (Senta-se, escreve ditando:) “Ilmo. Sr. Anselmo Gomes. Seu filho e sua filha são duas pessoas muito malcriadas. Se o senhor hoje mesmo não procura casa para que eles se mudem da minha, leva tudo a breca. Sua criada, Fabiana da Costa.” (Falando:) Quero ver o que ele responde-me a isto. (Fecha a carta e chama:) João? Também este espertalhão do sr. Anselmo, o que quis foi empurrar a filha e o filho de casa; e os mais que carreguem... Estou cansada; já não posso. Agora agüente ele. (Chamando:) João? 

PAJEM, entrando – Minha senhora... 

FABIANA – Vai levar esta carta ao sr. Anselmo. Sabes? E o pai do sr. Eduardo. 

PAJEM – Sei, minha senhora. 

FABIANA – Pois vai depressa. (Pajem vai-se.) Estou resolvida a desbaratar... 

 

CENA V 

Entra Nicolau de hábito de irmão terceiro, seguido de um homem com uma trouxa em baixo do braço. 

 

NICOLAU, para o homem – Entre, entre... (Seguindo para a porta da direita.) 

FABIANA, retendo-o – Espere, tenho que lhe falar. 

NICOLAU – Guarda isso para logo; agora tenho muita pressa. O senhor é o armador que vem vestir os nossos dois pequenos para a procissão de hoje. 

FABIANA – Isso tem tempo. 

NICOLAU – Qual tempo! Eu já volto. 

FABIANA, raivosa – Hás de ouvir-me! 

NICOLAU – O caso não vai de zangar... Ouvir-te-ei, já que gritas. Sr. Bernardo, tenha a bondade de esperar um momento. Vamos lá, o que queres? E em duas palavras, se for possível. 

FABIANA – Em duas palavras? Aí vai: já não posso aturar meu genro e minha nora! 

NICOLAU – Ora mulher, isso é cantiga velha. 

FABIANA – Cantiga velha? Pois olhe: se não procura casa para eles nestes dois dias, ponho-os pela porta fora. 

NICOLAU – Pois eu tenho lá tempo de procurar casa? 

FABIANA – Oh, também o senhor não tem tempo para coisa alguma... Todos os seus negócios vão por água abaixo. Há quinze dias perdemos uma demanda por seu desleixo; sua casa é uma casa de Orates, filhos para uma banda, mulher para outra, tudo a brigar, tudo em confusão... e tudo em um inferno! E o que faz o senhor no meio de toda essa desordem? Só cuida na carolice... 

NICOLAU – Faço muito bem, porque sirvo a Deus. 

FABIANA – Meu caro, a carolice, como tu a praticas, é um excesso de devoção, assim como a hipocrisia o é da religião. E todo o excesso é um vício... 

NICOLAU – Mulher, não blasfemes! 

FABIANA – Julgas tu que nos atos exteriores é que está a religião? E que um homem, só por andar de hábito há de ser remido de seus pecados? 

NICOLAU – Cala-te... 

FABIANA – E que Deus agradece ao homem que não cura dos 

interesses da família e da educação de seus filhos, só para andar de tocha na mão? 

NICOLAU – Nem mais uma palavra! Nem mais uma palavra! 

FABIANA – É nossa obrigação, é nosso mais sagrado dever servir a Deus e contribuirmos para a pompa de seus mistérios, mas também é nosso dever, é nossa obrigação sermos bons pais de família, bons maridos, doutrinar os filhos no verdadeiro temor de Deus... É isto que tu fazes? Que cuidado tens da paz de tua família? Nenhum. Que educação dás a teus filhos? Leva-os à procissão feito anjinhos e contentas-te com isso. Sabem eles o que é uma procissão e que papel vão representar? Vão como crianças; o que querem é o cartucho de amêndoas... 

NICOLAU – Oh, estás com o diabo na língua! Arreda! 

FABIANA – O sentimento religioso está na alma, e esse transpira nas menores ações da vida. Eu, com este meu vestido, posso ser mais religiosa do que tu com este hábito. 

NICOLAU, querendo tapar-lhe a boca – Cala-te, blasfema!... (Seguindo-a.) 

FABIANA – O hábito não faz o monge. (Fugindo dele.) Ele é, muitas vezes, capa de espertalhões que querem iludir ao público; de hipócritas que se servem da religião como de um meio; de mandriões que querem fugir a uma ocupação e de velhacos que comem das irmandades... 

NICOLAU – Cala-te, que aí vem um raio sobre nós! Ousas dizer que somos velhacos? 

FABIANA – Não falo de ti nem de todos; falo de alguns. 

NICOLAU – Não quero mais ouvir-te, não quero! Venha, senhor. (Vai-se com o homem.) 

FABIANA, seguindo-o – Agora tomei-te eu à minha conta; hás de ouvir-me até que te emendes! 

 

CENA VI 

(continua...)

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