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#Comédias#Literatura Brasileira

Verso e Reverso

Por José de Alencar (1857)

Henrique — Desembarcaste hoje mesmo?

Ernesto — Não; há oito dias.

Henrique — Como deixaste São Paulo?

Ernesto — No mesmo estado.

Henrique — É verdade; aproveito a ocasião para pedir-te um pequeno obséquio.

Ernesto — Estou às tuas ordens.

Henrique — Chegaste há pouco, e naturalmente deves ter curiosidade de ver os nossos teatros; aceita este bilhete, é do benefício de um hábil artista.

Ernesto (com ironia) — Ora, meu amigo, és tu que me fazes o obséquio:obrigadíssimo.

Henrique — Onde estás morando?

Ernesto — No Hotel de Botafogo.

Henrique — Sei; adeus. Havemos de nos ver.

Ernesto — Sim; quando quiseres.

Henrique (saindo, passa por Custódio) — Tem passado bem, Sr. Custódio?

Custódio (levanta-se) — Bem, obrigado. Que há de novo?

Henrique — Quer ficar com um bilhete do benefício de...

Custódio — Nada. Há vinte anos não freqüento os espetáculos; no meu tempo... Henrique (rindo-se) — Freqüentava o teatrinho de bonecos! (Sai) Custódio — Criançola!

CENA VII

Ernesto, Custódio

Ernesto (mostrando o cartão) — Mais uma bucha!

Custódio — Pois caiu?

Ernesto — Está me parecendo que esta gente não faz outra coisa desde o princípio até o fim do ano senão beneficiar se mutuamente; mas beneficiar-se desta maneira! Proudhomme que definiu a propriedade um roubo legitimado pela lei se viesse ao Rio de Janeiro, não podia deixar de definir o benefício um estelionato legitimado pela sociedade. A pretexto de teatro e de baile um amigo abusa da nossa confiança e nos toma cinco ou dez mil-réis contra a nossa vontade.

Custódio — Pensa muito bem! O governo é o culpado...

Ernesto — Dos benefícios?

Custódio — De tudo!

(Entram Henrique e Pereira)

CENA VIII

Os mesmos, Henrique, Pereira

Henrique — Meu amigo, desculpa; não pude deixar de voltar para ter o prazer de apresentar-te o Sr. Pereira, um dos nossos poetas mais distintos.

Pereira — É bondade de meu amigo!

Custódio (a meia voz) — Que firma!

Ernesto — Ah! O Sr. é poeta! Estimo muito conhecê-lo: tenho uma grande simpatia pelos poetas, embora na minha vida nunca conseguisse fazer um verso.

Pereira — Isto não quer dizer nada; Chateaubriand é um grande poeta e escreveu em prosa.

Henrique — Meu amigo, nós não queremos tomar-te o tempo. O Sr. Pereira vai publicar um volume de suas primeiras poesias e espera que tu, que és amante da literatura, protejas essa publicação.

Ernesto — Tu pedes, Henrique, não posso recusar.

Pereira — Submeto à consideração de V.Sa. o programa da assinatura. Um belo volume in-8o francês, de cem páginas, 5$OOO no ato da entrega. Não exijo adiantado.

Ernesto — Mas não há necessidade de demorar uma coisa que pode ficar concluída. (Tira a carteira)

Pereira — V.Sa. ordena...

Henrique — Tomas duas assinatura ou três?

Ernesto — Uma basta, Henrique; sabes que a minha fortuna não está a par do meu gosto pela literatura.

Pereira — É sempre assim; os grandes talentos são ricos de inteligência, mas pobres desse vil objeto a que se chama dinheiro. (Recebe a nota) Muito obrigado,

Sr....

Ernesto — Não tem de quê.

(Entra D. Luísa)

CENA IX

Os mesmos, D. Luísa

D. Luísa — Perdão, meus Srs.; tenham a bondade de ler este papel.

Henrique (finge não ouvir) — Até logo, Ernesto.

Pereira (a Ernesto) — Tive muito prazer em conhecer a V.Sa..

D. Luísa — Uma pobre viúva! Meu marido...

Pereira — Se puder servir-lhe para alguma coisa...

Ernesto — Igualmente!

Henrique (a Pereira) — Vamos; tenho pressa.

D. Luísa — Então, Srs! Qualquer coisa...

Pereira — Às suas ordens. (Sai)

D. Luísa — Não lê?

Henrique — Adeus, adeus. (Sai)

CENA X

Ernesto, Custódio, D. Luísa

Ernesto (a Custódio) — Que papel será esse que aquela Sra. pede com tanta instância para ler? Talvez alguma notícia importante?

Custódio (levantando-se) — Com sua licença.

D. Luísa (a Custódio, apresentando o papel) — O Sr. faz obséquio?...

Custódio (saindo) — Esqueci os óculos em casa. (Sai)


CENA XI Ernesto, D. Luísa, depois Braga

D. Luísa — V.Sa. ao menos me fará a caridade!

(continua...)

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