Por José de Alencar (1857)
PEDRO - Oh! se vem; ainda ontem; por sinal que me perguntou se já tinha entregado.
CARLOTINHA - E tu que respondeste?
PEDRO - Que nhanhã não queria receber.
CARLOTINHA - E por que não restituíste a carta?
PEDRO - Porque a carta veio com os dez mil-réis... e eu gastei o dinheiro, nhanhã.
CARLOTINHA - Ah! Pedro, sabes em que te meteste?
PEDRO - Mas que tem que nhanhã receba! É um moço mesmo na ordem!
CARLOTINHA - Não!... não devo! (Chega-se á estante e escolhe um livro.)
PEDRO - Nhanhá não há de ser freira!... (Mete a carta no bolso sem que ela o perceba.) Entregue está ela!
CARLOTINHA - Que dizes?
PEDRO - Nada, nhanhã! Que V.Mce. é uma moça muito bonita e Pedro um moleque muito sabido!
CARLOTINHA - É melhor que arrumes o quarto de teu senhor, vadio! (CARLOTINHA senta-se e
lê.)
PEDRO - Isto é um instante! Mas nhanhã precisa casar! Com um moço rico como Sr. Alfredo, que ponha nhanhã mesmo no tom, fazendo figuração. Nhanhã há de ter uma casa grande, grande, com jardim na frente, moleque de gesso no telhado; quatro carros na cocheira; duas parelhas, e Pedro cocheiro de nhanhã.
CARLOTINHA - Mas tu não és meu, és de mano Eduardo.
PEDRO - Não faz mal; nhanhã fica rica, compra Pedro; manda fazer para ele sobrecasaca preta à inglesa: bota de canhão até aqui (marca o joelho); chapéu de castor; tope de sinhá, tope azul no ombro. E Pedro só, trás, zaz, zaz! E moleque da rua dizendo "Eh! cocheiro de sinhá D.
Carlotinha!"
CARLOTINHA - Cuida no que tens que fazer, Pedro. Teu senhor não tarda.
PEDRO - É já; não custa! Meio-dia, nhanhã vai passear na Rua do Ouvidor, no braço do marido. Chapeuzinho aqui na nuca, peitinho estufado, tundá arrastando só! Assim, moça bonita! Quebrando debaixo da seda, e a saia fazendo xô, xô, xô! Moço, rapaz deputado, tudo na casa do Desmarais de luneta no olho: "Oh! Que paixão!..." O outro já: "V.Ex.a passa bem?" E aquele homem que escreve no jornal tomando nota para meter nhanhã no folhetim.
CARLOTINHA - Oh! meu Deus! Que moleque falador! Não te calarás? (Lê.)
PEDRO - Quando é de tarde, carro na porta; parelha de cavalos brancos, fogosos; Pedro na boléia, direitinho, chapéu de lado, só tenteando as rédeas. Nhanhã entra; vestido toma o carro todo, corpinho reclinado embalançando: "Botafogo!" Pedro puxou as rédeas; chicote estalou; tá, tá, tá; cavalo, toc, toc, toc; carro trrr!... Gente toda na janela perguntando: "Quem é? Quem é?" "D. Carlotinha..." Bonito carro! Cocheiro bom!... E Pedro só deitando poeira nos olhos de boleeiro de aluguel.
CARLÔTINHA - Ora, mano não vem! Disse que voltava já!
PEDRO - De noite, baile de estrondo, como baile do Sr. Barão de Meriti; linha de carro na porta, até no fim da rua, e torce na outra; ministro, deputado, senador, homem do paço, só de farda bordada, com pão-de-rala no peito. Moça como formiga! Mas nhanhã pisa tudo; brilhante reluzindo na testa como faísca, leque abanando, vestido cheio de renda. Tudo caído só, com o olho de jacaré assim. E nhanhã sem fazer caso.
CARLOTINHA (rindo) - Onde é que tu aprendeste todas essas histórias, moleque? Estás adiantado!
PEDRO - Pedro sabe tudo!... Daí a pouco, música vom, vom, vom, tra-ra-lá, tra-ra-lá-ta; vem ministro, toma nhanhã para dançar contradança; e nhanhã só requebrando o corpo! (Arremeda a contradança.)
CARLOTINHA - Ora, senhor! Já se viu que capetinha!
CENA VII
Os mesmos, JORGE
JORGE - Mana Carlotinha, Henriqueta está lhe chamando para dizer-lhe adeus.
PEDRO - Sinhá Henriqueta está ai?
CARLOTINHA - Ela já vai?
JORGE - Já está deitando o chapéu.
CARLOTINHA - É tão cedo ainda!
PEDRO - Duas horas já deu há muito tempo em S. Francisco de Paula.
CARLOTINHA (à janela) - Mano não voltará para jantar?...
PEDRO - Não tarda aí, nhanhã!
JORGE (na mesa) - Olha! que pintura bonita, Pedro!
PEDRO - Comece, comece a remexer! Depois fica todo derretido. Foi moleque!...
CARLOTINHA - Quando Eduardo voltar, vai me chamar, ouviste, Pedro?... Jorge, venha!
JORGE - Já vou, Carlotinha!
CARLOTINHA - Não toque nos papéis de Eduardo; ele não gosta.
CENA VIII
PEDRO, JORGE
PEDRO (querendo tomar o livro) - Ande, ande, nhonhô; vá lá para dentro! Deixe o livro.
JORGE - Se tu és capaz, vem tomar!
PEDRO - Ora! É só querer!
JORGE - Pois eu to mostrei!
PEDRO - Está arrumado! Pedro, moleque capoeira, mesmo da malta, conta lá com menino de colégio! Caia! É só neste jeito; pé no queixo, testa na barriga.
JORGE - Espera; vou dizer a mamãe que tu estás te engraçando comigo!
(continua...)
ALENCAR, José de. O demônio familiar. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7547 . Acesso em: 26 jan. 2026.