Por Camilo Castelo Branco (1882)
Estas informações e o aspecto lhano, harmónico do padre, animaram-me a dizerlhe que solicitara o seu conhecimento para lhe pedir alguns esclarecimentos a respeito de uma carta encontrada num livro que pertencera ao seu condiscípulo José Dias de Vilalva. – Recorda-se? – perguntei.
– Se me recordo do meu pobre José Dias! Pois não recordo? Parece-me que ainda sinto neste braço o peso enorme da sua face moda, e já lá vão trinta e cinco anos. É preciso ter na alma dolorosas reminiscências para se recordar um amigo morto há tantíssimo tempo, não lhe parece? Como sabe você que existiu esse obscuro filho de um lavrador?
Mostrei-lhe a carta. O padre olhou para a assinatura, gesticulou afirmativamente, e, após uma breve pausa de recolhimento com as suas recordações, disse:
– Fui eu que pus esta carta entre as páginas de um livro do Dias. O meu pobre condiscípulo, quando este papel lhe foi mandado à cama, já não o podia ler. Tinha caído no torpor, na indiferença que, a meu ver, é a compaixão da Providência pelos que morrem amando e não querendo morrer. Já não via a vida nem a morte. Li esta carta; e, como ele nada me perguntou, eu nada lhe disse... Agora me recordo perfeitamente. Era um comento de Horácio que eu lia nos seus intervalos de modorra, a fim de dar ao meu ânimo uma folga que me fortalecesse para resistir ao golpe final. Já sei pois o que você deseja. Quer saber se esta Marta está no caso de merecer a consagração romântica que Bernardim de Saint-Pierre usurpou às dores verdadeiras, para coroar de uma eterna auréola a sua fantástica Virgínia.
– Não vou tão longe – respondi com a modéstia genial dos escritores que imortalizam. – A brasileira de Prazins não pode contar com o seu imortalizador em mim, nem me parece bastante fecundo o assunto. Sei que temos um namoro de uma menina com um estudante, o estudante morre e a menina casa com um sujeito que tem quinze quintas. Se não há mais do que isto...
O cura interrompeu:
– Vejo que sabe quem é Marta; mas não a conhece bem. Virgínia e Francesca e Julieta não são mais dignas de piedade nem de romance. Parece-me que o amor que enlouquece e permite que se abram intercadências de luz no espírito para que a saudade rebrilhe na escuridão da demência é incomparavelmente mais funesto que o amor fulminante, O que é vulgar é morrer logo ou esquecer quinze dias depois. Quando eu tinha uma irmã que lia novelas, à custa de lhas ouvir analisar com um entusiasmo digno de melhor emprego, achei-me envolvido na literatura de Sue, de Soulié e de Balzac, a ponto de fazer presente do meu santo Afonso Maria de Ligório e da minha Teologia moral de Pizelli a um padre bom e atinado que me profetizou que minha irmã havia de morrer doida, a cismar nas patacoadas das novelas. Ela não morreu doida; mas pensava em romancear a história de Marta, porque dizia ela que, tendo lido trezentos volumes de novelas, não encontrara caso imitante. – E, dando-me o bilhete de Marta: – Este quarto de papel é o exórdio de uma agonia original.
*
Como a exposição do reitor saiu muito enfeitada de jóias sentimentais – detestável espécie arqueológica que ninguém tolera – farei quanto em mim couber por. uma a uma, ir montando e refugando as flores de modo que as cenas dramáticas se exponham áridas, bravias como serro de montanha por onde lavrou incêndio, sem deixar bonina, sequer folhinha de giesta em que a aurora imperle uma lágrima. A Aurora a chorar! de que tempo isto é! Como a gente, sem querer, mostra numa ideia a sua certidão de idade e uma relíquia testemunhal da idade de pedra! Oh! os bigodes tingem-se; mas as frases – madeixas do espírito – são refractárias ao rejuvenescimento dos vernizes.
I
Marta era filha de um lavrador mediano que tinha em Pernambuco um irmão rico de quem dizia o diabo. Chamava-lhe ladrão porque, no espaço de vinte anos, lhe mandara três moedas, com os seguintes encargos: à mãe 6$000 réis fortes, às almas do Purgatório, de Negrelos, 3$000 réis também fortes, que lhos prometera quando embarcou, e o resto para ele –
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.