Por Machado de Assis (1864)
Uma mentira desta natureza e neste sentido, mesmo que se conheça, é ouvida com agrado. A humanidade é feita deste modo. Dispensa a verdade, uma vez que lhe preguem uma mentira lisonjeira.
Em honra de Maria Luísa, devo dizer que ela aceitou as palavras de Eduardo como se foram textos evangélicos.
Eduardo, tendo feito passar a invenção da moléstia, indagou da saúde e do bem estar das duas senhoras. A conversa demorou-se meia hora sobre assuntos indiferentes ao nosso. Finalmente, como viessem chamar a mãe de Maria Luísa, esta pôde ficar uns quinze minutos a sós com Eduardo.
Houve um instante de silêncio. Da parte de Maria Luisa, era natural enleio. Da parte de Eduardo, não era natural, mas era enleio; provinha da paixão que ele acreditava em si. A bela viúva rompeu o silêncio.
— Sabe que lamentei a sua falta?
— Chorou?
— Não acredita, mas chorei.
— Devo crer tamanha felicidade?
— Por que não?
— Não posso. Quando me lembro, em meus sonhos de ambição, que a Providência podia dar-me a mais invejável das felicidades, ocorre-me sempre que era preciso merecê-la; e eu não mereço, desta a que aludo, nem a décima parte.
Trocou-se entre ambos um olhar. Maria Luísa levantou-se. Eduardo seguiu-a com os olhos. Ela foi a uma jarra e tirou duas pequenas rosas brancas.
Quer uma? perguntou a Eduardo, encaminhando-se para ele.
Eduardo estendeu a mão para aceitar a flor. Tocaram-se os dedos, e nesse contacto Maria Luísa estremeceu. Eduardo segurou a mão da viúva e levou-a à boca. Maria Luísa, abandonando a mão a Eduardo, inclinou a cabeça e deixou-se possuir da felicidade que aquele beijo, dado tão ardentemente, lhe fazia entrar no coração.
Depois, passado o primeiro enlevo, a viúva retirou a mão, foi para o piano, e começou a cantar com mais viva expressão a ária da Favorita.
Eduardo levantou-se e foi encostar-se ao piano.
Tinham ambos os olhos confundidos, e nesse enlevo cantou Maria Luísa e Eduardo ouviu.
Às últimas notas, entrou na sala a dona da casa.
— É uma singular predileção a tua por esta ária, minha filha.
— É realmente deliciosa, disse Eduardo.
— De poucas coisas gosto tanto como disto, acrescentou Maria Luísa. Eduardo, depois de algumas palavras mais, declarou que ia sair.
— É verdade, tenho uma visita para fazer.
— Não janta conosco?
— Desculpe, não posso.
— Ao menos, virá tomar chá, não?
— Venho.
— Com certeza?
— Com certeza.
— Olhe, não falte, acrescentou a velha, olhando com certa inteligência para a filha.
— Não falto.
Eduardo apertou a mão à velha e a Maria Luísa. Esta tinha os olhos rasos de lágrimas de felicidade, de saudade, de amor, de tudo. Eduardo olhou para ela a última vez e disse, procurando a expressão mais terna de sua voz:
— Até logo!
— Até logo! respondeu a moça.
Eduardo saiu.
Maria Luísa foi à janela vê-lo ainda. Depois, voltando para dentro, deitou-se aos braços de sua mãe.
— Amas, não, minha filha?
— Oh! muito! muito!
— Pois eu creio que ele também te ama. Juro-te que hão de ser felizes. Ele é só. Tu podias ter obstáculo em mim, mas eu só desejo a tua felicidade.
IV
Deixando a casa de Maria Luísa, Eduardo tomou um tílburi e mandou tocar para a ponte das barcas de S. Domingos. Dentro de dez minutos estava lá.
Apeou, pagou o tílburi e entrou na estação. Ali esperou a primeira barca que devia partir e que era a das duas e meia horas. Entre os passageiros que esperavam houve um que mereceu desde logo a atenção e os cumprimentos de Eduardo.
Era um homem de quarenta e cinco anos, baixo, meio gordo, fisionomia insinuante, destas que, mesmo sérias, trazem impresso inconstante sorriso.
Eduardo dirigiu-se para ele e cumprimentou-o afetuosamente, dizendo:
— O sr. Almeida dá-me um grande prazer. Não contava desde já o prazer de
cumprimentá-lo.
— Por quê? perguntou o indivíduo, dando a Eduardo lugar ao pé de si.
— Porque só daqui a três quartos de hora contava estar em sua casa.
— Ah! tanto melhor! tanto melhor!
— Toda a família está boa?
— Tudo vai indo, obrigado. Há quantos dias não vai lá?
— Creio que há dois.
— Ainda ontem Sara falou em seu nome. Ontem não, creio que foi hoje de manhã.
— Deveras? perguntou Eduardo sem dissimular a alegria que lhe dava esta notícia. Neste momento, chegava a barca, os dois tomaram passagem, daí a três quartos de hora estavam à porta da chácara de Almeida.
Sara, a filha deste, o objeto do segundo amor de Eduardo, veio recebê-los à porta. Mais atrás vieram o filho e o irmão de Almeida. Eduardo foi recebido por todos com verdadeiro regozijo.
Em duas palavras apresento a família de Almeida ao leitor.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Questão de vaidade. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, 1864.