Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

A Descoberta da Índia

Por Coelho Neto (1898)

Outra dizia, com os braços em volta do pescoço do homem — que elle não veria, ao tornar, o campo como deixava porque não só de soes e de chuva carece a arvore senão tambem que d'ella cuidem abacellando-a com terra virgem ou ablaquecendo-a para que as suas raizes ganhem força á luz e ao ar, tratando-lhe o tronco e os ramos. Os trigos dourados ficariam em palha resequida, murchariam as vinhas sumarentas, as abelhas emigrariam não mel e os cortiços, calados e seccos, viriam abaixo e os ventos os levariam como levam as folhas murchas. Ella! pobre d'ella! sosinha e fraca e tendo um lume a guardar e um berço a embalar como havia de sair, com ferros, á campina e á encosta ? Deus a guardasse com vida e não faria pequena caridade.

Outra, chorosa e presaga, lembrava noites de luar e cantos de rouxinóes, juras feitas tremulamente entre roseiraes, á luz fraca das estrellas, emquanto as moças da herdade debulhavam e bailavam com descantes e musicas de doçainas.

Creanças, vendo as mães em pranto, agarravam-se-lhes ás saias chorando, não porque comprehendessem a razão d'aquella angustia, tão só por verem lagrimas e o anciar dos collos opprimidos. E, por entre as gentes lastimosas, iam e vinham lentos vendedores, uns que offereciam fructos em gigos de vime, outros que mostravam bufarinhas ou apregoavam reliquias "de muita virtude para os que se iam lançar a mercê do oceano".

O sol subia e já os pannos das naus trapeavam annunciando um bafejo da aragem e, constantemente, n'um desfilar sem pausa, vinha chegando povo e detinha-se maravilhado contemplando os garbosos navios que, ao roxo cair da tarde, andariam longe, afastados da terra, fechados e apparelhados para as surprezas do escarcéo e dos euros.

N'aquelle borborinho desusado ninguem dava por um grande velho que jazia, quieto e mudo, sobre uma pedra com o cajado entre os joelhos e um cão morrinhento aos pés. Os cabellos, alvos como o linho novo, desciamlhe até os hombros acurvados, a barba farta e branca enchia-lhe o peito largo, os olhos, que as palpebras abafavam, sumiam; já se lhe não distinguia a feição ancestral do rosto entre as rugas que lh'o sulcavam e tremulo, n'aquelle frio de velhice, o ancião fallava, não para que ouvissem o que dizia porque fallava para as suas recordações amarissimas.

"Que vades bem! Que vades bem! Outras frotas maiores tem o mar engolfado e mais numeroso exercito tem o infiel batido. Que vades bem ! Quem vos manda e a ambição, quem vos leva é a cubiça, essa mesma harpia que fez com que d'aqui se

fosse, arrastada pelo voluntarioso principe, a flôr da Patria fenecer nos areaes africanos. Que vos não castigue Deus com espectaculo sinistro como o que meus olhos tiveram n'essa terra abafada de mourisma. Por mais que possais ver nunca vereis horror como o dos dias tormentosos da catastrophe, nunca vereis Tanger com os seus eirados e os seus muros brancos, que eram como grandes ossadas seccando ao sol, e com a sua gente barbara fervilhando nas ruas immundas e tomadas de cães. Nunca tereis os olhos tão horrorisados como tiveram os que, sem bandeira e sem armas, por esmola houveram a vida apenas, e foi muito ! deixando em terra barbara, como penhor, o infante santo que, posto sobre uma azemola, com um canna nas mãos puras, apupado, apedrejado, cuspido pelo mouro lá seguio a caminho de Fez onde andou, de soffrimento em soffrimento, rolando pela immundicie, até que o acabaram expondo-o irrisoriamente nas ameias da cidade nú, pendurado pelos pés, ao sol e aos corvos.

Que vades bem e que vos não seja infausta a expedição. Já me não é dado contar com o tempo para que diga que vos esperarei até que a anciedade seja tanta que a minha esperança se torne em desalento e eu volte para o céu os olhos tirando-os dos horizontes. Que vades bem! Se algum de vós houvesse andado em Tanger não haveria tanto prazer n'essa sortida mas, do que houve, apenas conheceis o que dizem que é bem pouco á vista do que foi; ereis todos bem meninos quando esse lucto envolveu o reino que se lavou em lagrimas. Que vades bem! A vossa cubiça é o piloto, nem outra bússola vos leva senão a sede de ouro. Ides para a conquista como nós outros fomos, Como se nos não bastasse a terra que temos onde ha tanta charneca e abrutella ahi vão gananciosamente as naus de conquista á busca de mais terreno e do ouro que faz maior a miseria. Que vades bem! Se o estomago tem o necessario para que haveis de querer empanturral-o ? contentai-vos com o que vos basta que o querer mais é de ambiciosos. Que vades bem ! Que vades bem ! »

Uma mulher que passava atirou-lhe uma brôa de milho e o velho, roendo-a, e dando um pedaço ao cão, deixou-se ficar em silencio dizendo apenas, de quando em quando, com um aceno de cabeça, como um propheta que augurasse: «Que vades bem! Que vades bem! »

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior12345...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →