Por Aluísio Azevedo (1884)
Não sei se lhe agradeça o seu procedimento com a minha carta ou se lho censure; o que afianço é que ele me surpreendeu deveras e, se não me magoou, também não me produziu grandes impressões de gosto.
Esperava que V.Sª., atendendo ao meu justo pedido, se limitasse a extrair, de tudo que lhe enviei, uma pequena notícia e, quando vi a minha carta publicada na sua íntegra e, quando tive ocasião de ver a sensação que ela produziu sobre o público desta Capital, confesso-lhe, Sr. Redator, tive sérios receios de haver cometido uma leviandade.
Porque, cumpre declarar, eu não tenho o hábito de me articular diretamente com as massas populares, e sempre que me vejo alvo de atenções gerais, apodera-se de mim um tal constrangimento e uma tal ansiedade, que chego a ficar doente.
Entretanto, V.Sª. teve a prudência de ocultar o meu nome e o de outras pessoas que citei, e isso já é para mim não pequena animação.
Nem sei qual seria a minha conduta, se V.Sª. não tomasse tão delicada resolução. E, já que as coisas seguiram esse caminho, estou disposto a não retroceder, e declarar pra frente tudo que me constar a respeito do assunto.
Como lhe disse na minha primeira correspondência, apenas o que me ficou da investigação da hospedaria foi um cartão de visita onde se lia o nome de Castro Matta.
Pois bem, Sr. Redator, armado desse documento, saí a tomar informações no quarteirão inteiro e vim a saber por um homem do ganho que este próprio levara para a ponte das Barcas Ferry um baú de folha com as iniciais J. A. C. M.
Peço-lhe informações sobre o dono ou dona dessa bagagem, e ele me respondeu que a pessoa que lha entregara era um homem alto, magro, de cabelos pretos e barba à inglesa, vestido com certa elegância, de polainas e chapéu alto, mas que não podia afiançar se ele era ou não o verdadeiro dono da bagagem ou simplesmente um encarregado dela, visto que o sujeito, a cada passo que dava, dizia com um gesto de impaciência. – “Que maçada! Que maçada!”
E o carregador declarou mais que, indo a tomar uma caixa de chapéu de senhora que o
sujeito tinha sobre a mala, ele a defendeu com certo interesse e disse que não se incomodasse com a caixa, que ele mesmo a levaria e que, ao metê-la debaixo do braço, acrescentara:
- Não! desta não me separo por coisa alguma!
- E ele não te disse como se chamava? - perguntei ao homem do ganho.
- Saiba vossemecê que não senhor; mas quando cheguei à estação, encontrei-o de braço com uma senhora, que lhe dava o tratamento de “Seu Joãozinho”. Estas duas palavras fizeram-me pulsar o coração com maior força.
- E essa senhora, que estava com ele — interroguei de novo -, essa senhora que espécie de gente mostrava ser? Qual era o seu tipo? Era baixa, gorda, ou magra e alta?
- Nem muito baixa, nem muito gorda. assim pelo feitio daquela madama que ali vem.
E o ganhador apontou com o seu velho chapéu de lebre para uma Francesa que se encaminhava para o nosso lado e que era justamente da estatura de minha mulher.
- E era morena? - perguntei em crescente sobressalto.
- Nem por isso; mas era... era moreninha e com umas faces rosadas que faziam gosto. Lembra-me ainda que, numa ocasião em que o sujeito lhe disse alguma coisa ao ouvido, ela soltou uma risada muito gostosa e eu vi então uns dentes mais alvos que esse peito de sua camisa.
Corri instintivamente os olhos pela minha camisa e lembrei-me da brancura sedutora dos dentes de minha mulher.
- E como estava vestida? — inquiritei de novo.
- Homem! Disso não me lembro!...
- Diabo! — praguejei.
- Ah! agora me recordo! Estava toda de preto e tinha um chapéu de palha escura que lhe escondia os olhos.
- Os olhos? E de que cor eram eles?
- Não lhe posso dizer, patrão, porque o chapéu não deixava...
- “É a mesma, não tem que ver!” - pensei, lembrando-me de um chapéu que dois meses antes eu havia comprado para minha mulher na Notre Dame.
E, metendo uma nota de dez tostões na mão do homem, acrescentei. - Ora diga-me cá! não reparou se a sujeita tinha algum sestro?
- Sestro?
- Sim! Pergunto se ela não tinha o costume de fazer alguma coisa particular com as feições ou com alguma parte do corpo.
- Parte do corpo?
- Quer dizer, se ela não tinha algum cacoete.
- Que diabo vem a ser isso?
- Mau! Agora é você que me interroga! Pergunto-lhe, homem de Deus, se a sujeita não piscava com os olhos, não mexia com a boca ou não sacudia os ombros.
- Mexia, patrão, sacudia e piscava.
- Tudo a um tempo?!
- A um tempo, como?
- Bem, já vejo que não arranjamos mais nada. Adeus, obrigado.
- Ah! É verdade — disse o homem, voltando a ter comigo —, ela, patrão, todas as vezes que falava, lambia os cantos da boca...
- Lambia os cantos da boca?! Ah!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Mattos, Malta ou Matta? Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1725 . Acesso em: 15 mar. 2026.