Por Aluísio Azevedo (1882)
E sem consciência do lugar em que estava, percorria demoradamente a vista pelas velhas tapeçarias suspensas da parede, pelos vários quadros, simetricamente dispostos nos intervalos das portas, e pelos móveis luxuosos, guarnecidos de metal amarelo, que pousavam elegantemente sobre a felpa macia do tapete, cintilando à luz aristocrática das velas. Seus olhos sindicavam de tudo aquilo com a insistência dos do juiz que interroga as testemunhas de um crime, mas nada correspondia ao inquérito, à exceção de um velho relógio de bronze, que, de um dos ângulos do aposento, lhe apontava as horas com o dedo de ouro e lhe dizia os segundos no seu coaxar monótono.
— O quê?! dez horas?! perguntou-lhe Gregório, impaciente por alguma explicação.
O relógio não respondeu, mas continuou a apontar para o X.
— Dez horas! exclamou o rapaz, levantando-se de um pulo. Só então lhe passara pelo espírito a idéia lúcida do seu malogrado casamento.
E todas as outras idéias, aproveitando a brecha que deixara a primeira, lhe invadiram turbulentamente o cérebro, como se até aí estivessem só à espera de que lhes abrissem a porta.
Perturbou-se a princípio, mas tratou logo de reconstruir pacientemente tudo o que fizera nesse dia. Dividiu as horas e deu a cada uma a sua aplicação justa; determinou o tempo gasto com o padre, com o cabeleireiro e com as pessoas em companhia de quem esteve; chegou a lembrar-se do assunto de suas conversas, o que dissera a tal e tal amigo, e recordou-se expressivamente da impressão que lhe assaltava de vez em quando o espírito, sempre que se imaginava no momento feliz de apoderar-se da noiva.
Esta idéia trouxe-lhe o mal-estar que nos causa a não realização de um projeto por muito tempo afagado. E Gregório, como se duvidasse ainda dos seus próprios raciocínios, procurou fixar bem nas horas que precederam de perto o momento em que lhe escapou a razão.
Às três e meia entrara na casa em que morava nas Laranjeiras, a gritar para o Jacó, seu criado, que lhe desse imediatamente o fato da casaca e lhe aprontasse um banho morno. Às quatro e meia, no ocasião de sair para ir buscar a noiva, Gregório lembrava-se perfeitamente de que um homem, de modos graves e distintos, se lhe apresentara em casa, pretextando interessar-se muito pelo futuro de Clorinda, falando sobre mil coisas concernentes ao casamento, entre muitos protestos de simpatia e de respeito. Esse homem depois insistiu com Gregório que aceitasse um lugar na sua carruagem e despediu a que já estava à porta. Gregório consentiu e tomou lugar ao lado dele. Recordava-se ainda de que, preocupado com a idéia do seu casamento, não atentara para a direção tomada pelo carro e que, em certa altura, na ocasião de abaixar-se para apanhar o claque que lhe caíra das mãos, o homem misterioso lhe passara rapidamente um lenço úmido no rosto, e Gregório perdera os sentidos.
Só até aí chegavam as suas reminiscências. Havia por conseguinte em tudo aquilo um plano premeditado e posto em prática, do qual era ele a vítima, covardemente iludida e ludibriada. E Gregório por um impulso do orgulho, sentiu um estremecimento de cólera.
Estava neste ponto, quando se abriu a porta do quarto, deixando passar um dos lacaios que vimos às ordens do conde.
V.Exa. ordena alguma coisa? perguntou o fâmulo, curvando-se humildemente.
— Ordeno que me expliques o que faço aqui e onde estou!
— Infelizmente não posso...
— Nesse caso abre as portas, e eu irei procurar quem me responda.
— Infelizmente, também não posso franquear-lhe a saída...
— Visto isso estou preso?!...
— Não sei, não senhor.
— Então que diabo sabes tu?!
— Sei que estou aqui para servir a V. Exa.
— Obrigado pela solicitude, mas confesso que preferia, antes de mais nada, uma explicação do que quer dizer tudo isto.
E, depois de dirigir inutilmente mais algumas perguntas ao criado, declaroulhe que podia retirar-se quando quisesse. E o pobre rapaz tomou a resolução de deixar que as coisas corressem por si.
— Eu não terei certamente de ficar aqui o resto de minha vida, considerava ele; por conseguinte, o melhor é aguardarmos tranqüilamente os acontecimentos.
O pior era a dúvida em que estava a respeito de Clorinda. Ter-lhe-ia também sucedido alguma coisa, ou, se nada sucedera, que não pensaria ela daquela estranha ausência de seu noivo?... E os amigos, e os padrinhos do casamento, e os convidados?!...
— Ora, que papel ridículo me obrigam a fazer! dizia ele, gesticulando sozinho; mas foi a pouco e pouco se habituando à sua estranha situação e, nestas circunstâncias, vestiu-se, calçou-se, acendeu um charuto, foi a uma biblioteca que havia no quarto, tirou um volume de versos e pôs-se a ler, disposto a esperar pelo que desse e viesse.
Reparou então que estava caindo de fraqueza e lembrou-se de que os sobressaltos do casamento não lhe permitiram jantar. Correu à campainha elétrica e tocou.
Apareceu logo o mesmo criado de há pouco.
— Dá-me o que cear, disse-lhe Gregório e acrescentou consigo: Ao menos ficarei entretido enquanto estiver comendo.
O criado voltou com uma ceia, caprichosamente preparada, e perguntou que vinho usava Gregório.
— Deixo isso à tua vontade. Traze o que entenderes.
Terminada a refeição, apareceu de novo o criado, perguntando, em nome do Sr. conde, se Gregório podia recebê-lo naquela ocasião.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.