Por Aluísio Azevedo (1884)
Nas soirées fazia impressão vê-la assentada horas esquecidas a um canto da sala; mito direita no seu espartilho, o corpo teso, os longos e vagarosos braços cruzados sobre o ventre, os ombros empinados e contraídos, como por uma sensação de medo, trazia sempre o cabelo com singeleza; quando não era solto, apenas enrodilhado na nuca, acentuando o desenho puro de sua cabecinha e deixando lobrigar parte do pescoço, que já então principiava a ser belo na sua cor de camélia fanada.
Perdera o pai por essa idade, e sua mãe D. Clementina de Araújo, uma senhora magra e comida de desgosto, impacientava-se silenciosamente por ver casada "aquela filha que Deus lhe dera".
Era essa toda a sua preocupação e também toda a sua esperança: — "Só um bom casamento as salvaria da triste situação em que se achavam".
O chefe da casa — o defunto conselheiro — não fora homem previdente, e gastara-se quase todo em procurar luzir; os bens, que sobejaram da política, caíram na voragem do jogo e das confeitarias. Ainda assim, durante a vida, nunca lhe perceberam sombra de dificuldades, nem houve jamais quem melhor soubesse guardar as conveniências de sua posição social. Os chás do defunto conselheiro eram deliciosos.
Quando uma apoplexia veio chamá-lo para a cova, os amigos tiveram que se cotizar para o fim de lhe pagarem as dívidas, a viúva teve que trabalhar para manter decentemente a filha — essa pobre filha, que da existência apenas conhecia alguns noturnos ao piano e alguns romances traduzidos do francês; essa filha, que crescera à luz do gás, dançando desde os quatro anos, e arruinando o estômago com os mesmos doces que arruinaram a fortuna do pai.
Trabalhar! Trabalhar seria o menos; esconder a precisão do trabalho é que era mais difícil! Felizmente, o prédio em que moravam pertencia à órfã, e o imperador, que fora amigo do defunto — amigo e compadre — havia de ajudá-la.
Assim foi: Sua Majestade não negou o seu augusto auxílio à comadre, e esta, por sua vez, tratou de alugar q prédio e refugiar-se com a filha em uma casa mais em conta.
— Não seria, porém, metidas entre quatro paredes, que a menina arranjaria um bom casamento! — Era preciso aparecer! — Mas os bailes, os teatros, os passeios, custavam tanto! — As modistas e os armarinhos "pediam os olhos da cara por qualquer trapo mais no tom!"
Todavia, não desertaram da boa sociedade.
Mas quanto sacrifício! Quanta luta! Quanto heroísmo ignorado! Que de lágrimas não havia escondidas naqueles vestidos enfeitados pela quarta vez! Quanta amargura naqueles penteados, naquelas capas, naqueles chapéus! Quanto sofrimento, quanta resignação naqueles leques, naqueles sapatinhos e naqueles sorrisos de amabilidade?
Às vezes, tinham ambas que passar pior de boca, para não faltarem ao baile do Sr. Conde de tal ou à soirée do Sr. Barão de tal e tal. Uma verdadeira campanha, um verdadeiro martírio, principalmente para a rapariga, que, em constante revolta com a realidade, estava sempre a sonhar coisas extraordinárias e regalias de alto preço.
A longa peregrinação pelas salas e pelas ruas dera-lhes um grande tato, uma grande experiência. Conheciam a gente à primeira vista. Mãe e filha entravam já familiarmente pelas almas dos indivíduos e iam devassando o que lá estava por dentro, como se bisbilhotassem uma gaveta franqueada.
Para a velha, então, não havia coração, por mais fechado, que se não traísse. Embalde procuravam outros, em idênticas circunstâncias, dissimular a falta de certos recursos; embalde se endomingavam caixeiros pobres, literatos necessitados, doutores sem meios de vida, procurando iludir, aparentar grandezas: — era bastante que D. Clementina corresse por qualquer deles uma olhadela de alto a baixo, para ficar sabendo quanto o sujeito pesava ao certo — quanto ganhava, quanto possuía, que lugar, enfim, devia ocupar na bitola de sua consideração.
Porque, é preciso notar, a viúva do conselheiro tinha já uma bitola para aferir os pretendentes da filha. Essa bitola marcava desde o marido "ótimo" até ao marido "péssimo". Quando a velha se referia a algum deles dizia secamente "regular" ou "bom", "sofrível para bom", etc. E essas simples palavras, ditas à socapa, determinavam as maneiras que Filomena devia usar para com o tal sujeito, se este se apresentasse.
O fato é que muita gente a cortejava. D. Clementina de vez em quando abria a casa aos seus amigos.
Que talento desenvolvido nesses modestos chás de família! Nada deixava perceber o mecanismo posto em ação para que não viesse a faltar coisa alguma no melhor da festa. Havia sempre piano, canto, recitativos, e às vezes dança, muita dança.
Mas tudo isso era por conta, peso e medida. Não se gastava um fósforo que não estivesse inventariado. Acabada a festa, procedia-se a um balanço minucioso; guardava-se com todo o cuidado o que pudesse servir para outra vez, e, antes de se deitarem, as duas senhoras arrumavam tudo, escovavam as roupas, acondicionavam as botinas, os leques e as jóias falsas.
Filomena lançava-se depois aos travesseiros, devorada por um estranho desgosto da vida, por uma vaga necessidade de horizontes largos, um desejar pungente de coisas imprevistas e grandes, uma sede indefinida de empresas arriscadas e situações transcendentes, que sua louca imaginação mal podia delinear.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.