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#Romances#Literatura Brasileira

Casa de Pensão

Por Aluísio Azevedo (1884)

— Ora! Disse consigo a rapariga. — Isto até nem sei que me parece! Ou bem que somos, ou bem que não somos!...Se Janjão queria alguma coisa de mim, era falar com franqueza e deixar-se de recadinhos por detrás da cortina!

E Amélia, quanto mais refletia no caso, tanto mais se revoltava contra a reserva do irmão:

— Ele já a devia conhecer melhor! Pelo menos já devia saber que aquela que ali estava era incapaz de cair em qualquer asneira; aquela não “dava ponto sem nó ”Outra que fosse, quanto mais — ela, que conhecia os homens, como quem conhece a palma das próprias mãos! — Ela, que viu de perto, com os seus olhos de virgem, toda a sorte de tipos! — ela, que lhes conhecia as manhas, que sabia das lábias empregadas pelos velhacos para obter o que desejavam e o modo pelo qual ser portam depois de servidos! Ela! tinha graça!

— Ela, que até ali dera as melhores provas de sagacidade e de esperteza; já “convencendo” tal freguês remisso que não queria pagar, nem a mão de Deus Padre, o aluguel do quarto pelo preço cobrado; já respondendo a tal credor, que, em tal época, veio receber tal conta; já sofismando tal compromisso; já resolvendo tal aperto, uma vez em que nem a própria Mme. Brizard sabia que fazer! E ainda a suporiam criança?...ainda teriam medo de qualquer asneira sua parte?...Pois então que se lembrassem da questão do Pereirinha!

O Pereirinha foi um dos primeiros hóspedes do Coqueiro. Rapaz bonito, perfumado, muito prosa. Amélia representava para ele a mesma inocência em pessoa, só lhe falava de olhos baixos, voz sumida, o ar todo candura e vexame. Pereirinha jurava-lhe uma paixão sem bordas, fazia-lhe versos, tocava-lhe nos pés por baixo da mesa, e, depois do jantar, quando os mais se alheavam no egoísmo da saciedade, ele a fitava tristemente, pedindo, com os olhos fosse lá o que fosse. Pois bem, ela a tudo isso correspondia com muito agrado, submetia-se resignadamente a todos esses requisitos do namoro vulgar, mas...um belo dia em que o pedaço de asno do Pereirinha quis ir adiante, Amélia aconselhou-o sorrindo a que primeiro a fosse pedir em casamento ao irmão.

E, quando se convenceu de que o tipo não queria casar, disse-lhe

abertamente: “ Ora, meu amigo, outro ofício!”

E Coqueiro sabia de tudo isso, tão bem como a própria Amélia — para que pois aqueles escrúpulos ridículos e amoladores?.

* * *

Só à noite,, à acostumada palestra em torno da mesa de jantar, lembraram-se de que o dia seguinte era de grande gala.

— Ó diabo! considerou Coqueiro.— E eu que podia ter dito ao Amâncio para vir amanhã! Escusávamos de esperar até domingo.

— Ora, senhores! Onde diabo tinha a cabeça!...

— Queres saber de uma coisa? Disse, tomando a mulher de parte. — Vai tu e mais Amelinha arranjar o gabinete, que eu escrevo uma carta ao nosso homem; pode ser que amanhã mesmo o tenhamos por cá. Anda, vai! O segredo das grandes coisas está às vezes nesta pequenas deliberações!

E, enquanto Mme. Brizard aprontava com Amélia o gabinete, escreveu ele a carta que Amâncio encontrou sobre a cômoda.

Não descansaram mais um instante. Desde pela manhã do dia seguinte andava a casa em grande alvoroço. Foi preciso varrer, escovar, remover do gabinete os móveis que o atravancavam. Preparou-se uma bela caminha, coberta de lençóis claros e cheirosos; estendeu-se um tapete no chão; colocou-se a um canto o lavatório, encheu-se o jarro que ficou dentro da bacia, ao lado das toalha. E feito isto, puseram-se todos à espera de Amâncio.

Ele, até aquelas horas, não havia declarado por escrito se iria ou não, logo era provável que fosse.

E com efeito, pela volta do meio-dia, um tílburi parou à porta, e Amâncio, muito intrigado com a numeração das casa, entrou no corredor, a olhar para todos os lados.

Um moleque, que ficara de alcatéia à espera dele, correu logo ao primeiro andar, gritando que “o moço já estava aí”

— Cala a boca, diabo! Respondeu Mme. Brizard em voz abafada e discreta.

Coqueiro ergueu-se prontamente do lugar onde se achava e atirou-se com espalhafato para o corredor, alegre e expansivo, como se recebera, depois de longa ausência, um velho amigo da infância.

— Bravo! Exclamava, sacudindo os braços e correndo ao encontro de Amâncio. — Bravo! Assim é que entendo os amigos! Não te perdoaria se faltasses!

E com muita festa ,a apressá-lo:

— Vem entrando para a sala de jantar! Estás em tua casa! Entra! Entra!

(continua...)

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