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#Romances#Literatura Brasileira

Encarnação

Por José de Alencar (1878)

Hermano demorou-se algum tempo a admirar a graça de Amália assim adormecida. Involuntariamente seu pensamento enleando-se nas reminiscências o transportou ao passado, à noite de seu primeiro casamento. 

 

De repente, tornando daquele recordo ao presente, volveu o olhar em torno e ficou atônito de ver ali em face dele a mulher que pouco antes admirava, a esposa a quem se ligara havia poucas horas. 

 

Ergueu-se pálido, demudado, espavorido, e afastou-se. 

 

No dia seguinte, eram dez horas da manhã quando um raio de sol brilhante e alegre entrou pelo aposento de Amália como para festejá-la. Durante a noite, a moça acordara, e tonta do sono, buscara no próximo aposento o leito, onde refugiou-se. 

 

Pela manhã a mucama abriu a janela do toucador; e uma réstia de sol batendo no espelho refrangera, acariciando o rosto mimoso da moça pousado em um ninho de rendas. 

 

Ela abriu os olhos e saltou da cama, alegre como um passarinho. 

 

— Sinhá quer tomar alguma coisa? perguntou-lhe a mucama. 

 

— Eu quero almoçar, que estou com muita fome. 

 

— Mando pôr na mesa? 

 

— Não; aqui mesmo, no toucador. 

 

Amália teve então uma idéia que lhe sorriu. Sentou-se à sua secretária, um mimo de marcenaria, e escreveu a seguinte carta em papel que ali achou, com o seu monograma: 

 

"D. Amália Veiga de Aguiar tem a honra de convidar seu marido Carlos Hermano de Aguiar para almoçar em sua companhia, hoje, às onze horas, no seu toucador. O ménu fica por conta do convidado." 

 

A moça fechou o seu convite e mandou-o entregar a Hermano, de quem sentia a falta perto de si. Ela não o censurava pela ausência; mas parecia-lhe que ele devia ter-se apressado em saudá-la logo pela manhã, e sobretudo nesse primeiro dia em que dormira na sua casa. 

 

Hermano acudiu pressuroso ao convite; e os dois noivos almoçaram jovialmente perto de uma janela, que dava para o jardim, ouvindo cantar os passarinhos e aspirando a fragrância das flores, que o vento, soprando nas roseiras, esparzia sobre a mesa. 

 

O resto do dia passaram nesse mesmo devaneio amoroso, lendo, recitando versos, recordando a breve história de sua afeição, e estremecendo ainda dos incidentes que os ameaçaram tantas vezes de uma separação eterna. 

 

No meio destes lirismos, Amália escreveu à mãe uma carta cheia de ternuras; e D. Felícia veio fazer à filha uma rápida visita que a encheu de júbilo por ver seu contentamento. 

 

O jantar foi a reprodução do almoço. Comeram ali mesmo no toucador em uma mesa volante, servidos pela mucama. Amália achava encanto nessa solidão a dois, em que nenhum olhar estranho e indiscreto vinha perturbar a sua casta felicidade. 

 

No fim do crepúsculo, quando as sombras se condensavam entre as árvores, saíram os noivos à chácara para espairecer. Sem intenção e sem consciência, Amália dirigira o passeio justamente para aquele banco onde outrora Julieta sentava-se todas as tardes com o marido. 

 

Hermano a princípio a tinha acompanhado sem observação, mas visivelmente contrariado, o que a noiva não percebeu por ter volvido os olhos para a casa paterna. Quando, porém, a moça ia sentar-se no banco, ele irrefletidamente impediu-lhe o movimento com o braço, e obrigou-a a afastar-se. 

 

— Não se sente aí  Amália. 

 

Amália, surpresa por aquele gesto, que não era um abraço, reconheceu o sítio e adivinhou a razão da repugnância do marido. Sua alma confrangeu-se. O erro, o erro fatal, que ela tanto receou, estava consumado. 

 

Calou-se, porém, e seguiu silenciosamente o marido que, para disfarçar a ocorrência, falava-lhe com volubilidade dos planos que tinha para embelezamento da chácara, a fim de que Amália achasse aí todos os encantos, quando, fatigada da sociedade, se deixasse ficar no seu retiro para repousar. 

 

Notando afinal a mudez e esquivança da moça, compreendeu que a impressão fora profunda; e para serenar-lhe o espírito renovou os protestos tantas vezes repetidos de que ela era sua felicidade, sua vida, sua alma. 

 

— lludiu-se, Hermano, e eu também. A sua felicidade, se alguém lha pode dar neste mundo, não sou eu; e Deus sabe que sacrifícios eu não faria para merecer esta graça!  

 

Amália proferiu estas palavras com uma tristeza maviosa e afastou-se para que o marido, apesar do escuro, não lhe visse as lágrimas. 

 

— Não tem razão, Amália. Se eu me lembrasse de oferecer-lhe uma flor, já usada por outra 

(continua...)

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