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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

Isabel — Que vale a minha reputação desde que a perdi para o Senhor?... Eu já não vivo neste mundo; que me importa o que se passa nele?

Miranda — Uma Senhora precisa sempre de sua reputação; quando não seja para si ou para o seu marido, será para sua família, para sua filha. Fique descansada, porém eu preciso fazer uma viagem à Europa; a Senhora não pode naturalmente acompanhar-me por causa de sua filha; fica em sua casa, ou na fazenda com seu pai...

Isabel — Quando parte, Senhor?

Miranda — No próximo paquete.

Isabel — Depois de amanhã?

Miranda — Desejava, mas já não é possível. Será no seguinte.

Isabel — Daqui a um mês!... Antes disso terei eu partido, e para mais longe!... É inútil a sua viagem.

Miranda — Deixe estas idéias tristes! Prometo-lhe que não voltarei!... Um dia chegalhe a notícia de que está livre, viúva; pode ainda ser tão feliz! Neste momento, só lhe peço que me perdoe e me acredite. Aceitando a sua mão, pensei que poderia fazerlhe a sua felicidade!...



CENA XIII

Os mesmos e Siqueira

Siqueira — Que é isto? Continua a cena de ontem? De que estás chorando, Bela?

Miranda — As Senhoras choram por qualquer motivo. Comuniquei-lhe o meu projeto de ir à Europa...

Siqueira — Ah! Mas é cousa nova!

Miranda — Resolvi agora na cidade. A minha saúde, a minha carreira mesmo, exigem esta viagem.

Siqueira — Acho-a fora de propósito. É mau tempo, deve deixar para maio.

Miranda — E a Câmara?... Por esse tempo pretendo estar de volta. Quero aproveitar o intervalo da sessão: será uma viagem precipitada, e muito incômoda para Bela.

Siqueira (a Isabel) — Então já está chorando de saudades?... É uma ausência de sete meses apenas.

Isabel — De sete meses!... E que fosse, para quem nunca se separou, mais do que alguns dias!...

Miranda — Convém habituarmo-nos; ninguém sabe quando chega o momento da separação eterna.

Siqueira — Deixemos isso; a viagem não é agora.

Isabel — É no próximo vapor.

Siqueira — Havemos de ver.

Miranda — Em todo caso é cedo para afligir-se, não é verdade, meu sogro?

Siqueira — Decerto. (A Isabel) Não te agonies; no fim das contas isso não passa de projeto.

Miranda (saindo) — Já volto.

Isabel — Peça-lhe que não faça esta viagem; mas como cousa sua!... Augusto lhe quer bem: há de atendê-lo.

Siqueira — Eu te prometo falar com ele. Fique descansada.

Isabel — Mas não lhe fale hoje, não; depois outro qualquer dia. Oh! Eu sinto que essa viagem me mataria.

Henrique (entrando) — Senhor Siqueira, preciso falar a Bela. Me dê licença.

Siqueira — Outro!... Veja se também a faz chorar como seu tio.



CENA XIV

Isabel e Henrique



Henrique — Chorava?... E foi ele que a fez chorar? Já sei o que isto quer dizer.

Isabel — É um capricho meu, uma sem-razão.

Henrique — Há um ano é esta a primeira vez que nos achamos sós, Bela. O amor de Clarinha curou a minha loucura; e contudo evitei sempre essas ocasiões pelo respeito que lhe tenho. Hoje, porém, é necessário que lhe fale.

Isabel — Estou agora tão agoniada.

Henrique — Por isso mesmo!... Que adivinho o motivo. (Grave) Bela, o que se passou naquela noite... Na noite em que eu cometi a imprudência...

Isabel — Nada, Henrique, nada.

Henrique — Responda-me a verdade.

Isabel — Já lhe disse. Que idéia é essa?.

Henrique — Dá-me sua palavra de que nada se passou com seu marido? (Pausa) Não pode dá-la. Eu suspeito, eu sei tudo, Bela!

Isabel — É impossível! Quem lho diria?

Henrique — Então o segredo existe? Bem vê que não o pode ocultar.

Isabel — Cale-se, Henrique! Podem ouvir-nos! Senti empurrarem aquela porta!

Henrique — Foi engano seu; está fechada. Ontem, Bela, quando me supus traído por Clarinha, tinha uma arma na mão e meu primeiro movimento foi um crime! Meu tio quis chamar-me à razão e eu não o atendi. Enfim, impelido por uma recordação funesta, contou-me ele uma história; a história de um amigo que como eu se julgava desonrado, e como eu ia matar sua mulher, quando o grito de sua filha...

Isabel — Que tem esta história comigo, Henrique?

Henrique — Ele falava de si, Bela!

Isabel — Como!... Pode supor?...

(continua...)

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