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#Romances#Literatura Brasileira

O Gaúcho

Por José de Alencar (1870)

— É mentira! É mentira!… gritou a criança em desespero. 

Como insistisse a mulher, afirmando ser verdade, Manuel atirou-se a ela com furor, rasgando-lhe a roupa e arranhando-lhe o rosto com as unhas. Foi necessário que a mãe o castigasse. A pobre alvissareira jurou nunca mais se intrometer com semelhante diabrete. 

Dias depois, estando Loureiro em casa da viúva, sucedeu sair ao campo, depois do almoço, para dar uma volta a pé. Observou ele que Manuel o seguia, e demorou-se a esperá-lo, talvez com o desejo de granjear enfim as boas graças do teimoso menino. Este, porém, que o viu parar, fez o mesmo. Seguiu pois o negociante, mas sempre acompanhado de longe pelo filho de Canho.   A tentativa reproduziu-se duas vezes sem resultado. 

Muito adiante, percebeu Loureiro perto de si ligeiras pisadas; voltou-se. Ali estava o menino, e trazia empunhada uma grande faca, maior que o seu braço; sem dúvida era a de João Canho. 

Receou Loureiro que o menino, projetando alguma travessura, viesse a ser vítima da arma: 

— Para que é esta faca, Manuel? 

— Para te matar! 

— A mim? Que mal lhe fiz eu, meu filho? 

— Não sou teu filho!… gritou a criança querendo ferir. 

Enquanto o negociante subtraía-se aos golpes, esforçando por arrancar a arma das mãos do menino, ele rangia os dentes, repetindo com voz surda: 

— Não hás de casar com minha mãe!… Não quero! 

Francisca apenas soube do que era passado, quis castigar o filho e o faria sem a intervenção de Loureiro. Depois ficou a cismar se o menino teria razão naquela repugnância. As pessoas do seu conhecimento a quem ela comunicou seus receios, os desvaneceram, zombando de semelhantes escrúpulos. Não passavam de caprichos de criança os aborrecimentos do Manuelzinho. O melhor remédio para isso era apressar o casamento; breve o menino se acostumaria com o padrasto, e acabaria por estimá-lo, como devia. 

Casou-se enfim a viúva. Nesse dia ninguém viu Manuel.

— Onde estaria? 

Abraçado com a cruz de pau que indicava, no meio do campo, o lugar onde repousavam as cinzas de João Canho. 

 

IV 

MORZELO 

 

Uma semana depois do casamento, Juca o filho mais moço da viúva, que teria cerca de três anos, adoeceu. 

A princípio a enfermidade se apresentou sem o mínimo caráter de gravidade; não fizeram caso. Dias depois o mal tomou de repente um aspecto assustador, e ao cabo de algumas horas sucumbiu a criança. 

Ficou a mãe inconsolável, não só da perda de seu filho mais querido, como também do pouco zelo que tivera no começo da moléstia. O marido a acompanhou no pesar; os vizinhos e pessoas da casa, todos, se mostraram sensibilizados com a morte do menino. 

Manuel foi exceção no luto, como havia sido na alegria. 

Enquanto os mais choravam, ele brincava risonho com o irmãozinho morto e já posto no caixão. 

Uma rapariga, que ali estava, pergunto-lhe: 

— Você não tem pena de seu maninho? 

— Pena de quê?… Ele vai para onde está nosso pai. não quis o outro que lhe deram, não!… Também eu hei de ir, mas depois que tiver feito uma coisa! 

Com a perda do irmão, ainda mais arredio da casa tornou-se o menino, do que era desde o casamento. Passava o tempo a campear, comia nos ranchos com os peões, e muitas vezes sucedeu por lá dormir. A mãe descansava sabendo que ele estava bom; e deixava-o em plena liberdade. A presença do filho produzia um vexame inexplicável, se não era um vago remorso. 

Alguns meses passados, Loureiro falou em mudar-se para sua casa do Alegrete; a mulher acedeu prontamente a esse desejo, e começaram os preparativos. Ambos sentiam certa repugnância por estes lugares. 

Manuel declarou desde logo que não sairia da casa paterna, senão amarrado. Resolveram pois não contrariá-lo; havia na vizinhança um velho peão, homem de confiança, a quem se podia incumbir a guarda do menino, até que o isolamento em que ia ficar vencesse a sua obstinação. 

Tinha o negociante destinado a tarde da véspera da partida para fazer suas despedidas aos moradores da estância. Nesse desígnio se encaminhou para a varanda onde guardavam os animais. 

Ali estava Manuel sentado em um cepo, divertindo-se em escovar o pêlo de um cavalo. O animal nada tinha de bonito; era alto, ossudo e esgalgado, mas saía-lhe fogo dos olhos, e a firmeza dos jarretes anunciava sua força e impetuoso vigor. Chamava-se Morzelo; fora o cavalo predileto de João Canho, o sócio de seus triunfos nas parelhas, o companheiro fiel de suas excursões e viagens. Não havia em toda a campanha de Bagé um corredor de fama como aquele. 

— Arreie meu cavalo, disse o Loureiro a um peão que saía da choça.

(continua...)

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