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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Perdição

Por Camilo Castelo Branco (1862)

— Deixe lá a moça, e diga quando há de ir a servente buscar o vinho.

— Quando quiser, senhora prioresa. Mas repare bem nos olhos, no feitio, naquele todo da rapariga!...

— Pois repare o senhor padre João — replicou a freira — que eu tenho mais que fazer.

E retirou-se com o coração malferido, e o queixo superior escorrendo lágrimas... de simonte.

— Donde é vossemecê? — disse brandamente o padre capelão.

— Sou da aldeia — respondeu Mariana.

— Isso vejo eu... Mas de que aldeia é?

— Não me confesso agora.

— Mas não faria mal se confessasse a mim, menina, que sou padre...

— Bem vejo.

— Que mal gênio tem!...

— É isto que vê.

— Quem procura cá no convento?

— Já disse lá para dentro quem procuro. — Mariana, és tu?! Anda cá!

A moça fez uma cortesia de cabeça ao padre capelão, e foi ao locutório donde vinha aquela voz.

— Eu queria falar contigo em particular, Joaquina — disse Mariana.

— Eu vou ver se arranjo uma grade: espera aí..

O padre tinha saído do pátio, e Mariana, enquanto esperava, examinou, uma a uma, as janelas do mosteiro. Numa das janelas, através das reixas de ferro, viu ela uma senhora sem hábito.

— Será aquela? — perguntou Mariana ao seu coração, que palpitava — Se eu fosse amada como ela!...

— Sobe aquelas escadinhas, Mariana, e entra na primeira porta do corredor, que eu lá vou — disse Joaquina.

Mariana deu alguns passos, olhou novamente para a janela onde vira a senhora sem hábito, e repetiu ainda:

— Se eu fosse amada como ela!...

Mal entrou na grade, disse à sua amiga:

— Olha lá, Joaquina, quem é uma menina muito branca, alva como leite, que estava ali agora numa janela?

— Seria alguma noviça, que há duas cá muito lindas.

— Mas ela não tinha vestimenta nenhuma de freira.

— Ah! já sei; é a D. Teresinha de Albuquerque.

— Então não me enganei — disse Mariana, pensativa.

— Pois tu conhece-la?

— Não; mas por amor dela é que eu cá vim falar contigo.

— Então que é?! Que tens tu com a fidalga?

— Eu cá, por mim nada; mas com uma pessoa que lhe quer muito.

— O filho do corregedor?

— Esse mesmo.

— Mas esse está em Coimbra,

— Não sei se está, nem se não. Faz-me tu um favor?

— Se eu puder...

— Podes... Eu queria falar com ela.

— Ó diacho! Isso não sei se poderá ser, porque a trazem as freiras debaixo de olho, e ela vai-se embora amanhã.

— Para onde vai?

— Vai para outro convento, não sei se de Lisboa, se do Porto. Os baús já estão preparados, e ela está morta por sair. E tu que lhe queres?

— Não to posso dizer, porque não sei... Queria dar-lhe um papel... Faze com que ela venha cá, que eu dou-te chita para um vestido.

— Como tu estás rica, Mariana!... — atalhou, rindo, Joaquina. — Eu não quero a tua chita, rapariga. Se eu puder dizer-lhe que venha, sem que alguém me ouça, digo-lho. E agora é boa maré, porque tocou ao coro... Deixa-me ir lá...

Joaquina saiu-se bem da difícil comissão. Teresa estava sozinha, absorvida a cismar, com os olhos fitos no ponto onde vira Mariana.

— A menina faz favor de vir comigo depressinha? — disse-lhe a criada.

Seguiu-a Teresa, e entrou na grade, que Joaquina fechou, dizendo:

— O mais breve que possa bata por dentro para eu lhe abrir a porta. Se perguntarem por vossa excelência, digo-lhe que a menina está no mirante.

A voz de Mariana tremia, quando D. Teresa lhe perguntou quem era.

— Sou uma portadora desta carta para vossa excelência.

— É de Simão! — exclamou Teresa. — Sim, minha senhora.

A reclusa leu convulsiva a carta duas vezes, e disse:

— Eu não posso escrever-lhe, que me roubaram o meu tinteiro, e ninguém me empresta um. Diga-lhe que vou de madrugada para o convento de Monchique, do Porto. Que se não aflija, porque eu sou sempre a mesma. Que não venha cá, porque isso seria inútil, e muito perigoso. Que vá ver-me ao Porto, que hei de arranjar modo de lhe falar. Diga-lhe isto, sim?

— Sim, minha senhora.

— Não se esqueça, não? Vir cá, por modo nenhum. É impossível fugir, e vou muito acompanhada. Vai o primo Baltasar e as minhas primas, e meu pai e não sei quantos criados de bagagem e das liteiras. Tirar-me no caminho é uma loucura com resultados funestos. Diga-lhe tudo, sim?

Joaquina disse fora da porta:

— Menina, olhe que a prioresa anda lá por dentro a procurá-la.

— Adeus, adeus — disse Teresa, sobressaltada. — Tome lá esta lembrança como prova de minha gratidão.

E tirou do dedo um anel de ouro, que ofereceu a Mariana.

— Não aceito minha senhora.

— Por que não aceita?

(continua...)

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