Por Camilo Castelo Branco (1882)
Que sim, que levara; pudera não levar!
– Pois então, abade, empreste-me aí meia moeda, que eu vou disfarçado a Braga ver o que se passa. Estou sem vintém.
– Veja lá se o prendem, visconde – acautelou o abade.
– O meu dever é seguir a sorte de el-rei! Onde ele morrer, morro eu!
X
O Cerveira Lobo saira, com o Zeferino, para Braga na sexta-feira de manhã. Estariam aqui até à madrugada de sábado, e partiriam então para a Póvoa de Lanhoso com os três contos de reis, repartidos em libras pelas algibeiras dos dois. Além de um criado de velha libré, avivada de azul, de botas de prateleira e chapéu de sola, levavam bacamartes nos arções dos selotes, todos três. Foram descansar e jantar à hospedaria dos Dois Amigos. O Cerveira vestia casaca no trinque muito lustrosa, e gravata de cambraia com laço; o peitilho postiço atado ao pescoço saía muito rijo de goma reles de entre as lapelas derrubadas do colete de veludo preto. A calça de pregas, ampla, à cavalaria, afunilava-se no artelho, quebrando no peito do pé. As botas de polimento novas rangiam e as esporas amarelas no tacão, com grandes rosetas, tilintavam num estardalhaço de caserna. Comprara chapéu de pasta com molas que faziam saltar a copa, e enchiam como uma bexiga, que parecia pantominice das comédias, dizia o Zeferino.
Às quatro horas o fidalgo de Quadros e mais o pedreiro sentaram-se à mesa redonda. Já constava em Braga que estava ali o Cerveira Lobo, que desde 1835 não saíra da casa-solar de Vermoim. Alguns primos visitaram-no; as famílias legitimistas, e principalmente senhoras velhas, mandavam-lhe bilhetes.
Dizia o Zeferino que o incomodavam tantas etiquetas, que estava morto por se safar, não estava para lérias: que as tais senhoras Sotomaiores, as Peixotas e as Meneses deviam ser mais velhas que a Sé, uns estafermos. Ele segredava ao ouvido do Zeferino coisas, ratices suas em Braga, quando era rapaz. – Que fizera um destroço nas primas, tudo pelo pó do gato. Que pagara bem o seu tributo à asneira; e casquinava com vaidade paparreta, carregando-lhe a mão no verde. Quando entravam pelo assado, chegou um tenente do 8 a contar a um amigo, que estava à mesa, que chegara naquele momento preso ao Governo Civil, vindo da Póvoa de Lanhoso, um maroto que dizia ser D. Miguel, e ouvira dizer a um realista que o vira em Roma, havia três anos, que se parecia bastante com ele.
O Cerveira erguera-se num grande espanto indiscreto a olhar para o oficial, que o fixava com uma curiosidade irónica. Convergiram todos os olhares para o homem das barbas respeitáveis. Quedou-se momentos naquele espasmo, num trémulo, e perguntou:
– E é com efeito o Sr. D. Miguel esse homem que chegou preso?
– Ele diz que é – respondeu o tenente. – Veremos o que se averigua no governo civil.
– Na falta do verdadeiro D. Sebastião, apareceram três falsos – disse enfaticamente. um professor de latim, com um sorriso pedante.
O Cerveira olhou-o de esconso, e saiu da mesa, seguido do Zeferino, muito enfiados, ambos.
– Está tudo perdido! – disse dolentemente o fidalgo.
– El-rei preso!... E não se levanta este Minho a livrá-lo!... Vamos vê-lo, quero ver se lhe posso falar. Dentro de três dias entro em Braga com dez mil homens e arraso a cadeia. Fez saltar a copa do chapéu de molas e saiu para a rua, a bufar.
O Campo de Santa Ana parecia um arraial. Aglomeravam-se ali as duas Bragas – a fiel, a caipira, pletórica de fidalgos, de grandes proprietários, cónegos, de chapeleiros e da clerezia miúda; – a liberal, muito anémica, encostada ao 8 de infantaria, toda de bacharéis e empregados públicos, o Manso, o Meio Cavacão, o Mota, o Rocha Veiga, o Alves Vicente, negociantes de tendas mesquinhas, professores muito retóricos, o Capela, que ensinava francês, o Pereira Caldas, soneteiro e polígrafo, o velho Abreu bibliotecário, lacrimoso, o Pinheiro, muito grande, filósofo sensualista, mas bom vizinho, todos à volta do Monte Alverne, um cónego muito assanhado, que foi, meses depois, comandante da brigada dos serezinos.
Cerveira Lobo impunha e dominava com as suas barbas, o trajar asseado com muito lustro, e o bater metálico, patarata, das esporas. Abriram-lhe passagem, rodeavam-no cavalheiros da primeira plana, os Vasconcelos do Tanque, os Magalhães, o Freire Barata, o Cunha das Travessas, a gema daquele enorme ovo realista, chocado no seio da religião da Carlota Joaquina, do conde de Basto e do Teles Jordão. O Cerveira perguntava aos seus: – É? – uns encolhiam os ombros, outros negavam gesticulando. E ele, com intimativa:
– Pois saibam que é!
O Manuel de Magalhães dizia ao ouvido do Henrique Freire:
– Deixa-o falar, que está idiota.
O Bernardo de Barros, um fidalgo de Basto que fora capitão de cavalaria, com um bizarro sorriso de corte e ademanes de uma selecção rara:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. A brasileira de Prazins. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1778 . Acesso em: 17 jun. 2026.