Por Aluísio Azevedo (1882)
E o marinheiro em terra, como a ave que arrancaram do seu bosque, entristeceu e principiou a depor a substância de sua dedicação aos pés da esposa do comandante. Amava-a com um respeito religioso, uma quase adoração. Vivia preocupado a afastar de em redor dela tudo aquilo que de leve a pudesse contrariar.
Durante o tempo em que Cecília estava para dar à luz Gregório, só o dedicado marinheiro sabia corresponder às exigências e aos caprichos da enferma. Procurava cercá-la de distrações, como se ela fosse uma criancinha doente; cantava-lhe as modas de sua terra, naquela toada monótona dos marujos e, muitas vezes, como estivessem no verão, iam espairecer um pouco para o terraço, e aí o marinheiro contava as lendas melancólicas do mar, onde fugiram louros príncipes encantados que vão prear sereias nas costas da Normândia. Falava-lhe das brancas miragens que, em noites de luar, flutuam pelas águas, e entre as quais o navegante apaixonado descobre o vulto estremecido da mulher amada.
Cecília, com os olhos presos no céu, os lábios mal cerrados, e toda ela ressentida da profunda ternura que a gravidez traz consigo, ficava embevecida a ouvir as histórias do marujo. Um dia perguntou-lhe se ele nunca tivera também o seu amor.
Tubarão não respondeu, coçou a cabeça, e depois limpou com as costas da mão duas lágrimas, que lhe corriam pelas faces tostadas do sol.
— Conte-me antes a sua história... pediu Cecília com a voz quebrada; teria prazer em ouvi-la. Vamos! Conte a história dos seus amores
— Não, patroazinha! Marinheiro não tem amores... Pobre de nós se nos fica o coração cá em terra, quando temos de embarcar. Às vezes, no dia em que saltamos em um Porto estranho, sem conhecer ninguém, sem encontrar um rosto amigo, lá vemos entre a multidão os olhos formosos de alguma mulher que nos cativa, levamos a saudade para bordo; são mágoas para toda a viagem!
— Mas você comoveu-se ainda há pouco, Tubarão, quando lhe falei nos seus amores...
— Lembrei-me de minha mãe! A pobrezinha chorava quando eu parti, e ninguém lhe tirava da cabeça que ela nunca mais me veria...
— E depois?
— Quando voltei à minha aldeia, já ela estava no cemitério. O vigário mostrou-me a sepultura: era no chão, debaixo de uma grande árvore, perto da capela...
— E o que fez você?...
— Eu ajoelhei-me e rezei as orações que ela me ensinara, quando eu era pequenino. Depois, como o serviço me esperava a bordo, às pressas colhi as flores que havia por ali, espalhei-as sobre a sepultura, e voltei para o trabalho. Fui muito triste; era tão boa aquela velhinha!...
À proporção que corria o tempo, ia Tubarão mais e mais se afeiçoando a Cecília. Só os homens do mar, essas almas ingênuas e criadas longe da terra e ao correr franco dos ventos, conhecem os mistérios do amor desinteressado e heróico. Para o marujo, a mulher aparece por um prisma muito melhor do que para os outros homens; pois só lhe conhece ele a influência feminil e doce por intermédio da saudade: a mulher é sempre para o marujo um ente adorável, que se deve amar de joelhos. Um sorriso de seus lábios cor-de-rosa é o bastante para prostrar o leão valente, que pouco antes afrontava a fúria dos vendavais e a sanhuda cólera dos mares.
Tubarão estava nestas circunstâncias a respeito de Cecília, quando o capitão, ao partir para o Brasil, lhe segredada aquelas palavras que o fizeram estremecer.
O marinheiro chegou à casa possuído de grande pesar. Seria possível que o seu comandante tivesse qualquer razão para dizer aquilo?... Não! não era possível!...
Mas o pobre marujo, disposto a seguir os passos da patroa, como lhe ordenara o amo, tinha mais tarde de sofrer as mais dolorosas das decepções.
Quando Leão Vermelho partiu para o Brasil, seu filhinho Gregório tinha apenas dois anos. Tubarão, que ouvia da criança os primeiros vagidos, foi por tal forma lhe tomando carinho, que acabou por fazer dela toda a sua preocupação e todo o seu enlevo.
Passava horas esquecidas com o pequenito ao colo ou a brincar com ele, a suspendê-lo no ar e a rolá-lo entre as suas grossas mãos. O bebê desfazia-se em risadas com o marinheiro e puxava-lhe as barbas, na sua infantil e graciosa irracionalidade.
Assim, quando o amo chegou a partir, já o pobre homem estava preso àquela gente por uma amizade sem limites, cuja transparência só as palavras do comandante, segredadas a bordo, vinham toldar pela primeira vez.
Todavia era forçoso obedecer. O marinheiro principiou então a seguir os passos de Cecília, sem jamais a perder de vista; os menores gestos da senhora, a mais leve alteração do seu humor, tudo o marujo observava com cuidado e reserva.
Um dia achou-a sumamente triste e concentrada. À mesa não dera Cecília uma palavra, e à noite, depois de passar longas horas fechada no quatro, apareceu com os olhos inchados e vermelhos. O próprio filho, nesse dia não conseguiu distraíla; ela, ao contrário, parecia não lhe poder suportar os gritos e as travessuras.
— Vossemecê sente alguma coisa, D. Cecília?... perguntou-lhe o Tubarão, quando a pilhou de jeito.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Girândola de amores. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16531 . Acesso em: 15 mar. 2026.