Por Aluísio Azevedo (1884)
"Minhalma", afirmava ela em ponto das memórias, "como que se dilatou ao sopro embalsamado das melancólicas lendas do Oriente. Pareceu-lhe ouvir ainda, perdidos no espaço, os últimos ecos dos coros religiosos dos sacerdotes de Horus e o cântico venerando dos escribas reais..."
Ouvisse ou não ouvisse, o fato é que, uma vez, depois da costumada excursão pelas ruínas, ela tomou de repente as mãos do marido e perguntou-lhe em segredo, com a voz trêmula de comoção:
— Meu amigo, não sentes alguns sons doces e lamentosos, que rumorejam neste vasto e profundo azul do deserto? ...
O Borges vergou a cabeça para o lado donde vinha o vento, concheou as mãos nas orelhas e, depois de escutar durante alguns minutos, disse que sim, por condescendência. — Que sim, supunha ouvir, qualquer coisa — assim como unia espécie de zunido! — Que vinha a ser isso?... perguntou ele, estimulado pelo olhar estranho da mulher.
— É, respondeu Filomena muito grave — é a alma errante do passado que chora as suas grandezas extintas, ou talvez sejam as notas derradeiras dos lamentosos salmos das adoradoras de Hathor!
— Ah!... fez o marido, fingindo interesse, mas sem compreender patavina.
E, enfronhados nas suas roupas egípcias, já iam aquelas duas almas perdidas, a jornadear dia e noite, de sol a sol, de ruína em ruína; ela em busca de comoções; ele em busca de coisa alguma, aborrecido, cansado, pedindo a Deus de instante a instante que fizesse a mulher desistir daquela terrível mania de andar a trocar as pernas, pelo mundo e fosse com ele repousar a um canto feliz e calmo de sua terra.
Contudo não se revoltava, nem lhe fugia às mais caras exigências. Na ocasião em que visitavam a quase extinta Menfis. ela mostrou desejos de que o marido chorasse defronte do colosso mutilado de Ramsés II, que jazia estendido na areia e o Borges choramingou para fazer-lhe a vontade. Quando desembarcaram no Luqzor, à margem direita de Tebas "a cidade de cem portas, decantada pelo sublime cego de Smyrna" como parafraseava ela, cheia de entusiasmo, o pobre homem já estava mais morto que vivo; Filomena, entretanto, não admitiu que se esbanjasse o precioso tempo com o repouso e exigiu que o Borges prestasse suma atenção às maravilhas que surgiam defronte de seus olhos.
— Sabes?... disse-lhe ela> atravessando com um passo solene o corpo principal do despojado templo de Luqzor — foi daqui que o solitário de Santa Helena levou o obelisco que orna hoje a praça da Concórdia, em Paris!
— Boa pedra para construção! respondeu o mestre de obras, batendo com a ponta ferrada de seu cajado no granito vermelho das velhas e consagradas esculturas de Secos. Boa pedrinha! Isto deita séculos!
Felizmente, a mulher não o ouvia, graças ao encanto melancólico daquelas relíquias, que a arrebatavam para as épocas esplendorosas de Sesostris e a faziam reconstruir mentalmente toda a extinta grandeza da margem ocidental de Tebas,
Neste dia, não houve um momento de descanso. Filomena não tinha ânimo de abandonar as ruínas, e como que as queria ver todas ao mesmo tempo. — Oh! Ó Karnak! Ó Karnak com a sua avenida de esfinges decimbradas e os monólitos gloriosos de Amenhotep III !
No fim de cinco horas de êxtases e exclamações desse gênero, o Borges cujo estômago reclamava os seus direitos disse, batendo-lhe meigamente no ombro:
— Não te apetece agora uma costelazinha com batatas?... Creio que não será mal lembrado... hein?...
— Não! disse Filomena, repressivamente. — O que me apetece neste instante é o Medinet-Abu na outra margem do Nilo. Creio que esse prodígio de sete séculos valerá sempre mais alguma coisa que uma costeleta!...
— Oh! de certo, de certo! apressou-se a confirmar o Borges, pronto já a seguir a esposa, sem o menor vestígio de oposição.
Mas, pelo caminho, indiscretos suspiros partiam-lhe a miúdo dos lábios.
— Triste fado o meu! resmungava o pobre homem com os seus botões. — Triste fado!
E lá ia caminhando, de cabeça baixa, a puxar pelo cabresto o seu burrico e o da mulher.
O desgraçado esteve a desfalecer, quando, no fim da estafadora peregrinação pelo Egito, Filomena tratou com assombro de Babilônia, na qual, segundo vagas recordações de Herôdoto e Deodoro de Sicília, pensava encontrar panos para as mangas nas estátuas de ouro e nos palácios de Korsabad e Nemrod e nos baixos relevos e nos caracteres da escritura assíria.
Ah! só encontrou de tudo isso indícios, quase apagados — ruínas e deserto! sempre o deserto! sempre o deserto!
Veio-lhe então a idéia de recorrer à Grécia. "aí com certeza encontraria alguma coisa; pelo menos os sublimes destroços do Acropólio, do Partenon, do Agora!"
Já vejo que não é tão cedo que isto acaba!... considerou o Borges, quando a mulher lhe falou nas riquezas descobertas pelo professor Ihlismann, na Argólida.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Filomena Borges. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16530 . Acesso em: 15 mar. 2026.