Por Aluísio Azevedo (1884)
Imediato à sala, com uma janela igual àquelas outras, havia uma gabinete, comprido e muito estreito, onde Coqueiro tinha a sua biblioteca e a sua banca de estudo. Via-se aí uma pasta cheia de papéis, um tinteiro e um depósito de fumo, representando o busto de um barbadinho; ao fundo, uma conversadeira de palhinha, encostada à parede, por debaixo de um pequeno caixilho de madeira com o retrato de Victor Hugo em gravura.
Seguia-se o aposento de Mme. Brizard e mais do marido, onde também dormia o menino César, que teria então doze anos; logo depois estava o quarto de Amelinha e da tal viúva histérica, Leonie, a quem a família só tratava por “Nini”.
Vinha depois a grande sala de jantar, forrada de papel alegre; nas paredes distanciavam-se pequenos cromos amarelados, representando marujos de chapéude- palha, tomando genebra, e assuntos de conventos, frades muito nédios e — vermelhos refestelados à mesa ou a brincarem com mulheres suspeitas. Um guarda-louça expunha, por detrás das vidraças, os aparelhos de porcelana e os cristais; defronte — um aparador cheio de garrafas, ao lado de outro em que estavam os moringues.
Ainda havia um corredor, a despensa, a cozinha, uma escada que conduzia ‘a chácara, outra ao segundo andar, e mais três alcovas para hóspedes, todas do mesmo tamanho e numeradas.
A numeração dos quartos principiava aí nesses três par continuar em cima. Em cima é que estava o grande recurso da casa, porque Mme. Brizard dividira todo o segundo pavimento em oito cubículos iguais; ficando quatro de cada lado e o corredor no centro. Os da frente davam janelas para a rua e os do fundo para a chácara. As paredes divisórias eram de madeira e forradas de papel nacional.
* * *
João Coqueiro, quando saiu do Hotel dos Príncipes na manhã do almoço, ia preocupado; o Simões, que caminhava à sua esquerda um pouco sacudido pelos vinhos, em vão tentou, repetidas vezes, puxá-lo à palestra; o outro respondia apenas por monossílabos e, na primeira esquina, despediu-se e correu logo para casa.
Ao chegar foi direito à mulher, dizendo-lhe em voz baixa, antes de mais nada: — Olha cá, Loló...
E encaminhou-se para o quarto. Mme. Brizard largou o que tinha entre as mãos e segui-o atentamente.
— Sabes? Disse ele, sem transição, assentando-se ao rebordo da cama. — É preciso arranjarmos cômodo para um rapaz que há de vir por aí Domingo.
— Um rapaz! Mas tu sabes perfeitamente que os quartos acham-se todos ocupados. Se tivesses prevenido... o n° 2 ainda ontem estava vazio...Mas quem é?
— Há de se arranjar, seja lá como for! Disse o Coqueiro.
— Mas quem é?...insistiu Mme. Brizard.
— É um achado precioso! Ainda não há dois meses que chegou do Norte, anda às apalpadelas! Estivemos a conversar por muito tempo: — é filho único e tem a herdar uma fortuna! Ah! Não imaginas: só pela morte da avó, que é muito velha, creio que a coisa vai para além de quatrocentos contos!...
Mme. Brizard escutava, sem despregar os olhos de um ponto, os pés cruzados e com uma das mãos apoiando-se no espaldar da cama.
— Ora , continuou o outro gravemente. — Nós temos de pensar no futuro de Amelinha... ela entrou já nos vinte e três!... se não abrirmos os olhos... adeus casamento!
— Mas daí ... perguntou a mulher, fugindo a participar da confiança que o marido revelava naquele plano.
— Daí — é que tenho cá um palpite! explicou ele. — Não conheces o Amâncio!... A gente leva-o para onde quiser!... Um simplório , mas o que se pode chamar um simplório!
Mme Brizard fez um gesto de dúvida.
— Afianço-te, volveu Coqueiro, – que, se o metermos em casa e se conduzirmos o negócio com um certo jeito, não lhe dou três meses de solteiro!
* * *
Nessa mesma tarde Mme Brizard entendeu-se com a cunhada. Falou-lhe sutilmente no “futuro”, disse-lhe que “uma menina pobre, fosse quanto fosse bonita, só com muita habilidade e alguma esperteza poderia apanhar um marido rico”. E tocando lhe intencionalmente no queixo:
— Anda lá , minha sonsa, que sabes disso tão bem como eu!...
Amélia riu, concentrou-se um instante e prometeu fazer o que estivesse no seu alcance, para agradar ao tal sujeitinho.
Ardia, com efeito por achar marido, por se tornar dona de casa. A posição subordinada de menina solteira não se compadecia com a sua idade e com as desenvolturas do seu espírito. Graças ao meio em que se desenvolveu, sabia perfeitamente o que era pão e o que era queijo; por conseguinte as precauções e as reservas, que o irmão tomava para com ela, faziam-na sorrir.
Às vezes tinha vontade de acabar com isso. ”Que diabo significavam tais cautelas?...Se a supunham uma toleirona, enganavam-se — ela era muito capaz de os enfiar a todos pelo ouvido de uma agulha!”
— Agora, por exemplo, neste caso do tal Amâncio, que custava ao Coqueiro explicar-se com ela francamente?...Por que razão, se ele precisava de seu auxílio, não a procurou e não lhe disse às claras: “Fulana, Domingo vem aqui um rapaz, nestas e nestas condições; vê se o cativas, porque ali está o noivo que te convém!” Mas, não senhor! — meteu-se nas encolhas e entregou tudo nas mãos da mulher!
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.