Por José de Alencar (1878)
— Até à hora, ninguém sabe o que pode acontecer.
Hermano esforçou-se por dissuadir Amália daquela idéia, e com tanta efusão falou-lhe de seu amor, que ela deixou-se convencer, e crer enfim na possibilidade de ser feliz.
Se a moça cogitasse em um meio de fascinar o seu amante, de o prender ainda mais a si, não poderia escolher melhor do que este receio sincero por ela manifestado. Desde aquele diálogo Hermano redobrou de extremos; e se já havia resumido sua existência em Amália, não viveu mais senão das horas que passava junto dela.
Ao chegar interrogava ansiosamente o semblante da moça receoso de ler nele a sua condenação. Depois de retirar-se, inventava pretextos para voltar uma e mais vezes, como para certificar-se de que nenhum acidente ameaçava de novo a sua felicidade.
Esse tempo foi para ele um contínuo sobressalto; e para Amália o mavioso enlevo de sentir-se
amada com todas as emoções e todas as energias dessa alma opulenta. As dúvidas e receios de seu espírito dissiparam-se completamente. Tinha agora a confiança de seu poder, e a convicção de que Hermano lhe pertencia, e a ela unicamente.
E não advertiu que essa impulsão era talvez o efeito de um anelo estremecido pelo temor, e ao qual talvez sucedesse uma reação violenta.
No dia marcado celebrou-se o casamento. Não era um sábado, dia tão impropriamente consagrado pelo uso para esse ato solene. É com efeito difícil atinar com relação que possa haver entre a véspera do repouso e o instante em que principia para o homem a grave responsabilidade de família. Saturno devorando os filhos é um mau signo para a fecundidade do matrimônio.
Amália estava deslumbrante com seu traje de noiva. Os esplendores de sua beleza ardente tomavam através dos cândidos véus uns tons suavíssimos.
Hermano era o mesmo cavalheiro fino e elegante, que seus amigos tinham conhecido dez anos antes. Se a flor da primeira mocidade passara, a fisionomia, como o porte, ganhara em distinção e naturalidade.
O Sr. Veiga festejou o casamento da filha com um baile suntuoso. Às duas horas começou uma dessas intermináveis quadrilhas que servem de remate ordinário a semelhantes reuniões dançantes.
A alegria era geral; e os noivos foram dos que mais se divertiram. Ambos eles renasciam para a vida brilhante dos salões da qual se tinham por algum tempo afastado; ela durante a sua tristeza, ele durante a sua viuvez.
Já o nascente bruxuleava, quando o baile formou-se em procissão para acompanhar os noivos à casa.
Capítulo 15
Voltando de reconduzir os seus hóspedes, Hermano aproximou-se do sofá onde Amália sentara-se.
— Estou caindo de sono, disse a moça conchegando-se com um gesto gracioso na longa capa de casimira que lhe cobria as espáduas, e as vestes de noiva.
— Por que não se recolhe? perguntou o marido.
Ela hesitou um instante; mas afinal, erguendo-se com um faceiro assomo para romper o casto enleio, dirigiu-se ao toucador e ali achou sua criada.
Às pressas açodadamente, como costumava quando recolhia-se tarde e fatigada dos divertimentos, trocou as sedas e atavios por um alvo e fresco roupão de cambraia com fitas escarlates, delicioso traje no qual ela parecia vestida de sua candidez e de seu pudor.
Sentou-se então no divã.
Estava tão fatigada! Tinha dançado como uma menina de colégio que vai ao seu primeiro baile. Não sentia o cansaço do corpo somente; o espírito também havia sofrido as emoções daquela noite e dos dias anteriores. Era feliz, tão feliz, que sua alma carecia de repouso.
Reclinou a cabeça no recosto do divã, e insensivelmente o seu lindo talhe descaiu lânguido. As pálpebras cerravam-se a seu pesar; mas ela fazia um esforço para abri-las. Tinha um vago susto de abandonar-se ao sono ali, sozinha; e também vexame de que Hermano viesse encontrá-la a dormir.
O marido entrou no toucador e chegando uma cadeira sentou-se defronte cautelosamente, para não perturbar o repouso da noiva. Ela não o sentira entrar; mas abrindo os olhos viu-o em face a contemplá-la com enlevo.
Sorriu-se, e dando-lhe a mão que ele guardou entre as suas, adormeceu como uma criança. A presença de Hermano inspirou-lhe nesse momento a mesma confiança, que outrora o afago materno; o amor a ninou.
(continua...)
ALENCAR, José de. Encarnação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2031 . Acesso em: 30 jan. 2026.