Por José de Alencar (1875)
- Não lhe parece difícil fazer a felicidade de um coração desabusado como este meu, e tão afligido pela dúvida?
- Tenho fé no meu amor; com ele vencerei o impossível.
Apagou-se nos lábios de Aurélia o sorriso; e a expressão de um ardente anelo, ressumbrado do mais profundo de sua alma, imergiu-lhe o semblante.
- Aqui tem minha mão; é tudo quanto posso dar-lhe. A mulher que ama e que sonhou, essa não a possuo. Mas se o senhor tiver o poder de realizar, ela lhe pertencerá absolutamente como sua criatura. Acredite que esta é a esperança de minha vida, eu a confio de sua afeição.
A moça com um gesto de sublime abandono oferecera sua mão acetinada a Seixas, que a beijou murmurando as efusões de seu júbilo e gratidão.
O Lemos que se apartara discretamente para não acanhar os noivos, tornou à conversação, que reassumiu o tom ligeiro das banalidades do costume.
A notícia do próximo casamento de Aurélia produziu na alta sociedade fluminense grande assombro.
Ninguém podia capacitar-se de que essa moça, pretendida pela nata dos noivos fluminenses, podendo escolher à vontade, entre os seus inúmeros adoradores, maridos de toda a espécie, tivesse o mal gosto de enxovalhar-se com um escrevinhador de folhetins.
O Alfredo Moreira, quando a encontrou depois da novidade, não pode esconder o despeito:
- Então casa-se?
- É verdade.
- Afinal achou; cotação muito alta sem dúvida? Replicou o elegante com ironia.
- Não, tornou-lhe a moça no mesmo tom. Ficou-me por uma ninharia.
- Ah! Estimo muito. Que preço?
- Quer saber o preço?
- Estou curioso.
- Foi o seu.
O Moreira mordeu os beiços e riu-se. Apesar de tudo não perdera a derradeira esperança. O projetado casamento podia desfazer-se por qualquer motivo, e não era difícil que a moça de um momento para outro se arrependesse da escolha com a mesma volubilidade com que a tinha feito de repente e por um capricho.
Assim pensava o malogrado pretendente; enquanto que todos os indícios pareciam revelar da parte de Aurélia a firme intenção de persistir na mesma resolução, que ela não tomara, senão depois de muito refletida.
Desde que anunciou-se o casamento, começou a moça a aparecer mais raramente na sociedade, até que de todo retirou-se; limitando-se ao pequeno círculo que freqüentava a sua casa, e no qual ela por assim dizer espanejava sua lama de um certo entorpecimento que lhe deixavam as ternas confidências e devaneios namorados do noivo.
Seixas pelas palavras que Aurélia havia proferido tão d'alma, na ocasião de dar-lhe a mão de esposa, julgara compreender o segredo das estranhezas e oscilações do caráter da moça.
...Ela duvida que eu a ame, pensou consigo. Suspeita que tenho a mira em sua riqueza. É preciso que a convença da sinceridade de minha afeição. Se ela soubesse! Um desgraçado pode sacrificar sua liberdade; mas a alma não se vende!
Imbuído dessa idéia; não é de se estranhar que Seixas tivesse em suas expansões uma exuberância que descaía em exageração. Muitas vezes fatigada, senão opressa, dessas demonstrações apaixonadas, Aurélia que debalde tentara adormecer com elas as desconfianças de sua alma, exclamava entre fagueira e irônica:
- Ah! Deixe-me respirar! Nunca fui amada, nem pensei que seria com tamanha paixão. Careço de habituar-me aos poucos.
A residência de Laranjeiras fora recentemente preparada com luxo correspondente às avultadas posses da herdeira, e já na previsão do próximo consórcio. Poucos eram os preparativos a fazer, para a celebração do casamento, e esses, apressou-os o dinheiro, que é o primeiro e mais eloqüente dos improvisadores.
Tratou-se de marcar o dia. O Lemos pôs em discussão a questão dos padrinhos. Já ele tinha cogitado sobre o assunto, e segundo a moda da nossa sociedade julgava indispensável pelo menos uma baronesa para a madrinha e dois figurões, coisa entre senador e ministro, para padrinhos.
Não tinha ele amizade com gente dessa plaina, mas entendia que um simples conhecimento de chapéu, e até mesmo uma carta de recomendação eram títulos suficientes para solicitar semelhantes favores, com que a vaidade dos grandes se lisonjeia e a presunção dos pequenos se exalta.
(continua...)
ALENCAR, José de. Senhora. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1847 . Acesso em: 27 jan. 2026.